E pra que temer à oposição?!

 

Lorena Carolina Moura Pereira

 

 

         Nós somos criados para vencer, e não nos preparamos nunca para aceitar a perda. Essa frase se tornou um clichê barato, mas seu teor de verdade em qualquer das fases da vida em que estamos é indiscutível. Posso com tranqüilidade citar um exemplo do início de nossas vidas: Nessa fase, ao perdermos algo, por mais banal que seja, a primeira coisa a fazer é chorar por tal perda. Até que sejamos confortados pela reposição do objeto perdido, ou pela simples frase: “a mamãe te dá outro”. Só então nos acalmamos e o pranto se cessa, pois tivemos a nossa vontade respeitada. Esse exemplo, em um primeiro momento, ilustra bem a nossa não-preparação para lidar com perdas materiais; mas uma análise mais cuidadosa nos leva além, pois na verdade o que estava no centro da situação não era apenas o objeto de desejo da criança, e sim, a vontade da mesma. Vontade esta que é análoga as nossas opiniões, enquanto indivíduos adultos, que a rigor devem ser considerados sempre para que nossa homeostasia não seja perturbada.

         É próprio de nossa espécie ter repúdio ao sentimento de ameaça.  Julgamo-nos emocionalmente únicos, especiais e inconfundíveis, e com isso “detentores da verdade”. O aparecimento de opiniões que confrontem com as nossas, é visto como uma ameaça à soberania do nosso eu, e logo queremos refutar aquilo que veio do outro, em prol da única verdade, que é claro, a de nossa autoria.

         A não aceitação da opinião do outro, é algo que remete grande desgaste a nós mesmos, afinal, se deparar com opiniões divergentes às nossas diariamente, é um dos eventos mais certos de se acontecer, além de ser algo irreversível. Somos seres críticos e passíveis a críticas pelo simples fato de existirmos. A maneira que nos vestimos, que nos comunicamos, que nos portamos, é objeto de juízo de valor do outro o tempo todo, e nós bem sabemos disso, tanto é, que nos adaptamos àquilo que a sociedade convencionou como o ideal.

         Quando somos nós os “juízes”, geralmente partimos do ponto de vista de que o outro é parecido conosco, sente as coisas da mesma forma e, em essência, tem os mesmos conceitos adquiridos ao longo da vida por nós. Dessa forma, não chegamos a considerar a hipótese de que uma mesma palavra possa ter um significado diferente no cérebro de outra criatura. Exemplo banal: a palavra emagrecer, tem sentido diferente se quem profere é uma pessoa gorda ou uma pessoa magra. Refletir sobre isto, nos remete as ironias de nossa condição... Como podemos nos achar únicos e especiais e ao mesmo tempo não considerarmos as sutilezas de cada ser e criticar o outro ao nosso bel prazer?!

         Aceitar o olhar crítico do outro não é uma tarefa fácil. Principalmente nessas verdades irredutíveis que criamos, mas aprender a quebrar esses pontos é extremamente necessário. E isto não se aprende de um dia para o outro, são doses terapêuticas a serem treinadas cotidianamente. Com o tempo, nos tornamos maduros, e deixamos morrer dentro de nós a criança mimada e intransigente, para o nascimento de um ser flexível, que não é sinônimo de fraco ou sem personalidade, muito pelo contrário, é sinônimo de um ser que tem autoconhecimento e está disposto a aprender com o outro, além de ser uma pessoa de fácil convívio, perto da qual todos desejam estar.

         A partir do momento que comecei a escrever este texto, estou me dispondo a ouvir críticas, pois um texto (como qualquer outra coisa) é passível de ser amado ou odiado. A elaboração deste foi apenas mais um exercício, que certamente renderá aprendizagem. Temer à oposição seria parar de expressar a individualidade, que como próprio nome já diz, é própria de cada ser. Com flexibilidade, uma individualidade pode acrescentar algo à outra, e juntas, podem constituir uma pluralidade híbrida e rica, que é tão peculiar à complexidade humana.

 

Lorena é estudante de medicina, sobrinha de alvinopolenses e reside em Belo Horizonte.
Contato : lorena_carolina90@hotmail.com