Criatividade

 

Max Gehringer

 

 

 

Empresas que não sabem valorizar a criatividade

 

UMA EMPRESA, PREOCUPADA COM SUAS DESPESAS, RESOLVEU INSTITUIR um concurso de redução de custos. Todos os funcionários foram convidados a participar e as regras eram apenas duas, e bem simples. Primeira regra. A ideia precisava gerar uma economia que pudesse ser quantificada. Era para evitar que os funcionários apresentassem gestões para melhorar o ambiente de trabalho, acreditando que isso geraria mais produtividade, o que pode até ser verdade, mas não é fácil de ser medido. Segunda regra. O investimento necessário para a implantação da ideia deveria se pagar no máximo em 30 dias. Assim, a empresa conseguiria um retorno de curtíssimo prazo e evitaria aquelas sugestões para gastar agora e economizar só ano que vem. E aí vinha o grande incentivo. Para cada ideia que fosse aprovada, a empresa oferecia um prêmio de mil reais. Então, apenas meia hora depois que o concurso foi lançado, a empresa já recebeu a primeira sugestão, para surpresa e alegria dos organizadores. E a ideia era bem criativa: o funcionário que a apresentou propôs reduzir o prêmio de mil reais para quinhentos reais. A sugestão se encaixava direitinho nas duas regras do concurso: era perfeitamente quantificável e o retorno era imediato. Mas a empresa, achando que aquilo era uma gozação, não apenas rejeitou a ideia como ainda advertiu o autor dela. Resultado: todos os funcionários ficaram sabendo e consideraram a atitude da empresa antipática. Daí, ninguém mais apresentou ideias e o concurso morreu. Como tudo na vida corporativa tem uma lição, essa também tem: independentemente do mérito da sugestão, a empresa tinha cometido um erro enorme: o de desprezar um funcionário bem humorado, capaz de pensar rapidamente e criativamente. Quantos outros iguais a ele existiriam na empresa? E quantas boas ideias práticas essa gente poderia ter gerado, se fosse incentivada? Por ter sido quadrada, a empresa perdeu a chance de descobrir. E, pior, continuou a perder dinheiro.

 

 

Os inusitados ângulos de uma mesma questão

 

QUALQUER SITUAÇÃO PODE TER VARIAS INTERPRETAÇÕES. E TODAS elas podem ser corretas. Nas empresas, muitos problemas acontecem quando a maioria se recusa a admitir que a minoria também pode estar certa. Certa vez, eu participei de um curso em que os participantes receberam uma folha de papel em branco, e tinham que responder a uma pergunta: “O que você vê na folha?”. O que você, caro ouvinte, responderia? No curso, 80% dos participantes rapidamente deram a resposta óbvia e pragmática: “Vejo uma folha em branco”. Mas alguns colegas foram mais criativos em suas respostas. Um engenheiro respondeu: “Vejo fibras de celulose tratadas e prensadas”. Um sonhador respondeu: “Vejo meu futuro, que ainda não foi escrito”. Um marqueteiro respondeu: “Vejo todo o espectro de cores, porque a fusão de todas as cores resulta no branco”. Um psicólogo respondeu: “Vejo a imensidão do nada”. E um colega, bastante pragmático, respondeu: “Vejo uma folha de papel que me poderá ser de muita utilidade, numa situação de emergência”. Na hora de avaliar as respostas, os 80% que só viram a folha exatamente como ela era, um pedaço de papel em branco, fizeram muitas gozações com os que tinham ousado enxergar além da brancura do papel. E, só a muito custo, admitiram que as demais respostas também estavam certas. Essa é a sina das pessoas criativas nas empresas: elas sempre veem uma situação comum por um ângulo inesperado e, no mais das vezes, são ironizadas por enxergar o que os outros não enxergam. Os criativos são uma minoria e nem sempre têm razão, mas uma coisa é certa: no mínimo, vale a pena escutá-los, porque eles dão respostas mais interessantes.

 

 

Ver o que não existe

 

A PALAVRA “IDEIA” VEIO DO GREGO, MAS A PALAVRA GREGA ORIGINAL significava, apenas, “enxergar”. Era uma ação puramente visual e não tinha nada a ver com criatividade. Foi só no século XV que os franceses deram à palavra “ideia” a conotação abstrata que ela tem hoje, a de enxergar o que ainda não existe. E, talvez, nem venha a existir. Porque, da palavra “ideia”, derivou a palavra ideal, um estado de perfeição que só existe na imaginação das pessoas. Como, por exemplo, o marido ideal, a mulher ideal ou o funcionário ideal. Não por acaso, um dos ditados mais repetidos através dos séculos - errar é humano - surgiu por culpa das ideias. O primeiro ser humano que construiu, em sua própria imaginação, um barco, certamente deve ter afundado nas primeiras tentativas de fazer com que ele boiasse. E seus colegas de tribo, que não acreditavam em ideias, com certeza disseram que pensar era muito arriscado e fazia mal à saúde Mas um outro teve a ideia do remo, outro imaginou o leme, outro pensou na vela, e o ser humano conquistou o mundo. Porém, antes que isso acontecesse, milhares morreram afogados porque cometeram erros de execução. O erro, muitas vezes, é o pedágio a ser pago na estrada do sucesso. Muitas empresas não toleram o erro e castigam os funcionários que cometem erros. Se o erro é o resultado de uma desatenção ou de uma desobediência, a empresa até tem o direito de punir os que erram. Mas, se o erro for o resultado de uma ideia, aí já é diferente. As boas empresas incentivam seus funcionários a ter ideias e aceitam que nem todas as ideias vão funcionar com perfeição. Já as empresas antiquadas consideram que o funcionário ideal é o que não pensa, só faz o óbvio, contrariando o próprio sentido da palavra. Só erra quem pensa. Errar é natural, errar é humano. Matar ideias, é desumano.

 

 

O poder das pequenas ideias

 

MUITAS EMPRESAS ADOTAM UM TIPO DE PROGRAMA INTERNO MUITO inteligente, em que qualquer funcionário pode apresentar ideias e gestões. Eu tenho um amigo, o Fernando, que trabalha em uma dessas empresas - um banco. Desde que o programa foi implantado, há um ano, o Fernando já apresentou mais de cem sugestões, uma a cada três dias, em média, e metade delas foi aprovada. O interessante é que as ideias do Fernando foram todas simples, coisas fáceis de fazer e que não necessitavam de grandes investimentos por parte do banco. Tanto que o Fernando até recebeu o título de “rei das pequenas ideias” e virou uma espécie de minicelebridade interna, coisa meio difícil numa empresa que tem milhares de funcionários. E de onde o Fernando tirou sua inspiração? De uma historinha que muita gente já ouviu, mas que sempre vale a pena repetir. Em 1980, a 3M, reconhecida mundialmente por estar sempre inventando um monte de novidades, inventou uma cola que não colava. A ideia foi considerada um fracasso e engavetada, até que um dia, um funcionário chamado Artur Fry - uma espécie de Fernando da 3M - transformou o insucesso num enorme sucesso: ele sugeriu usar a cola que não colava para criar o Post-It, aquela folhinha amarela que gruda mas não gruda. Vinte e cinco anos depois, o Post-It já rendeu uma fortuna para a 3M e pouco mudou: agora vem em duas cores, amarelo e rosa, e em dois tamanhos, pequeno e menor ainda. O que o Fernando faz no banco é a mesma coisa: olhar para o que todo mundo

também está olhando e enxergar um detalhe que ninguém ainda tinha enxergado.

Toda empresa brasileira tem um monte de Fernandos, uma gente criativa que só está esperando uma oportunidade para mostrar que sabe pensar. Sorte dos Fernandos que encontram uma empresa que acredita no poder das pequenas ideias. E azar das empresas que não aproveitam a força criativa de seus Fernandos.

 

Do livro " O melhor de Max Gehringer na CBN - Volume 1".

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