Organização, método e cargos

 

Max Gehringer

 

 

A real função do vice

 

LÁ PELO FINAL DO SÉCULO XIX, QUANDO O PODEROSO IMPÉRIO austro-húngaro começou a entrar em decadência, os cofres reais começaram a esvaziar. Os soberanos, que precisavam da lealdade de seus súditos, mas não tinham mais dinheiro para comprá-la, tiveram então uma grande idéia: passaram a distribuir títulos de nobreza para os plebeus. Assim, o Zezinho das Couves se tornava o Visconde das couves e, durante algum tempo, continuava leal à nobreza, porque tinha passado a fazer parte dela. Evidentemente, essa esperteza não durou muito tempo, porque o império austro-húngaro acabou desmoronando. Mas a prática da concessão de títulos persistiu, e continua até hoje. O caso mais exemplar é o da proliferação dos títulos de vice-presidentes em empresas. E a tática é simples: um belo dia, os diretores se tornam vice-presidentes, os gerentes ganham títulos de diretores e os assistentes viram gerentes. De modo geral, todo mundo continua fazendo a mesma coisa que fazia antes e ganhando o mesmo que ganhava antes, mas o novo título, impresso no cartão de visita, dá a impressão de um enorme salto profissional. A palavra vice, em latim, significa “em vez de”. Numa organização, o vice-presidente decide em vez do presidente. Mas, quando existem dez ou quinze vices, o poder de decidir acaba se diluindo e sobra apenas o título, como nos tempos do império austro-húngaro. Essa palavrinha vice, de vice-presidente, veio do latim e é o mesmo vice da expressão vice-versa, que significa “um lado em vez do outro,tanto faz”. Tem quem leva o título de vice-presidente realmente a sério , mas também tem quem vê nele apenas uma maneira da empresa conseguir mais comprometimento e mais motivação, sem ter que desembolsar muito por isso. Um colega meu, o Emílio, quando alguém pergunta qual é o título dele na empresa, responde “tanto faz”. Ou, traduzindo, ele é vice.

 

 

 

O que é hierarquia?

 

 

EU DEMOREI UM POUCO, MAS UM DIA FINALMENTE APRENDI O QUE É hierarquia. Foi assim. Eu estava organizando a convenção de vendas da empresa e achei que seria ótimo se o nosso presidente pudesse fazer a abertura do evento. Aquela coisa, assim, do presidente ir lá na frente, dar um recado rapidinho sobre motivação, declarar abertos os trabalhos do dia e passar a bola. Então, eu cheguei para o presidente e perguntei se ele falaria cinco minutos. Porque, eu expliquei para ele, a agenda do dia era muito apertada e tínhamos muitos assuntos para discutir. O presidente, todo solícito, concordou. E, no dia, subiu no palco e falou cinco minutos. E aí continuou falando. Mais cinco minutos, mais dez, mais quinze. E eu, ali na primeira fila, desesperado. E de repente me veio à lembrança meus tempos de infância, quando eu ia à missa e tinha um padre, o padre Hugo, que nunca conseguia achar o ponto final do sermão. Toda sexta-feira Santa era o mesmo martírio. O padre Hugo subia no púlpito e começava a contar a paixão e morte de Jesus. Aí, ele crucificava Jesus, ressuscitava Jesus, e depois crucificava e ressuscitava de novo, três ou quatro vezes. E os fiéis ali, só torcendo para o padre Hugo deixar Jesus subir aos céus e acabar de uma vez com aquela agonia. E agora o nosso presidente estava ali, dando uma de padre Hugo. No fim, os cinco minutos do presidente duraram perto de uma hora e a agenda do dia foi para o vinagre. No primeiro intervalo, eu cheguei para o presidente e perguntei se ele tinha esquecido do nosso trato de falar só cinco minutos. E ele, solícito como sempre, respondeu: “Não, não esqueci”. E eu perguntei por que ele tinha falado quase uma hora. E ele então, gentilmente, me esclareceu: “Para você nunca mais esquecer quem é o presidente desta empresa”. Isso é hierarquia.

 

 

 

Isso, sim, é que é felicidade!

 

 

VOCÊ NÃO ESTÁ SENDO TRATADO COMO MERECE EM SUA EMPRESA? Então aqui vai um pequeno consolo. No distante ano de 1870, uma empresa inglesa tomou a decisão de tratar seus funcionários de uma maneira liberal. E o fato gerou muitas críticas de outras empresas, que consideravam aquilo uma utopia. Mas a empresa liberal ficou firme em seus propósitos e distribuiu o seguinte comunicado a seus funcionários. Primeiro - o expediente da semana irá de segunda a sábado, das seis da manhã às sete da noite. Segundo - será permitido aos funcionários alimentar-se entre 11:30 e 12 00 horas, mas sem deixar seu local de trabalho. Terceiro - os funcionários poderão aliviar-se duas vezes por dia. Para isso, devem obter autorização prévia da supervisão e utilizar o jardim ao lado do portão número 2. Ao fim do comunicado, a empresa liberal informava que aquelas normas mais humanas estavam sendo duramente criticadas pelas empresas concorrentes. Por isso, a empresa liberal esperava dos funcionários uma retribuição na forma de mais produção - algo que hoje chamaríamos de produtividade. Certamente, alguém deve estar se perguntando: se essa era a empresa liberal, como era o expediente nas demais empresas? Bom, nelas as pessoas trabalhavam sete dias por semana em vez de seis. E o expediente diário tinha 13 horas em vez de 11. Não há registros quanto aos eventuais alívios das necessidades fisiológicas, mas não é difícil concluir que só chefes e supervisores tinham direito a essas regalias. Portanto, o ambiente de trabalho muda mais devagar do que a gente gostaria. Mas muda. Se no fim do século XIX os funcionários soubessem que nós, os privilegiados do século XXI, teríamos banheiros no escritório e pias com água corrente para lavar as mãos, eles certamente diriam: “Isso, sim, é que é felicidade!”.

 

 

 

Tipos de empresas

 

 

EXISTEM DOIS TIPOS DE EMPRESAS. As QUE PROÍBEM E AS QUE incentivam. As que proíbem são visuais: elas têm normas e regulamentos escritos para qualquer situação. As empresas que incentivam são auditivas e orais: elas escutam e discutem. As empresas que proíbem são individuais. Cada um tem o seu lugar, e as fronteiras entre uma função e outra são claramente definidas. As que incentivam são coletivas. Toda área é aberta para quem quiser conhecê-la ou se transferir para ela. Para as que proíbem, o importante é o segredo. Para as que incentivam, o importante é a divulgação. Nas que incentivam, a resposta para qualquer pergunta normalmente é sim. Nas que proíbem, a resposta é sempre não. Nas empresas que incentivam, é essencial ter boas idéias. Nas que proíbem, é vital ter boas desculpas. Nas empresas que incentivam, é fácil conversar com o presidente. Nas que proíbem, é difícil conversar até com o chefe imediato. A empresa que incentiva tem planos de carreira para seus funcionários. A empresa que proíbe acha que o funcionário só reclama. A empresa que incentiva depende de um sistema de administração. A empresa que proíbe depende de uma pessoa que dá ordens. A empresa que incentiva é boa para quem quer progredir. A empresa que proíbe só é boa para quem manda. O estilo da empresa que incentiva parece infinitamente melhor, mas não é bem assim. Muitas empresas incentivadoras já quebraram, e muitas empresas proibidoras estão conseguindo sucesso. Porque existem dois tipos de funcionários: os que preferem ser incentivados a decidir e a inovar, e os que preferem ser mandados e simplesmente obedecer. Por isso, o sucesso de uma empresa não depende de seu estilo, mas de seu processo de seleção. Um funcionário criativo e inovador, que se sinta amordaçado, oprimido e humilhado não está errado: ele apenas não foi contratado pela empresa certa.

 

Do livro " O melhor de Max Gehringer na CBN - Volume 1".

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