Como conquistar um emprego

Parte 5

 

Max Gehringer

 

 

Uma pequena dúvida entre o Céu e o Inferno

 

UM CANDIDATO A ESTAGIÁRIO ESTAVA ATRASADO PARA UMA entrevista. Na pressa, atravessou correndo a rua em frente à empresa, sem olhar para os lados, e foi atropelado por um carro. No instante seguinte, se viu num lugar estranho, cheio de nuvens pelo chão. Sem saber bem o que estava acontecendo, o candidato viu duas portas. Numa estava escrito Céu e, na outra, Inferno. Abriu a porta do Céu e foi recebido por um senhor de barbas brancas. E foi informado que, naquele momento, o Céu não tinha vagas para estagiários. E que deveria voltar no mês seguinte. Enquanto isso, sugeriu o senhor de barbas brancas, o candidato  poderia dar uma olhadinha nas condições oferecidas pelo Inferno.

 

Meio desconfiado, o candidato abriu a porta do inferno e foi recebido por uma simpática recepcionista,  que o encaminhou ao gerente de recrutamento. Muito sorridente, o gerente disse que o Inferno estava mesmo precisando de estagiários e abriu uma janela. Por ela, o candidato viu uma multidão de jovens, em volta de uma piscina, dançando e se divertindo. E aí confessou ao gerente que sempre tivera uma visão muito diferente do Inferno. O gerente falou que a imagem negativa do Inferno era um trabalho de marketing da concorrência, e que o Inferno era aquilo mesmo: só alegria e felicidade, e nenhum trabalho. Feliz da vida, o candidato assinou a ficha de inscrição. E foi encaminhado para uma porta. Ao entrar, foi jogado num caldeirão de óleo fervendo.

E viu um monte de pessoas gemendo e gritando de dor.

 

Surpreso, o estagiário perguntou a um diabo que estava passando o que estava acontecendo. E o diabo explicou:

“Você está sendo castigado porque cometeu os dois pecados mais graves que um candidato a estagiário pode cometer. O primeiro é aceitar o primeiro emprego que aparece. E o segundo é acreditar em tudo o que a empresa promete”.

 

 

Atualização e adaptação, segundo Henry Ford

 

O NORTE-AMERICANO HENRY FORD TRANSFORMOU A CARA DO século XX ao desenvolver, em 1908, um dos carros mais famosos da história. O modelo T, conhecido no Brasil como Ford Bigode. O Ford modelo T foi o primeiro carro do mundo produzido em grande escala e vendido a um preço acessível. Antes do modelo T, só os ricos podiam ter um carro. Por isso, as fábricas contavam sua produção anual em milhares de unidades. Depois do modelo T, as unidades passaram a ser contadas em milhões, porque a classe média já podia comprar um automóvel.

 

E aí... bom, aí, um dia, no auge do sucesso, Henry Ford resolveu levar a família para passar férias na Europa. Era a primeira vez na vida que ele ficaria dois meses longe de seus negócios. Quando Henry Ford voltou, seus executivos tinham uma surpresa para ele. O protótipo de um novo modelo T, mais atualizado, mais bonito, mais avançado. Aí, diz uma versão da lenda, Henry Ford destruiu o carro com as próprias mãos. Segundo outra versão, mandou destruí-lo. Por puro ciúme. Porque o modelo T era a sua criação, a paixão de sua vida, e ninguém podia mexer nele, ou sequer dar palpite. E o velho modelo T continuou a ser fabricado sem alterações até 1927.

 

Nesse ano, a teimosia de Henry Ford finalmente fez com que a Ford perdesse a liderança do mercado. Liderança que nunca mais seria recuperada nos 75 anos seguintes. Através dos tempos, a lição de Ford vem servindo de exemplo para todas as empresas e todos os produtos. E serve também para as carreiras das pessoas. É preciso mudar, se atualizar e se adaptar. Produtos e carreiras não têm idade. A Coca-Cola já tem mais de 100 anos e continua jovem. A mesma coisa acontece no mercado de trabalho. Não existem profissionais jovens ou velhos.

Existem apenas profissionais atualizados ou desatualizados.

 

 

Os personagens corporativos

 

Os insatisfeitos atrapalham ou ajudam?

 

 

 

TODA EMPRESA TEM UM TIPO DE FUNCIONÁRIO MUITO PECULIAR, O insatisfeito. Ele não gosta de regras, detesta burocracia, abomina ordens e acha que trabalhar em equipe é sinônimo de castigo coletivo. Mesmo assim, o insatisfeito consegue desenvolver uma relação produtiva com a empresa.  Apesar de viver protestando contra tudo e contra todos, o insatisfeito não pede a conta, nem a empresa pensa em demiti-lo. Porque, apesar da insatisfação, ele traz bons resultados.

De modo geral, o insatisfeito passa boa parte de seu dia criticando qualquer coisa que lhe apareça pela frente. Por exemplo, o planejamento estratégico da empresa. A cor da parede do escritório. A rotina, O gosto do café. A lentidão dos colegas. As reuniões improdutivas. A falta de imaginação dos superiores. Se dependesse só da vontade do insatisfeito, praticamente tudo teria que ser mudado imediatamente para que a empresa ganhasse mais agilidade e mais eficiência. E é exatamente por isso que a empresa tolera a sua rebeldia. Ter muitos funcionários insatisfeitos seria desastroso, porque resultaria no caos absoluto. Mas não ter nenhum também seria um desastre,  porque geraria uma perigosa acomodação. O insatisfeito funciona como um amplificador das pequenas mazelas do dia-a-dia. Pode ser que nada seja tão grave como ele apregoa, mas nenhuma de suas queixas é ilusória ou paranóica.

 

Para as empresas, há uma linha que separa o insatisfeito Positivo do insatisfeito negativo. O negativo é um anarquista, que desagrega o ambiente de trabalho. Já o positivo é um idealista, que quer genuinamente melhorar as coisas. E a empresa sabe que, no fundo, ele quer o que todos os funcionários também querem. O insatisfeito às vezes é chato, às vezes é folclórico, às vezes é exagerado. No mais das vezes, porém, ele é a voz dos que preferem ficar calados.

 

 

 

O imprescindível é aquele que não parece ser

 

TODA EMPRESA TEM ALGUÉM IMPRESCINDIVEL E É FÁCIL IDENTIFICAR essa pessoa. Ela é exatamente aquela que os outros não acham imprescindível. Uma pessoa que raramente é convidada para participar de uma reunião. Que passa o dia em seu canto, com uma caneta meia-carga no bolso da camisa. Que nunca é convidada a opinar sobre um assunto importante. Assim, enquanto a empresa ferve, o imprescindível fica frio. E a senha para que ele entre em ação é uma palavrinha: “ninguém”. Funciona assim. A empresa tem um enorme problema para resolver. Milhões de dados já foram levantados, centenas de cenários já foram considerados, dezenas de especialistas já foram consultados. Mas sempre falta uma informação para completar o quebra-cabeça.

E aí o diretor perde a calma e diz:

“Mas não é possível. Será que Ninguém sabe isso?”.

 

Nesse momento, quando o diretor diz a palavra mágica - ninguém -, alguém se lembra do imprescindível. Ele está na empresa há tanto tempo, que sabe tudo. Lembra de tudo. Participou de tudo. Mas, como nunca teve muita ambição, foi sendo esquecido. Como não usa termos complicados, nem palavras em inglês, é considerado ultrapassado. Nem um quadrinho decente no organograma ele tem. Aos poucos, ele foi se tornando.., ninguém. Mas sempre chega aquela hora em que ninguém sabe. E aí o imprescindível sai de sua sombra e dá a informação que todos estavam procurando. E, enquanto todo mundo comemora, o imprescindível já saiu de perto e está tomando seu café num copinho plástico, sem tripudiar nem se vangloriar, O imprescindível é assim. Ele não almeja ser alguém.

Só quer fazer seu trabalho em paz, sem incomodar.

E quando o diretor diz:

 

“Nesta empresa, ninguém é imprescindível”, o imprescindível agradece.

Porque sabe que, ali, ninguém é mais ninguém que ele.

 

Do livro " O melhor de Max Gehringer na CBN - Volume 1".

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Um livro que vale a pena ter em casa para consultar sempre.