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Max Gehringer

 

 

 

A fábula das pulgas

 

MUITA GENTE ACHA QUE A SOLUÇÃO PARA SEUS PROBLEMAS ESTÁ EM uma mudança radical. Como se tudo o que foi feito até agora estivesse errado. Acontece que muitas vezes uma pequena mudança pode fazer mais efeito que uma grande mudança. É o que ensina a historinha das duas pulgas.

Duas pulgas estavam reclamando da vida quando uma disse para a outra: “Sabe qual é o nosso grande problema? Nós não sabemos voar. Só sabemos saltar. Aí, quando o cachorro percebe nossa presença, nossa chance de sobrevivência é zero. É por isso que existem mais moscas do que pulgas neste mundo - moscas voam. E aí as duas pulgas fizeram um curso de mosca. Aprenderam a voar. Mas não ficaram satisfeitas. E uma disse para a outra: “Sabe qual é o nosso grande problema? Nós ficamos grudadas no corpo do cachorro. Daí, nosso tempo de reação é mais lento que a coçada dele. Temos que fazer como as abelhas, que sugam o néctar e levantam vôo rapidamente”. E aí as duas pulgas fizeram um curso de abelha. Mas não ficaram satisfeitas. E uma disse para a outra: “Sabe qual é o nosso grande problema? Nosso estômago é muito pequeno. Escapar do cachorro a gente até escapa, mas não estamos nos alimentando adequadamente. Temos que ser como os pernilongos, que tem aquele barrigão enorme”. E aí as duas pulgas fizeram um curso de pernilongo. Mas não ficaram satisfeitas. Porque, com aquele barrigão, eram facilmente percebidas pelo cachorro e eram espantadas antes mesmo de conseguir pousar. Aí, totalmente frustradas porque nada na vida delas dava certo, as duas pulgas encontraram uma saltitante pulguinha. Como viram que a pulguinha estava forte e sacudida, as duas pulgas perguntaram: “Escuta, o que é que você mudou que nós ainda não mudamos?”. E a pulguinha respondeu: “Nada, ué”. “Como assim, nada?”, perguntaram as pulgonas. “Como é que você escapa da coçada do cachorro?”. E a pulguinha respondeu: “Ah, é simples. Eu sento no cocuruto dele. É o único lugar que ele não alcança com a pata”.

 

 

Não sei

 

SE VOCÊ AINDA NÃO SABE QUAL É A SUA VERDADEIRA VOCAÇÃO, IMAGINE a seguinte cena. Você está olhando pela janela. Não há nada de especial no céu, só algumas nuvens aqui e ali. Aí, chega alguém que também não tem nada para fazer e pergunta: “Será que vai chover?”. Se você responder: “Com certeza”, a sua área é Vendas. O pessoal de vendas é o único que sempre tem certeza de tudo. Se a resposta for: “Sei lá, estou pensando em outra coisa”, a sua área é Marketing. O pessoal de Marketing está sempre pensando o que os outros não estão. Se você responder: “Sim, há uma boa probabilidade”, você é da área de Engenharia, sempre disposta a transformar o universo em números. Se a resposta for: “Depende”, você nasceu para Recursos Humanos, uma área em que qualquer fato sempre está na dependência de uma série de outros fatos. Se você responder: “A Meteorologia diz que não”, você é da área de Contabilidade, a que sempre confia mais nos dados do que nos próprios olhos. Se a resposta for: “Sei lá, mas por via das dúvidas eu trouxe o guarda-chuva”, seu lugar é na área Financeira, que deve estar sempre preparada para qualquer virada de tempo. Agora, se você responder: “Não

sei”, há uma boa chance de que você tenha uma carreira de sucesso e acabe chegando à Diretoria da empresa. De cada cem pessoas, só uma tem a coragem de responder “Não Sei” quando não sabe. Os outros 99 sempre acham que precisam ter uma resposta pronta, seja ela qual for, para qualquer situação: “Não sei” é sempre uma resposta que economiza o tempo de todo mundo e predispõe os envolvidos a conseguir dados mais concretos antes de decidir. Parece simples, mas responder “Não Sei” é uma das coisas mais difíceis de aprender na vida corporativa. Por que, eu, sinceramente, não sei.

 

 

 

Auto-ajuda

 

TUDO TEM SOLUÇÃO. SE VOCÊ ESTÁ PASSANDO POR UMA CRISE existencial, ou se era para ser promovido e não foi, ou se faz quatro anos que você não tem um aumento decente, não se preocupe. Tudo tem solução. E a solução custa apenas 20 reais, que é o preço de um livro que diz que tudo tem solução. Melhor ainda, há uma enorme variedade de livros que dizem que tudo tem solução. Aqui vão alguns exemplos. Um livro de Astrologia dirá que você está vivendo uma fase de eclipse profissional, nada que um bom mapa astral não possa resolver. É só esperar que Saturno entre na casa de Sagitário, o que deve acontecer daqui a 125 anos. Um livro de Esoterismo dirá que nada está errado com você. O que está errado é o seu nome, que tem letras demais. Mude o nome e você mudará de vida. Um colega meu, o Robertão, fez isso. Mudou o nome para Elisabete e nunca mais foi o mesmo. Um livro de Meditação lhe dará uma receita infalível - não faça nada e tudo se resolve. É recomendado para quem gosta de esperar sentado. Um livro de

Inteligência Emocional lhe ensinará que existe uma diferença entre o QI, o Quociente Intelectual, e o QE, o Quociente Emocional. E a diferença é a seguinte: quem tem um bom QI sabe o que é um logaritmo. E quem tem um bom QE não sabe, mas encontra uma ótima desculpa para não saber. E tem, é claro, o livro de auto-ajuda. Esse é tiro e queda. E a receita é a seguinte. De manhã, ao acordar, olhe-se no espelho. Fixamente. Aí, diga para você mesmo: “Eu vou superar”. Repita a mesma cerimônia durante trinta dias, sem interrupção. E, se depois de 30 dias você não tiver superado nada, troque o espelho.

 

 

 

Cinco por cento

 

EU HOJE ME LEMBREI DE UMA DESSAS ESTATÍSTICAS BASEADAS MAIS no bom senso do que na técnica. É a regrinha dos cinco por cento. Segundo essa regra, de tudo o que nós escutamos, vemos, falamos, lemos ou escrevemos todos os dias, só cinco por cento realmente interessam. O resto é descartável. Da mesma forma, de cada 100 estagiários contratados por empresas, só cinco chegarão a cargos de chefia. De cada 100 pequenos negócios que são abertos, só cinco se transformarão no sucesso que o dono sonhava. De cada 100 bons alunos, só cinco repetirão na vida profissional o bom desempenho que tiveram na escola. A mesma regra vale para o trabalho. Se nós passamos 40 horas por semana em uma empresa, só durante cinco por cento desse tempo, ou duas horas, estaremos fazendo alguma coisa pela qual poderemos ser lembrados daqui a algum tempo. As outras 38 horas são gastas em trabalhos de rotina, em reuniões, em conversas ao telefone ou em bate-papos sem importância. Um teste que eu fazia comigo mesmo era me

perguntar como eu tinha gasto minhas duas horas de criatividade na semana anterior. E, no mais das vezes, eu descobria que tinha sido, simplesmente, engolido pela rotina. Essa lição dos cinco por cento eu devo a meu saudoso professor Wantuil. Certa vez, depois de mais uma daquelas algazarras incontroláveis durante a aula, o professor Wantuil nos disse que os 95% de alunos que quisessem continuar com a bagunça poderiam continuar à vontade, porque ele estava interessado só nos cinco por cento que iriam ser alguma coisa na vida. E a classe imediatamente ficou em silêncio, porque todo mundo sempre se considera parte dos cinco por cento. Não sei se a lição funcionou no meu caso, mas certamente funcionou no caso do professor Wantuil. Porque eu devo ter tido uns 100 professores na vida, e ele é um dos cinco que eu ainda me lembro.

 

Do livro " O melhor de Max Gehringer na CBN - Volume 1".

Se quiser saber tudo sobre carreira, currículo, comportamento e liderança, adquira o livro.

Um livro que vale a pena ter em casa para consultar sempre.

 

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