Como conquistar um emprego

Parte 8

 

Max Gehringer

 

 

O funcionário-joio, que não contribui e contamina

 

OUTRO DIA, EU OUVI PELA MILÉSIMA VEZ UMA FRASE QUE A GENTE repete muito em empresas: “É preciso separar o joio do trigo”. Não sei se todo mundo sabe o que é joio, mas eu não sabia. E, por isso, fui perguntar para quem entende. Falei com o pessoal do Moinho Santista, que vem comprando e vendendo trigo no Brasil desde os tempos da Princesa Isabel. E um especialista lá do Moinho me explicou que o joio é uma erva daninha que cresce no meio das plantações de trigo. E aí vem a pior parte - o joio é tóxico. Se o joio for moído junto com o trigo, a farinha inteira fica venenosa. E basta um tantinho de joio para envenenar um montão de farinha. Quando eu já estava começando a pensar em nunca mais comer pão nem bolo na vida, o especialista me deu uma boa notícia. A gente só usa a frase hoje em dia porque ela está na Bíblia, não porque o joio ainda seja uma ameaça. O joio foi erradicado. Não existe mais já faz séculos. Isso, no caso da farinha de trigo. Mas não no caso das empresas. Existem muitas empresas que se transformaram em um solo fértil para o desenvolvimento do funcionário-joio. Quando o clima é de fofoca e a temperatura esquenta, um único funcionário-joio é capaz, sozinho, de envenenar todo o ambiente de trabalho. E aí, de intriga em intriga, o funcionário-joio acaba sendo promovido, enquanto o funcionário-trigo fica ali, só criando raiz. Qualquer empresa é capaz de separar o joio do trigo. Só que algumas, por não entenderem muito de botânica, aproveitam o joio e desprezam o trigo.

 

 

Os 20% que fazem e os 80% que esperam

QUALQUER EMPRESA, INDEPENDENTEMENTE DO TAMANHO, SE DIVIDE em grupos de dez funcionários. De cada dez, dois trabalham para acelerar os negócios. Outros dois fazem o possível para brecar todas as iniciativas dos dois que querem acelerar. E os outros seis só acompanham a maré. É evidente que os dois que aceleram têm que trabalhar em dobro, por eles e pelos dois que brecam. Uma empresa de sucesso é aquela que identifica e neutraliza os dois funcionários que querem deixar tudo como está. Normalmente, essas duas pessoas não confiam nelas mesmas. E essa insegurança faz com que elas tenham um empecilho para qualquer idéia. A especialidade delas é produzir desculpas. Estão sempre solicitando mais dados para retardar uma decisão, sugerindo reuniões para discutir melhor o assunto, ou pedindo um relatório escrito sobre algo que poderia ser conversado em três minutos. E como as empresas agem com relação a essas duas pessoas? Normalmente, de duas maneiras, e ambas incorretas. Ou fazem de conta que o problema não existe, ou demitem. Demitir, simplesmente, pode ser um erro, porque essas duas pessoas podem ter conhecimentos técnicos valiosos. Além disso, não importa quem seja contratado no lugar delas, a regra dos dez vai continuar existindo e vão aparecer outras duas pessoas em cada dez para tentar brecar o progresso. As empresas mais produtivas são as que incentivam as duas pessoas que querem empurrar e isolam as duas que querem brecar. Assim, os seis que vão para onde o vento estiver soprando se alinharão com as duas mais produtivas. Por outro lado, quando uma empresa resolve dar poder aos dois que só querem manter tudo como está, os seis neutros se juntam a eles, e não há negócio que resista a 80% de funcionários em marcha lenta. E, pior de tudo, os dois que realmente trabalham não agüentam e vão embora. Ou ficam, mas vivem estressados e com insônia, porque é duro tentar plantar quando oito não querem colher.

 

 

A natureza dos beija-flores

 

AO CONTRÁRIO DAS DEMAIS AVES, QUE VOAM COM O CORPO NA posição horizontal, o beija-flor voa na vertical. Por isso, suas asas não batem para cima e para baixo, como as de seus colegas de pena, mas para frente e para trás. Essa proeza requer um esforço enorme: o beija-flor precisa bater as asas mais de 60 vezes por segundo, e seu coração bate 1.260 vezes por minuto. E claro que, para ter tanta vitalidade, o beija-flor precisa de energia. Muita energia. Ele consome, a cada dia, entre metade e 3/4 do peso de seu corpo em açúcar. E é aí que vem o grande paradoxo dos beija-flores: nada menos que 80% da energia que eles produzem é gasta apenas para sustentar seu peculiar estilo de vôo. Se um beija-flor aprendesse a retirar o néctar das flores pousando na planta, em vez de ficar batendo asa ao lado dela, ele reduziria sua carga de trabalho em 80%. Teria menos estresse e não sobrecarregaria tanto seu coração. Por que então o beija-flor nunca pensou nessa solução mais cômoda? Porque então ele se transformaria em um passarinho qualquer, e aí teria duas opções na vida: ou ficaria trancado numa gaiola, piando na hora certa e ganhando sua raçãozinha de alpiste, ou viveria uma vida de pardal, voando anônimo pela vida. Ser diferente das outras aves não é a sua opção. É a sua natureza. Nas empresas, existem pessoas que estão sempre fazendo um monte de coisas ao mesmo tempo, freqüentando tudo quanto é curso que aparece, pulando para lá e para cá e, acima de tudo, tendo idéias e dando sugestões. São os beija-flores das empresas. Mas essa gente, quase sempre, é mal entendida pelos colegas de trabalho. O que o funcionário beija-flor chama de “entusiasmo”, seus colegas classificam como “falta de foco”. O que ele chama de “dinamismo”, seu chefe chama de “dispersão”. Por que o profissional beija-flor insiste em ser acelerado e criativo, quando seria muito mais fácil ser igual a todo mundo? Porque ser diferente dos colegas não é a sua opção. É a sua natureza.

 

 

Organização, método e cargos

 

Descrevendo os cargos de uma empresa

 

VAMOS FALAR DA DESCRIÇÃO DE CARGOS. TODA BOA EMPRESA TEM um Manual de Descrição de Cargos, que explica o que cada funcionário faz - ou deveria fazer. Como o tema é muito extenso, vamos simplificar. Um organograma se divide em cinco degraus. No primeiro degrau estão os estagiários, auxiliares e assistentes. Essa gente trabalha dez horas por dia e fica cansada. Caso manifeste à empresa esse estado de cansaço, o funcionário do primeiro degrau receberá a recomendação de procurar outro emprego. No segundo degrau, o da supervisão e da média gerência, uma pessoa trabalha onze horas por dia, mas não fica mais cansada. Fica esgotada. E terá direito, ocasionalmente, a uma licença médica. No terceiro degrau, o das gerências de alto nível, o gerente trabalha doze horas por dia e aí ganha o direito de dizer que está extenuado. E será aconselhado a fazer sessões de terapia, cobertas pelo plano de assistência médica. O quarto degrau é o dos diretores. Que trabalham treze horas por dia e não ficam cansados, nem esgotados, nem extenuados. Diretor fica estressado. Só que, no caso dele, a palavra é levada a sério. Se um trainee disser que está com estresse, todo mundo vai dizer que é frescura. E diretor estressado faz descanso sabático. Tira um mês e vai escalar o Everest ou fazer o caminho de Santiago de Compostela. O quinto e último degrau é o da presidência. Presidentes trabalham 14 horas por dia e não cansam, nem extenuam, nem estressam. Em sua Descrição de Cargos está escrito que o presidente deve fazer de conta que está acima das fraquezas humanas. E todo mundo na empresa contribuirá para isso, dizendo que o presidente está com ótima aparência, mesmo que ele esteja um lixo. É por isso que qualquer Descrição de cargos sempre vem acompanhada de outra palavrinha - Descrição de Cargos e Salários. Resumindo, o funcionário comum é pago - e muito mal pago - para ficar cansado. E o presidente é pago - e muito bem pago - para fingir que nunca se cansa.

 

Do livro " O melhor de Max Gehringer na CBN - Volume 1".

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