Esse estranho ser chamado Chefe

 

Max Gehringer

 

 

 

No final, a glória é do chefe!

 

EM JULHO DE 2004, FORAM COMEMORADOS OS 35 ANOS DE UM grande feito da humanidade. A chegada do ser humano à Lua. Exatamente às 23 horas, 56 minutos e 31 segundos, horário de Brasília, o astronauta Neil Armstrong terminou de descer os nove degraus do módulo lunar Eagle e deixou na superfície da Lua a impressão da sola de sua bota do pé direito, tamanho 41. Nem todo mundo lembra do feito de Neil Armstrong. Mas, dos três astronautas da missão Apolo 11, se alguém consegue ser lembrado, é ele. Saber os nomes dos outros dois já é coisa de fanático por astronomia. O que pouca gente sabe é que Neil Armstrong foi o primeiro a pisar na Lua por dois motivos. O primeiro, e mais conhecido, é que ele era o chefe daquela missão espacial. O segundo motivo é que, dos três astronautas, Neil Armstrong era, tecnicamente falando, o menos necessário. O segundo homem a pisar na Lua, Buzz Aldrin, só desceu depois que Neil Armstrong garantiu que tudo estava bem. Porque Buzz Aldrin era o piloto do módulo lunar. Se ele descesse antes e acontecesse alguma coisa errada, Neil Armstrong não conseguiria mais levantar vôo. O terceiro astronauta, que ficou rodando no espaço, Michael Collins, era na verdade o mais importante dos três, porque era o único que conseguiria pilotar a nave espacial de volta para a Terra. Por isso mesmo, permaneceu em órbita, lá em cima, esperando os outros dois. Trinta e cinco anos depois, a chegada do homem à Lua continua sendo um belo exemplo do que é o mundo corporativo moderno. Ou seja, não importa que os funcionários sejam extremamente bem qualificados, nem que executem com perfeição suas tarefas. Porque, no fim das contas, quem acaba ficando com toda a glória... é o chefe.

 

 

Como conversar com o chefe 

 

EU JÁ VI MUITOS PROFISSIONAIS SE PREPARAREM CUIDADOSAMENTE, meticulosamente, para fazer uma apresentação. Tem muita gente que até ensaia na véspera, para cronometrar o tempo. Entrevistas, então, nem se fala. Há quem mude até a marca do desodorante para se apresentar bem. Mas muito raramente eu vi algum funcionário se preparar para falar com o chefe. E aquelas repetidas entradinhas na sala do chefe, que sempre começam com a frase “chefe, temos um problema”, podem influir muito mais na carreira de um funcionário do que uma ocasional apresentação ou entrevista. Quase ninguém se prepara para falar com o chefe, porque todos sempre acham que já sabem tudo o que irão dizer. E, na hora, percebem que faltam detalhes ou informações. Ou então descobrem que o chefe não tem a mínima idéia do que o funcionário está falando. Estou dizendo isso porque, um dia, eu tive um chefe ótimo. Quando ele me contratou, ele me deu uma folha cujo título era “Como trazer um problema para o chefe”. E a folha tinha três perguntinhas, que a gente tinha que trazer já respondidas. Primeira, qual é o problema? Segunda, qual foi a causa do problema? Terceira, quais são as possíveis soluções? Aí, vinha uma observação: o tempo para responder a cada uma das perguntas era de cinco minutos, no máximo. Se fosse preciso esticar o tempo, o chefe decidiria. Em seguida, vinham dois lembretes úteis. Primeiro, se eu precisar de relatórios ou gráficos para ilustrar o que estou falando, devo trazê-los. Segundo, se eu precisar que outra pessoa me apóie ou dê informações, devo levá-la comigo. Trabalhei quatro anos com esse chefe e nunca tive nenhum problema, muito pelo contrário. Principalmente porque, bem lá no pé da folha que ele me deu, havia um asterisco chamando a atenção para o ponto mais importante: Como posso deixar o chefe com a impressão de que foi ele, e não eu, quem resolveu o problema?

 

 

Ótimas idéias para o chefe? Só com testemunhas!

 

TODO MUNDO CONHECE A HISTÓRIA DO OVO DE COLOMBO. MAS A história por trás da história é ainda melhor. A história diz que o Cardeal Mendoza, da Espanha, ofereceu um banquete após Colombo ter descoberto a América. Que, na época, ainda não chamava América, chamava Novo Mundo, mas isso não tem importância. Como muita gente invejosa havia sido convidada para a boca-livre, algumas pessoas se puseram a diminuir os méritos de Colombo, dizendo que qualquer um, com um barquinho e um pouco de sorte, podia ter chegado onde Colombo chegara. Colombo então os desafiou a colocar um ovo em pé. O garçom, que na época também não chamava garçom, chamava Juan, providenciou um ovo fresquinho e todo mundo tentou, mas ninguém conseguiu. Porque ninguém pensou no que Colombo faria a seguir. Quebrar uma das extremidades do ovo. Moral da história, depois que alguém mostra o caminho, é fácil segui-lo. A história é ótima, mas os historiadores afirmam que o verdadeiro pai do ovo não foi Colombo. Foi um arquiteto italiano da Renascença, Filipo Bruneleschi, que havia feito o mesmo truque alguns anos antes. Colombo, que era italiano, sabia da história. Mas os espanhóis não sabiam e ficaram encantados com a criatividade de Colombo. Segunda moral da história. Quando uma idéia é boa e sua autoria é duvidosa, leva vantagem quem tem mais prestígio. No mundo corporativo, é muito comum um funcionário ter uma idéia, e apresentá-la para o chefe. Aí, o chefe diz que a idéia não é boa e pede para o funcionário esquecê-la. Uma semana depois, o chefe apresenta a idéia como se tivesse sido dele e não do funcionário. Terceira moral da história. Só bote um ovo em pé na mesa do chefe se houver testemunhas.

 

 

 

O que não dizer para seu chefe

 

QUEM NÃO TEM UM CHEFE CHATO JÁ TEVE. E QUEM NÃO TEM NEM teve, um dia com certeza vai ter. Chefe de verdade é aquele que manda pelo prazer de mandar. E os chefes não são assim porque têm algum trauma de infância mal curado. Eles são assim porque são chefes. A primeira regra de sobrevivência em qualquer empresa é nunca falar mal do chefe. Por pior que ele seja. Então, pensando no bem geral dos subordinados em geral, eu fiz uma pequena pesquisa com cinco dos piores chefes que conheci na vida. Chefes que não aparam os pelinhos do nariz e deixam a cutícula crescer até ficar maior que a unha. Pedi que eles me dissessem quais são as cinco coisas que eles menos gostam de ouvir de seus subordinados. Para minha surpresa, as respostas foram muito parecidas. Então, aqui vão cinco maneiras práticas de irritar o chefe.

 

É urgente?

Posso interromper?

Chefe, temos um problema.

Estamos fazendo o possível.

Veja bem.

 

Aliás, qualquer frase que comece com “veja bem” raramente vai para algum lugar. Um dos chefes me disse que a única frase pior que “veja bem” é “com certeza”, porque só responde com certeza quem não tem certeza.

 

 

Do livro " O melhor de Max Gehringer na CBN - Volume 1".

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Um livro que vale a pena ter em casa para consultar sempre.

 

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