Organização, método e cargos

 

Max Gehringer

 

 

 

Sete dias sem planejamento

 

EM QUALQUER EMPRESA, O PLANEJAMENTO É UMA ÁREA indispensável, porém muito mal compreendida. Algumas empresas sofrem por falta de planejamento, enquanto outras sofrem por excesso de planejamento. Planejar é uma palavrinha que significa exatamente o que ela parece significar: aplainar. Deixar um terreno plano para que, no futuro, algo possa ser construído nele. Parece fácil, mas não é, porque o futuro é sempre uma área cinzenta e cheia de obstáculos, nem sempre claramente percebidos. Por isso, o planejador é bombardeado por todos os  lados. Se ele só pensa no longo prazo, é acusado de viver fora da realidade. Se ele tenta pensar no curto prazo, é acusado de ser imediatista. E, se ele tenta pensar ao mesmo tempo no curto e no longo prazo, desenvolve uma gastrite. Imaginem um gerente de vendas tendo que fechar a cota deste mês, naquele desespero natural, e, ao mesmo tempo, ter que imaginar como será o mercado daqui a cinco anos. Ou ele faz uma coisa, ou faz outra. E, se tentar fazer as duas, não fará nem uma nem outra. Deus só criou o universo em sete dias porque se ocupou apenas da execução. Se no primeiro dia tivesse criado uma área de planejamento para assessorá-lo, o pessoal ainda estaria discutindo se seria melhor a Terra girar para a esquerda ou para a direita. O papel da área de Planejamento é mostrar como será o terreno sobre o qual o futuro vai ser construído. Como ninguém sabe como será o futuro, o Planejamento monta diversos cenários possíveis e vai mudando esses cenários à medida que novas situações surgem. Para poder fazer isso, os planejadores precisam de tempo e, principalmente, precisam ser afastados das ações de curto prazo. O planejador é alguém pago para enxergar o que o resto não tem tempo para enxergar. Por isso, ele é, ao mesmo tempo, tão necessário e tão mal compreendido.

 

 

 

Desobedeceu, dançou

 

AUTOCRACIA SIGNIFICA O GOVERNO DE UM SÓ. EMPRESAS AUTOCRÁTICAS são aquelas que têm um dono que tudo pode e tudo manda, sem pedir, e nem ouvir, a opinião de ninguém. Em empresas assim, a mera curiosidade de um funcionário já é vista como uma afronta. Um dirigente autocrático acha que qualquer questionamento ao sistema é um pecado, e qualquer sugestão é um sacrilégio. Os resultados da empresa jamais são compartilhados com os funcionários. A área de auditoria é temida e age com a sutileza de um pitbull. E as medidas punitivas são sempre desproporcionais aos erros cometidos. Funcionários criativos são encarados como uma ameaça, porque ter idéias é um monopólio do dirigente autocrático. Quando um funcionário pede demissão de uma empresa autocrática, ele é visto como um traidor da causa, um ingrato que foi incapaz de entender tudo o que a empresa fez por ele. Mas, quando um funcionário é demitido pela empresa autocrática, ele é tratado como um pecador que foi expulso do paraíso. Empresas autocráticas até têm sucesso, mas é um sucesso temporário. Com o passar do tempo, a empresa irá definhar, porque o próprio sistema impede a formação de sucessores. A concentração de poder é tão grande que a vida útil da empresa autocrática tem a mesma duração da vida biológica de seu comandante. Quando, um dia, ele partir para outra existência, será substituído por alguém que lhe foi subserviente a vida inteira. E aí o substituto irá se comportar como um cachorrinho que perdeu o dono e não sabe mais para que lado deve balançar o rabo. Quem trabalha em uma empresa autocrática sabe que nela só existe uma regra. Carreira é sinônimo de obediência. Desobedeceu, dançou.

 

 

 

 

 

Cafezinho com o presidente

 

O OUVINTE MARCELINO, DO RIO, ESCREVEU PARA CONTAR QUE TEVE uma experiência nova. Ele foi convidado para um café-da-manhã com o presidente da empresa em que trabalha. Semanalmente, já faz alguns meses, o presidente vem juntando grupinhos, de uma dúzia de prezados colaboradores, e passa 45 minutos com eles. E chegou a vez do Marcelino participar. Ele conta que nem dormiu direito, empolgado com a chance de conhecer, como ele mesmo disse, “a pessoa por trás do cargo”. Mas a conclusão do Marcelino foi decepcionante. Ele relata que o presidente só falou em trabalho e disse o que todo mundo ali no café já sabia. Que os objetivos precisam ser alcançados, que o sucesso da empresa depende do esforço de cada um, e coisas do gênero. O Marcelino esperava que o presidente contasse alguma coisa útil. Por exemplo, como chegou a presidente. Quais erros cometeu na carreira. Como lidou com chefes incompetentes. Ou, então, que pedisse sugestões do pessoal ali presente, o que o presidente não fez. Ou, no mínimo, que mostrasse seu lado humano, contando coisas que nada tinham a ver com o trabalho. No fim, diz o Marcelino, o café serviu para que a imagem do presidente continuasse a mesma que era antes do café, a de alguém distante dos colaboradores. Mesmo assim, o Marcelino procurou ver o lado positivo do encontro. O croissant com geléia estava ótimo. Finalmente, o Marcelino pergunta se está sendo crítico demais em sua avaliação. Não, Marcelino. O café com o presidente é uma das novidades nas grandes empresas. Faz parte de um programa de Recursos humanos. Em teoria, serve para aproximar a cúpula e a base da pirâmide. Tudo no café é controlado, menos uma coisa, o comportamento do próprio presidente. No caso de sua empresa, infelizmente, o café do presidente com os colaboradores serviu apenas para mostrar  que o presidente não gosta de tomar café com os colaboradores.

 

 

 

 

Preço salgado

 

HÁ DOIS MIL ANOS, UMA MATÉRIA-PRIMA VITAL PARA A SOBREVIVÊNCIA era o sal. Porque deixar a carne secar ao sol, e depois conservá-la com sal, era a única maneira de mantê-la comestível durante vários meses. O sal era tão importante que, no segundo capítulo do livro bíblico do Levítico, há uma recomendação aos fiéis. O texto diz: “Em suas oferendas ao Senhor, você deve colocar uma pitada de sal”. No mesmo versículo, de apenas cinco linhas de texto, essa recomendação sobre o sal é repetida três vezes. Embora indispensável à vida, naquela época o sal não era abundante, nem era barato. Por isso, o exército romano dividia o pagamento de seus soldados em duas partes. Uma parcela era paga em moedas. Mas a parcela maior era uma espécie de vale, que podia ser apenas trocado por sal. Essa parte do pagamento tinha o nome de salanum. Foi daí que surgiu não só a nossa palavra salário, mas também a expressão “preço salgado” para qualquer mercadoria que custasse os olhos da cara. Como o exército romano se manteve motivado, e vencedor, por quase dois mil anos, supõe-se que os soldados estivessem mais que satisfeitos em receber seu pagamento em sal. Hoje, embora o sal tenha ficado barato, a palavra salário continua a ser usada, talvez para lembrar às empresas por que os soldados romanos conseguiram conquistar o mundo. Uma legião de funcionários mal pagos pode até ganhar uma ou outra batalha. Mas só um exército de funcionários bem pagos consegue, consistentemente, vencer todas as guerras.

Durante minha carreira profissional, eu conheci várias empresas que pagavam mal a seus funcionários, mas, mesmo assim, elas conseguiram ser um relativo sucesso.

Hoje, nenhuma dessas empresas existe mais. No longo prazo, como os romanos ensinaram, a motivação e a vitória serão sempre diretamente proporcionais ao salário pago.

 

 

 

 

 

Efeito príncipe Charles

 

UM PROBLEMA QUE VEM AFETANDO ALGUNS DOS MEUS COLEGAS É o chamado “efeito príncipe Charles”. O príncipe Charles, como todo mundo sabe, um dia vai ser rei. Ele nasceu para ser rei, foi preparado para ser rei, e todo mundo fica o tempo todo dizendo que ele vai ser rei, que é só uma questão de  paciência. Quando o príncipe Charles era jovem, alguém disse que a mãe dele, Sua Majestade a Rainha, renunciaria quando o príncipe Charles fizesse 25 anos. Ele fez, e ela ficou na dela, só na moita. Digo, só no trono. A promoção a rei foi transferida para quando o príncipe Charles fizesse 30 anos, depois 40, depois 50... E lá está o príncipe Charles, viúvo e casado pela segunda vez, aos 56 anos, esperando a mãe renunciar para que ele, finalmente, se torne rei. Todo dia de manhã ele acorda e alguém diz: “Não se preocupe, caro Charles, é só uma questão de tempo”. A mesma frase que meus colegas andam ouvindo nas empresas em que trabalham: tudo é apenas uma questão de tempo. Eles estão preparados para uma promoção, a empresa jura que eles serão promovidos, mas, na hora H, sempre acontece alguma coisa e a promoção fica para depois. E a empresa diz que eles, como o príncipe Charles, precisam ter só mais um pouco de paciência. Não sei o que o príncipe Charles pensa de tudo isso, mas meus colegas que estão mofando há anos no mesmo cargo ficam se perguntando se vale a pena tomar uma atitude drástica. Do tipo: “Ou vocês se decidem, ou eu vou embora”. O pior no caso dos meus colegas, é que eles, até agora, só receberam promessas. O príncipe Charles, além das promessas, tem um monte de mordomias e uma vida cheia de regalias imperiais. Quer dizer, o príncipe Charles pode até esperar a vida inteira, que não vai fazer muita diferença. Mas, para quem já percebeu que está marcando passo na empresa, a melhor saída... é a saída.

 

Do livro " O melhor de Max Gehringer na CBN - Volume 1".

Se quiser saber tudo sobre carreira, currículo, comportamento e liderança, adquira o livro.

Um livro que vale a pena ter em casa para consultar sempre.