Coisas do Brasil melhor

 

Max Gehringer

 

 

 

As desculpas corporativas
 

NA VIDA PROFISSIONAL, NÓS PASSAMOS METADE DO TEMPO  OUVINDO desculpas. E a outra metade do tempo, passamos dando desculpas. E isso tem uma explicação cultural. Em latim, culpa significa falha. Portanto, “me  desculpe” significa “por favor, esqueça que eu falhei”. Como somos humanos, erramos. E, como erramos, nos desculpamos. Numa boa. Já no hemisfério Norte, a  história é um pouco diferente. Os ingleses e americanos dizem excuse me, os franceses  excusez moi e os italianos scusati. E essas expressões vieram do latim ex causa, que quer  dizer “sem motivo”. Ou seja, nós, brasileiros, quando nos desculpamos, concordamos que a culpa foi nossa. Já os povos mais adiantados do planeta deixam  claro que a culpa não foi deles. Quando eles erram, a culpa, muito provavelmente, foi  nossa. Por isso, numa época em que as empresas brasileiras adotam o jeito americano  de administrar, muita desculpa sempre é um sinal de perigo. Uma coisa que a vida  profissional me ensinou foi a de que as pessoas que menos progridem na carreira são aquelas que vivem encontrando motivos para desculpar a si mesmas. Quando algo sai errado, ou quando algo que devia ter acontecido não acontece, essas pessoas sempre têm uma explicação muito boa para se dar - é a situação, é a conjuntura, é a crise, a vida é assim mesmo, ninguém me dá uma oportunidade, eu já tentei de tudo e nada funcionou. Isso pode até ser reconfortante, mas não tem nenhum efeito prático. Os profissionais que eu vi progredir na carreira foram aqueles que sempre conseguiam botar a culpa nos outros. Profissionalmente, assumir o erro e desculpar-se é louvável, mas escusar-se é que move carreiras. O problema é que a maioria de nós gosta de desculpas. Nós até nos despedimos dizendo “desculpe qualquer coisa". O que faz de nós o único povo do mundo que se desculpa até quando não erra.

 


 

A melhor empresa


TODOS OS ANOS, JÁ FAZ SETE ANOS, A REVISTA VOCÊ S/A FAZ UMA pesquisa para escolher as “Melhores Empresas do Brasil para se Trabalhar”. No ano passado, perto de mil empresas participaram da pesquisa e 150 delas entraram na relação final. O método é simples. Os funcionários das empresas participantes respondem a um questionário, que é enviado diretamente para a revista. Depois, repórteres visitam às empresas finalistas para avaliar, pessoalmente, se as respostas realmente batem com a realidade. O questionário aborda tópicos como salários, benefícios, planos de carreira, ambiente de trabalho, ou seja, todas essas coisas que fazem alguém acordar de manhã, ou com vontade de pular da cama e ir trabalhar, ou com vontade de estraçalhar o despertador e continuar dormindo. Recentemente, eu conversei com um diretor de uma empresa que foi eleita uma das melhores para se trabalhar. E ele me contou que, numa pesquisa interna, os resultados tinham sido bem diferentes. O índice de satisfação dos funcionários foi baixo e as queixas foram muitas. Surpreso, o diretor tentou entender por quê. E descobriu. Ambas as pesquisas estavam certas, embora fossem contraditórias. Na hora de responder para fora, os funcionários se comparavam com amigos e conhecidos que trabalhavam em outras empresas. E as respostas mostravam que o pessoal estava satisfeito. Na hora de responder para dentro, os funcionários comparavam o que tinham com o que gostariam de ter. E as respostas mostravam que muita coisa ainda poderia ser feita. Esse fenômeno, provavelmente, ocorre com todas as empresas do Brasil. Vista de fora, qualquer empresa sempre parece melhor do que é. Vista de dentro, qualquer empresa sempre é melhor do que parece.

 

 


Não se enrole com a língua


 A dose certa de estrangeirismos
 

QUANDO O FILME GLADIADOR FOI EXIBIDO, FAZ UNS QUATRO ANOS, EU participei de um trabalho interessante. Encontrar erros de história no filme. E começamos à encontrar erros aos montes. À começar pelo nome Coliseu, que é mencionado várias vezes no filme. Mas, se alguém chegasse em Roma há dois mil anos e perguntasse onde era o Coliseu, nenhum romano saberia responder, porque ninguém chamava o Coliseu de Coliseu. A verdade é que listamos uns 100 erros históricos no filme. Só não percebemos o mais incrível deles, e que era o que mais estava na cara. No filme, os atores passavam duas horas conversando em inglês, uma língua que só seria inventada 1.500 anos depois. Ouvir inglês no cinema virou a coisa mais natural do mundo. Leonardo da Vinci conversa em inglês, os faraós egípcios falam inglês, e qualquer alienígena que pretenda invadir a Terra já desce nos Estados Unidos dando ordens em inglês com sotaque americano. Outro dia, eu descobri um jornal de 1930. Na época, havia uma grande campanha para acabar com os termos ingleses usados no futebol. Era um tal de back, half, comer, offside, goalkeeper. E a proposta do jornal era começar abrasileirando a própria palavra futebol. As sugestões eram pedisfera, ludopédio e pedipilar. Como todo mundo sabe, futebol se chama futebol até hoje. Porque o povo decidiu que seria assim, e assim é. Mas uma das palavras propostas em 1930 pegou. O corner passou a ser chamado de escanteio. Escanteio, acho que todo mundo concorda, é uma palavra estranhíssima. Parece nome de doença. Mas o povo decidiu que corner ia ser escanteio, e assim é, até hoje. Portanto, apesar das campanhas nacionalistas, quem no fim decide mesmo como vai falar é o povo. Nós. Daí, a nossa grande responsabilidade é separar o que é prático do que é ridículo. Eu, por exemplo, acho que chamar correio eletrônico de e-mail é prático e que chamar relatório de report é ridículo. Mas eu não sou o povo. Eu sou apenas um voto.
 

 

Como usar o gerúndio
 

ATUALMENTE, EXISTEM DUAS GRANDES CORRENTES DE PENSAMENTO no mundo corporativo. A corrente dos que são a favor do gerúndio e a dos que são contra o gerúndio. Por exemplo, alguém liga para a empresa para falar com o diretor, e a gentil assistente responde: O diretor vai estar retornando sua ligação. Para quem concluiu satisfatoriamente o ensino fundamental, a frase dói mais que unha encravada. Nessa encrenca, quem ficou mais prejudicado foi exatamente quem não tinha nada com isso, o próprio gerúndio, que é uma forma verbal inofensiva e que vem sendo usada, na linguagem falada e na literatura, desde os tempos de Camões. A discussão atual, na verdade, não é sobre o verbo gerúndio. É sobre o verbo no infinitivo que precede o gerúndio. “Estar” é uma forma verbal correta. “retornando também é, mas quando as duas se juntam são como nitroglicerina: causam uma explosão que machuca os ouvidos de quem ouve. O interessante é que, se o tal diretor ligar mesmo de volta, ele dirá: “Estou retornando sua ligação”. E, nesse caso, o gerúndio estará bem aplicado. A grande pergunta é: “Por que, se podemos falar certo e de uma maneira fácil, preferimos falar errado e de um modo mais difícil?”. Porque isso dá, a quem fala, uma certa sensação de superioridade. A mesma afetação que algumas pessoas têm quando falam “implementar” em vez de “implantar”. Mas este é um país democrático, e cada um tem o direito de falar como bem quiser, certo? Nem sempre. É bom lembrar que, se  um candidato a emprego, durante uma entrevista, disser para o entrevistador: “Vou estar aceitando um cafezinho”, o entrevistador poderá responder: “Nesse caso, você vai estar tomando seu cafezinho lá fora, porque eu vou estar entrevistando o próximo candidato”.

 

 

 

Do livro " O melhor de Max Gehringer na CBN - Volume 1".

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Um livro que vale a pena ter em casa para consultar sempre.

 

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