Como conquistar um emprego

Parte 4

 

Max Gehringer

 

 

Começar bem e acabar melhor

 

RECENTEMENTE, EU TIVE O PRAZER DE CONVERSAR COM UM GRANDE entrevistador, um renomado head hunter. Se ele não for o maior entrevistador da História do Brasil, está bem perto disso. Porque, em 34 anos de carreira, ele já entrevistou perto de 25 mil candidatos a emprego. E ele me revelou algo que só se aprende com muita prática.

 

Segundo ele, as duas questões que mais complicam a vida dos candidatos são exatamente as que parecem mais inofensivas - a primeira e a última questões de uma entrevista.

A primeira é mais um pedido:

“Fale um pouco sobre você”. 

 

Segundo o entrevistador, raros candidatos parecem se dar conta de que, entre o “fale” e o “sobre você”, existe uma expressão adverbial temporal: “um pouco”. E aí muito candidato cai na armadilha de querer resolver a briga com um golpe só. E se põe a contar sua autobiografia, desde o tempo em que era um espermatozóide à procura de um óvulo. Dá a cronologia de seus empregos, cursos, experiências e realizações, diz o nome de seu restaurante favorito, explica os livros que leu, menciona seus hobbies e, finalmente, perde o fio da meada. Em entrevistas, diz o grande entrevistador, “um pouco” se traduz como “no máximo dois minutos”.

E “fale um pouco sobre você” é uma frase que serve apenas para iniciar a conversa, não para encerrá-la.

A última pergunta é:

“Mais alguma coisa que você gostaria de acrescentar?”

Na verdade, isso significa que o entrevistador já está satisfeito. Porque, se não estivesse, continuaria fazendo perguntas. Mas muito candidato se sente na obrigação de acrescentar a tal “alguma coisa”. E aí, ou repete sem necessidade o que já foi dito, ou contradiz coisas que disse antes.

Segundo o grande entrevistador, a melhor resposta é:

“Não, obrigado pela oportunidade”.

De resto, ele diz, a entrevista é fácil. Difícil, mesmo, é saber começar e terminar.

 

 

 

Diferencial é ser antes o que todos podem ser depois

 

 

 

MEU AVÔ ANTONIO, QUE DEUS O TENHA, ERA MECÂNICO E conseguiu seu primeiro emprego na década de 1920, quando ele tinha 16 anos de idade. Numa seleção em que havia uma dúzia de candidatos mais velhos e mais experientes do que ele, meu avô se destacou por um simples motivo: ele sabia ler e escrever.

E, na época, só um, de cada mil brasileiros, sabia ler e escrever.

Meu pai, que também era mecânico, conseguiu o primeiro emprego dele porque, além de ter o primeiro grau completo, ele sabia ler manuais em inglês. E só isso o tornava diferente dos outros pretendentes à vaga. Eu consegui meu primeiro emprego porque tinha um curso universitário. Eu me formei em uma escola sem nome e sem prestígio, mas - e daí? - naquela época, pouca gente tinha formação superior, e minha formação me diferenciava. Em termos de cursos, o importante não é qual, é quando. Hoje, para quem ambiciona uma carreira de sucesso, ter um diploma universitário deixou de ser tão diferencial. É apenas mais um passo escada acima, mas passou a ser um degrau intermediário, porque a escada aumentou de tamanho. E continua aumentando a cada ano que passa. Quando alguém me pergunta que curso deveria fazer, eu respondo: “Chinês”.

Por que a China será a grande potência mundial do século XXI?, a pessoa me pergunta. Não, eu respondo, porque só um em cada 5 milhões de brasileiros sabe falar chinês. Num processo de seleção, se todos os candidatos tiverem faculdade, se todos souberem falar inglês, se todos tiverem conhecimento de informática, e se só um souber falar chinês, a chance desse um ser admitido é enorme. O mercado de trabalho não mudou desde os tempos de meu avô Antonio e a regrinha básica continua a mesma: faça o que todo mundo está fazendo, mas faça pelo menos uma coisa que só uns poucos fizeram. Essa coisa é o que se chama de diferencial.

 

 

 

 

Prepare-se para ser demitido, e você não será

 

 

 

JÁ HOUVE UM TEMPO EM QUE “SER DEMITIDO” ERA QUASE SINÔNIMO de “ser publicamente humilhado”. Um funcionário dispensado, com ou sem justa causa, ficava marcado para o resto de sua carreira. Era o que se chamava, até 1980, de “sujar a Carteira”. Mas até 1980 demissões eram raras. Funcionários só eram demitidos por razões muito óbvias, como desonestidade comprovada ou tentativa de estrangulamento do chefe. Esse tempo acabou. De dez anos para cá, as demissões viraram rotina. Grandes empresas mundiais anunciam cortes de dois, cinco mil, dez mil funcionários. E ainda recebem elogios dos analistas

de mercado. A conclusão é simples. Funcionários bons e eficientes, que passaram anos recebendo elogios por seu desempenho, de uma hora para outra podem se ver sem emprego. Logo, uma salutar medida que qualquer pessoa que esteja empregada deve tomar é se preparar para a demissão. Se ela não vier, ótimo. Mas, se vier, quem estiver preparado vai se estressar menos e, com certeza, vai encontrar um novo emprego mais rapidamente. Mas pouca gente se prepara. A maioria dos funcionários acha que as coisas ruins até acontecem, mas só acontecem com os outros. Se você, caro ouvinte, está empregado, há quatro coisas que precisa fazer já, se é que já não fez, porque prevenir é melhor que remediar.

A primeira é ter um currículo atualizado. De cada dez pessoas que estão empregadas, oito não têm um currículo atualizado.

A segunda, e muito importante, é ter uma lista de contatos, com números

de telefone e e-mails. A coisa mais chata que existe é alguém receber uma ligação e do outro lado alguém dizer:

“Você se lembra de mim? Nós estudamos juntos em 1989. E aí, tudo bem?”. A terceira é ter um fundo de reserva. Deixar um dinheirinho de lado todo mês, para poder passar pelo menos três meses sem aquela angústia de ter que arranjar um novo emprego amanhã porque as contas estão vencendo.

A quarta e última é ter um Plano B para se tornar autônomo. Se eu ficar desempregado, e se não aparecer nada, o que eu posso fazer para me virar enquanto a situação não melhora?

Finalmente, aquela regrinha de ouro: quem está bem preparado para ser demitido, dificilmente é.

 

 

 

 

O que vale mais? A teoria ou a prática?

 

 

A OUVINTE LAURA, DE GOIÂNIA, QUE REVELA TER 38 ANOS CONFESSOS e mais alguns inconfessados, pergunta:

“Prezado Max, o que tem mais valor em sua opinião, o conhecimento ou a prática?”.

Prezada Laura, em minha opinião, a prática vale mais. Mas, nesse caso, minha opinião conta pouco, porque eu não estou contratando ninguém. Na opinião do mercado de trabalho, que é o que interessa, está ficando cada vez mais óbvio que o diploma sem conhecimento vale mais do que o conhecimento sem diploma. Se um candidato a uma vaga se apresentar como “autodidata em administração de empresas”, ele será facilmente batido por outro candidato que tenha Faculdade, Pós-Graduação e MBA.

Isso significa que as empresas estão dando preferência à teoria? Não.

As empresas querem resultados práticos. Mas, do ponto de vista das empresas, é mais fácil ensinar a prática a quem já tenha teoria, do que ensinar teoria a quem só tenha a prática.

Além disso, as empresas sentem um genuíno orgulho quando fazem afirmações do tipo “64% de nosso corpo gerencial tem MBA”. Profissionais que estão cursando um MBA afirmam que desejam adquirir novos conhecimentos, tornar-se um profissional mais atualizado com as novas tendências, ampliar o leque de opções e blá-blá-blá. Mas, espremendo bem os motivos, a maioria das pessoas faz um MBA porque fazer um MBA impressiona, além de ajudar a criar uma importante rede de relacionamentos. Portanto, Laura, o que você e eu estamos chamando de valor é uma medida subjetiva. A medida objetiva é quanto uma empresa paga pelo conhecimento e pela prática. Na média do mercado, quem tem faculdade ganha 30% mais do que quem não tem, e quem tem MBA ganha 15% mais do que quem só tem faculdade. As boas empresas sabem valorizar seus profissionais dedicados. Mas, como você já percebeu, ser valorizado é uma coisa, e transformar esse valor teórico em dinheiro no bolso é outra.

 

 

Do livro " O melhor de Max Gehringer na CBN - Volume 1".

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Um livro que vale a pena ter em casa para consultar sempre.