Trabalhe melhor

 

Max Gehringer

 

 

 

Difícil é enxergar o óbvio

 

OLHE PARA QUALQUER ANÚNCIO DE EMPREGO E VOCÊ VERÁ QUE AS empresas estão procurando gente criativa. E criatividade nada mais é que a arte de enxergar o óbvio antes que todo mundo. Eu já disse isso aqui na CBN, e gostaria de dar um exemplo interessante. O dos supermercados. Até uns trinta anos atrás, aqui no Brasil, havia o armazém da esquina. A dona de casa ia lá, encostava o umbigo no balcão e ia pedindo o que precisava. E o dono do armazém ia pegando nas prateleiras e embrulhando. Finalmente, o total era registrado na caderneta e o freguês pagava no fim do mês. Esse sistema foi a base do comércio durante séculos, até que no ano de 1930 surgiu nos Estados Unidos o conceito do auto-serviço. E a grande novidade é que o freguês não precisava pedir, ia pegando o que queria nas prateleiras e pagava na saída. Como se sabe, isso gera no consumidor uma coisa chamada compra por impulso, ou, em outras palavras, a gente acaba levando um monte de coisas que não estavam na listinha de compras. Só que pouca gente sabe que o sistema de auto-serviço não foi um sucesso imediato. Na verdade, durante os sete primeiros anos, nada aconteceu. Os fregueses continuavam a comprar nas lojas de auto-serviço o que sempre tinham comprado no armazém da esquina. Então, as primeiras lojas de auto-serviço acharam que o negócio era fazer promoções. E fizeram, mas as vendas continuavam iguais. Até que, sete anos depois, em 1937, alguém finalmente enxergou o óbvio. Esse alguém foi um senhor chamado Sylvan Goldman, que era dono de uma pequena loja de auto-serviço chamada Piggly Wiggly. Um dia, seu Goldman pegou uma velha cadeira de balanço que tinha em sua casa e colocou nela dois cestos e quatro rodinhas, criando o carrinho de supermercado. E

aí, sim, as vendas aumentaram da noite para o dia. Ninguém tinha ainda percebido que o problema do freguês não era comprar mais. O problema era não conseguir carregar mais. Hoje, quando a gente empurra um carrinho num supermercado, ele parece óbvio. Mas, como muitas outras grandes ideias, foi preciso que alguém criativo enxergasse o óbvio para que a coisa começasse a funcionar.

 

 

 

O mal da tecnologia

 

HOJE VAMOS FALAR SOBRE ADMINISTRAÇÃO DE TEMPO. UMA COISA QUE todo mundo tinha certeza há 30 anos é que a tecnologia iria gerar mais tempo livre para as pessoas. Trabalhos manuais demorados, chatos e cansativos seriam substituídos pelo milagre do computador. Passaram-se 30 anos e isso realmente aconteceu. Aconteceu em termos de trabalho, mas não em termos de tempo. As pessoas estão trabalhando mais horas do que trabalhavam e têm menos tempo do que tinham. O que está errado? Em princípio, nada. A tecnologia apenas fez surgir novas possibilidades, que há 30 anos seriam impensáveis. O celular é ótimo, mas interrompe conversas e reuniões. Ler e responder e-mails é ótimo, mas consome uma enorme fatia do tempo diário. Acessar a Internet é ótimo, mas traz poucos resultados práticos. Um amigo meu, que vivia incomodado com a falta de tempo e com o acúmulo de trabalho, resolveu fazer um levantamento prático de como utilizava seu tempo. Aí, montou uma planilha no computador. Botou no alto o título “Análise de Desperdício de Tempo” e dividiu o dia em intervalos de 15 minutos. E então começou a anotar tudo o que fazia, desde participar de reuniões importantes até tomar um cafezinho e ficar jogando conversa fora. Depois de uma semana, ele consolidou os dados e chegou a uma conclusão muito interessante.

Naquela semana, ele tinha gasto nada menos que quatro horas e quinze minutos só para preparar, preencher e analisar a sua planilha de desperdício de tempo. E teve que voltar ao escritório no sábado para recuperar o tempo perdido. Esse é o mal da tecnologia. Ela é tão boa, mas tão boa, que nos induz a fazer coisas que são absolutamente lindas. Mas absolutamente inúteis.

 

 

 

A importância de dizer o óbvio

 

EU JÁ PASSEI ALGUNS DISSABORES NA VIDA PROFISSIONAL POR ME esquecer de falar o óbvio. O óbvio é aquela coisa que a gente acha que, por ser tão óbvio, todo mundo já sabe. Só que não é bem assim. Ha alguns anos, eu trabalhava na empresa líder do ramo de batatinhas fritas. Nosso produto tinha uma liderança enorme e folgada, coisa de 70% do mercado. Um dia lá, um concorrente resolveu escrever no pacotinho de batata dele esta frase: Não contém colesterol’.

Não passou uma semana e meus gerentes pelo Brasil afora começaram à me ligar para perguntar se nós também não poderíamos fazer uma batatinha frita sem colesterol. E eu respondi que nossa batata não tinha colesterol. Era óbvio. Batatas são fritas em óleo vegetal, e óleo vegetal não tem colesterol. Só gordura de origem animal tem colesterol. Mas o que era óbvio para mim não era óbvio para o consumidor. As vendas começaram a cair até que um dia eu me rendi ao óbvio. E pedi para escrever bem grande no pacotinho: “Totalmente sem Colesterol”. E aí as vendas voltaram ao normal. Os meus gerentes até escreveram elogiando o sabor da nova batatinha sem colesterol, sem acreditar que a batatinha era a mesma de sempre. Daquele dia em diante, eu aprendi que boa parte dos mal-entendidos e dos desencontros em empresas acontece porque alguém achou que não precisava ficar repetindo todos os dias o que todo mundo deveria estar cansado de saber. Mas, por que estou dizendo tudo isso, já que tudo isso é tão óbvio? Exatamente por isso.

 

 

 

O bem-informado sabe ouvir

 

HOJE EM DIA, TEM CURSO PARA TUDO. UM COLEGA MEU, O ZÉ Luiz, fez um curso que chamava Autogestão de Carreiras. O curso, como o nome indica, ensinava as pessoas como administrar com eficiência sua vida profissional. E o que mais impressionou o Zé Luiz foi uma sessão chamada “Informações Privilegiadas de Bastidores”. O conferencista explicou que, nas empresas, 90% das informações são repassadas não através de comunicados internos, mas através de conversas informais nos corredores. Por exemplo. Alguém vai ser dispensado. Antes que isso se torne público, dois ou três ficam sabendo e já saem tomando providências para conseguir o cargo do demitido. E o Zé Luiz então anotou as duas regrinhas básicas. Primeira. Estabelecer relações de confiança. Segunda. Compartilhar o conhecimento próprio para usufruir o conhecimento alheio. Por coincidência, já no dia seguinte o Zé Luiz ouviu dizer que um colega estava na marca do pênalti. E encontrou no corredor, por acaso, a pessoa mais bem informada da empresa, a Magali. O Zé Luiz comentou, assim como quem não quer nada, a situação do colega. E a Magali respondeu num sussurro: “Pois é”. Imediatamente, o Zé Luiz também baixou o tom de voz e estabeleceu uma relação de confiança. Disse para a Magali que eles eram duas pessoas bem informadas e que um poderia ajudar ao outro. A Magali concordou, e o Zé Luiz passou para a fase dois. Compartilhou com a Magali inúmeros comentários de bastidores. A Magali ficou impressionada. E o Zé Luiz perguntou o que ela sabia, para poder usufruir. E a Magali respondeu: “Eu? Eu não sei de nada”. E o Zé Luiz perguntou por que, então, a Magali estava falando baixinho daquele jeito. E ela respondeu: “Faringite”. E aí o Zé Luiz descobriu por que a Magali sabia de tanta coisa. Os mais bem informados não são os que ficam falando pelos corredores. São os que sabem escutar.

 

Do livro " O melhor de Max Gehringer na CBN - Volume 1".

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Um livro que vale a pena ter em casa para consultar sempre.

 

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