Como conquistar um emprego

Parte 3

 

Max Gehringer

 

 

Atenção a detalhes é um exercício contínuo

EMPRESAS SEMPRE TÊM UMA PEGADINHA NA HORA DE UMA entrevista de emprego. Mas algumas dessas pegadinhas são muito criativas.

Por exemplo, em qualquer empresa é muito importante dar atenção aos detalhes. Uma regra básica diz que os funcionários capazes de perceber pequenos detalhes, que os outros não percebem, irão ter um desempenho melhor.

O problema é que se o entrevistador perguntar para o candidato se ele é atento aos detalhes, o candidato vai responder que sim, claro. E, para impressionar, o candidato ainda vai citar Einstein, que disse que Deus está nos detalhes. Mas há uma empresa que transformou a pergunta numa pegadinha interessante. O candidato aguarda a entrevista numa salinha de espera. Depois, é conduzido para a sala do entrevistador. E aí o entrevistador pede que o candidato descreva os detalhes da salinha de espera.

 

Alguns candidatos mal conseguem se lembrar da cor da parede, ou dizer quais revistas estavam sobre a mesa.

 

Já outros se lembram de tudo, até que a salinha tinha um cinzeiro, embora na parede estivesse pregado um aviso de proibido fumar.

 

Num mundo em que as informações estão rapidamente disponíveis para todos os concorrentes, leva vantagem quem vê primeiro o que os demais só vão enxergar depois.

Atenção a detalhes é uma questão de curiosidade e de treino. Perceber detalhes significa manter o cérebro trabalhando o tempo todo, sem se concentrar em um único ponto. A maioria dos detalhes talvez nem tenha importância, mas só percebe isso quem tem uma visão periférica. Não por acaso, presidentes de empresas são pessoas que têm, entre outras habilidades, uma incrível percepção para detalhes. Por isso, além de dar respostas corretas, eles também fazem perguntas inesperadas. Uma gente diferente, que chegou aonde chegou porque, ao contrário da maioria, consegue perceber um universo em cada migalha. Uma sinfonia em cada ruído. E uma eternidade em cada instante perdido.

 

Linguagem corporal versus autenticidade

EM ENTREVISTAS, UM FATOR MUITO IMPORTANTE É O QUE SE CHAMA de gestual do candidato. Como ele senta, onde põe as mãos, se apóia os cotovelos na mesa, se cruza as pernas, se cobre a boca com a mão quando fala... bom, a Lista é enorme.

E entrevistadores profissionais estão sempre muito atentos a essa coleção de pequenos gestos, que dizem muito sobre um candidato antes mesmo

que ele comece a abrir a boca e a falar. Pelo menos uma dúzia de vezes na vida, eu entrevistei pessoas que me impressionaram profundamente. Para começar, elas entravam na sala com o que chamamos de postura vencedora. O corpo reto, a cabeça erguida, os passos firmes.

Em seguida, apertavam minha mão com confiança.

E sentavam-se com a coluna reta, sem se esparramar na cadeira ou se curvar sobre a mesa. Depois, durante a entrevista, a pessoa adotava o método do contato visual contínuo e prolongado. Quer dizer, ela me encarava o tempo todo. Jamais olhava para o chão ou para o teto. E, principalmente, a pessoa mantinha as mãos sob controle, sem ficar recolhendo os clipes que estavam espalhados sobre a minha mesa.

E cada frase dita era acompanhada de um gesto adequado, sem economias nem exageros. Assim que a entrevista terminava e a pessoa saía da sala, eu dizia Uau! E,imediatamente, jogava seu currículo no lixo.

Porque eu ficava pensando que, se essa pessoa for mesmo assim, não vou gostar nem um pouco de trabalhar com ela. E, se ela só estiver encenando, vou gostar menos ainda. Mais tarde, ao conversar com meus colegas que também entrevistaram aquela pessoa, nós concordávamos que os Manuais de Como Se Comportar Adequadamente em Uma Entrevista ensinam tudo

menos as duas coisinhas que mais queremos em alguém com quem vamos ter que conviver dez horas por dia.

 

Sinceridade e Autenticidade.

 

 

Uma reprovação é uma nova oportunidade

 

UMA PALAVRINHA QUE JÁ ME INCOMODOU MUITO, E QUE AINDA incomoda muita gente, é reprovação.

Aliás, não só incomoda, como causa danos enormes ao ego. Porque, nesta vida, na média, todos nós somos mais reprovados do que aprovados. E cada reprovação faz com que aquela confiança que temos em nós mesmos encolha mais um pouquinho. Ser reprovado na escola é uma vergonha. Ser reprovado num exame de motorista é uma humilhação. E ser reprovado numa entrevista de seleção é uma frustração sem tamanho.

Para minha sorte, eu fui reprovado logo na minha primeira tentativa de conseguir um emprego.

Eu tinha 15 anos e me apresentei junto com outros vinte e tantos candidatos para uma vaga numa fábrica de sapatos. Ensaiei direitinho tudo o que tinha que falar para convencer o entrevistador de que eu era o candidato ideal. E até bolei uma frase que, na época, me pareceu genial: meu sonho sempre foi trabalhar aqui, porque esta empresa produz o sapato que vai me conduzir pela estrada do sucesso.

Mas eu nem cheguei a ser entrevistado, porque fui reprovado antes, no teste numérico. Graças ao meu nervosismo, demorei demais para completar quatro continhas de multiplicação e fui expurgado do processo.

Eu disse que essa tinha sido a minha sorte? Disse.

Porque, quando eu já ia saindo, cabisbaixo e achando que nunca mais iria conseguir um emprego na vida, o gerente de recrutamento veio conversar comigo e me explicou que reprovação não era bem o que eu pensava que era. A palavra reprovação, ele me disse, não significava eliminação. Significa, em bom latim, provar novamente.

E aí ele me disse uma frase que me acompanhou pelo resto de minha

carreira.

 

Uma reprovação não é o fim. É só um novo começo.

 

Hoje, ele me disse, você não provou que é ruim.

Você ganhou uma nova chance de provar que é bom.

 

 

Do livro " O melhor de Max Gehringer na CBN - Volume 1".

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Um livro que vale a pena ter em casa para consultar sempre.