Como conquistar um emprego

Parte 6

 

Max Gehringer

 

 

A preguiça é a mãe de todas as derrapadas

 

UM TIPO DE FUNCIONÁRIO QUE ESTÁ CADA VEZ MAIS NA MARCA DO pênalti é o que as empresas chamam de “preguiçoso profissional”. Ao contrario do preguiçoso amador, que curte um merecido descansozinho de vez em quando, já que ninguém é de ferro, o preguiçoso profissional é aquele que vive atrapalhando o progresso, porque sempre dá um jeito de deixar as coisas para depois.

O que está por trás da preguiça profissional é um dos sentimentos mais antigos do mundo: o medo. Como durante milênios a humanidade foi dominada pelos déspotas, ter medo de tudo foi uma maneira prática que os mais sensatos encontraram para sobreviver. E foi naquele período de trevas que apareceram os velhos ditados populares. criados para transformar o medo em razão. Esses ditados sobrevivem até hoje e continuam a ser muito usados. Só que agora viraram sinônimo de atraso. Aqui vão os medos mais comuns. O medo de correr riscos. Típico de gente que diz “quem tudo quer nada tem” e “de grão em grão a galinha enche o papo”. São pessoas que criticam qualquer idéia nova, antes mesmo de tentar entendê-la. O medo de tomar a iniciativa. Quem diz “a pressa é inimiga da perfeição” e “devagar se vai ao longe” adora convocar reuniões ou ficar pedindo mais dados, só para adiar uma decisão, O medo de falhar. É o medo preferido de quem gosta de deixar tudo como está e adora uma rotina sem sustos. Os ditados favoritos dessa turma são “seguro morreu de velho” e “mais vale um passarinho na mão que dois voando”. O medo de ser mal interpretado. Muitos funcionários acreditam que, se nunca disserem nada, vão acabar sendo chamados de sábios. Por isso, o máximo que dizem é que “em boca fechada não entra mosca”. O medo de ter subordinados inteligentes, muito comum em chefes que preferem contratar funcionários medíocres para não correr riscos. A máxima preferida deles é “em terra de cego, quem tem um olho é rei”. O medo de se atualizar. Gente que diz “cada macaco no seu galho” e deixa passar a chance de aprender idiomas ou de entender de informática. A preguiça sempre foi a mãe de todos os vícios. Nas empresas, a preguiça profissional vem sendo a madrasta de todas as derrapadas na carreira.

 

 

Timidez é traço de personalidade, não doença

 

A PALAVRA TIMIDEZ VEIO DO LATIM, E EM SUA ORIGEM SIGNIFICAVA “ter medo”. Por que as pessoas tímidas são tímidas? Normalmente, porque elas têm medo do julgamento das outras pessoas. Quase sempre, a raiz da timidez está na infância, quando pais excessivamente protetores, ou excessivamente liberais, criaram nos filhos o receio de enfrentar as opiniões alheias. Uma das características da pessoa tímida é que ela, quando fala, não consegue se concentrar no que está dizendo, mas nas reações das pessoas que a estão ouvindo. E é exatamente por temer que essas reações possam ser negativas que os tímidos preferem não correr o risco de falar em público. Essas são as más notícias. Agora, vamos às boas. timidez não é uma doença. Existem casos, aos montes, de profissionais que são tímidos e nem por isso deixaram de ser um sucesso. Essa gente, simplesmente, transformou a timidez em seu ponto forte, não em um obstáculo.

Mesmo assim, muitas pessoas que são tímidas vivem dizendo que precisam se livrar da timidez, porque acham que se sentiriam melhor e mais felizes se fossem expansivas e extrovertidas. Existem, claro, várias maneiras práticas de superar a timidez. Consultar um psicólogo ou um psiquiatra, por exemplo. Ou fazer um curso de teatro, para se desinibir. Ou um curso de oratória, para ganhar confiança. Tudo isso é válido. Mas o melhor tímido, mesmo, é aquele que aprende a conviver em paz com a própria timidez. Um amigo meu conseguiu um emprego graças à sua timidez.

Quando o entrevistador perguntou: “Qual é seu maior defeito?”. Ele respondeu: “As pessoas dizem que eu sou tímido”. E quando o entrevistador perguntou: “Qual é sua maior virtude?”. Meu amigo respondeu: “Eu sou tímido mesmo”. E explicou que a timidez pode ser um defeito ou uma virtude. Mas só o fato de ele estar ali, sentado na frente do entrevistador, numa boa, sem desmoronar nem entrar em pânico, já mostrava que as pessoas que viam na timidez um defeito estavam todas erradas.

 

 

Eficiência demais pode ser prejudicial

 

EXISTEM PROFISSIONAIS QUE SÃO TÃO BONS NO QUE FAZEM, MAS TÃO bons, que acabam desempregados. Eu tenho um colega, o Clóvis, que passou por uma situação dessas. Em seu primeiro ano na empresa, como supervisor de vendas, o Clóvis começou a construir uma reputação muito positiva, a de superar qualquer desafio que aparecesse na frente dele. O Clóvis era um líder que não tinha medo de cara feia, e foi um dos poucos supervisores a atingir seus objetivos anuais.

Por isso, foi promovido, com méritos, a gerente de filial. E seu nome começou a ser falado na empresa inteira. O Clóvis, todo mundo repetia, era capaz de enfrentar, peitar e derrubar qualquer empecilho que tivesse pela frente. No fim do ano, o Clóvis foi promovido a gerente regional e se transferiu para o escritório central da empresa. Aí, foi a vez das outras áreas sentirem na pele a enorme energia do Clóvis.

Porque ele não pedia, mandava. Mas, como seus resultados continuavam excelentes, os outros gerentes não tinham muito do que reclamar. A princípio, o Clóvis impôs respeito, o que é bom. Depois, o respeito virou reverência, o que é ótimo. Em seguida, a reverência virou temor, o que já não é tão bom assim. Porque o temor sempre gera conspirações silenciosas. Mas o Clóvis não estava nem aí com os conspiradores de corredor. O negócio dele era resultado, não simpatia. E o Clóvis manteve seu ritmo alucinado e aumentou suas críticas aos colegas mais lentos e menos comprometidos - que, na opinião do Clóvis, eram todos. Até que, finalmente, o Clóvis recebeu a notícia de que, infelizmente, a empresa estava redefinindo o perfil  de seus gestores, uma desculpa meio sem pé nem cabeça. Mas a verdade é que o Clóvis, mesmo sendo o mais eficiente gerente da empresa, perdeu o emprego. O problema do Clóvis foi não ter entendido que a fórmula do remédio que pode curar e a fórmula do veneno que pode matar é a mesma. A diferença está, simplesmente, na dose.

 

 

O bonzinho nunca reclama

 

NAS EMPRESAS, EXISTEM TRÊS TIPOS DE FUNCIONÁRIO. O RUIM, O bom e o bonzinho. Dia mais, dia menos, o ruim vai para fora e o bom vai para cima. Mas o bonzinho continua sempre no mesmo lugar. Apesar de ser simpático e competente, de ser apreciado pela chefia e estimado pelos colegas, sua carreira não deslancha. E o bonzinho não consegue entender o que há de errado com ele. O que há de errado é que o bonzinho não tem aquilo que as empresas chamam de “o perfil”. Ele não é agressivo. Não mostra espírito de liderança. Não faz a diferença. Então, para quem está meio em dúvida se é bom ou é bonzinho, aqui vão as cinco características do bonzinho. Primeira, o bonzinho é ouvinte. Numa reunião, evita dar palpite. E está sempre fazendo aquele gesto de positivo com a cabeça. Segunda. O bonzinho concorda com tudo. Principalmente com aquilo que não concorda. Sempre acha que é melhor não arrumar confusão e conversar depois, com mais calma. Terceira, o bonzinho não desafia ninguém. Não gosta de discórdia.

Para ele, o empate é sempre um ótimo resultado. Quarta, o bonzinho nunca

desabafa. Mesmo quando está uma arara, ele continua com aquela expressão de manequim de loja de shopping. Quinta, o bonzinho detesta aparecer. Se surgir uma daquelas raras oportunidades de matar um dragão e virar o herói da empresa, o bonzinho prefere sentar e ficar esperando o dragão morrer de velho. No fundo, o bonzinho é o funcionário que todo mundo quer ter como colega. Ele não faz intriga, não puxa o tapete de ninguém e está sempre disposto a ajudar quem precisa de ajuda.

Por isso mesmo, chefes e colegas preferem que ele continue onde está, contribuindo positivamente para o ambiente de trabalho. Na verdade, o bonzinho está sendo vítima do egoísmo geral e todo mundo lhe daria inteira razão se ele reclamasse. E ele só não reclama porque é bonzinho.

 

 

Do livro " O melhor de Max Gehringer na CBN - Volume 1".

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Um livro que vale a pena ter em casa para consultar sempre.