Relacionamento, uma porta para o emprego

 

Max Gehringer

 

 

 

Trocando de função por um dia

 

TODAS AS CATEGORIAS PROFISSIONAIS TÊM O SEU DIA. É SÓ OLHAR NO calendário para conferir. No mês de março, por exemplo, temos o dia do artesão, o dia do consertador, o dia do meteorologista, o dia do revisor e o dia do vendedor de livros. Nessas datas, os profissionais são justamente homenageados, porque todo mundo merece. Mas eu trabalhei em uma empresa que tinha um dia que não estava no calendário. Era o "Dia do Outro". Na verdade, não era um dia, eram vários dias por ano. Nesses dias, funcionários de um departamento passavam oito horas executando funções que não eram as deles. Os vendedores iam à fábrica para trabalhar como ajudantes de operador de máquina. O pessoal do escritório passava um dia com um vendedor, tirando pedidos e arrumando prateleiras. A turma de marketing ia fazer lançamentos contábeis, e por aí vai. O resultado dessa celebração do “Dia do Outro” era um grande aumento no respeito mútuo. Em qualquer empresa, é comum uma área sair falando mal de outra área, pelo simples motivo de não entender em detalhes o que a outra área faz. Para um vendedor, não existe nada mais fácil do que ser operador de máquina numa fábrica, até porque as máquinas fazem tudo sozinhas e o operador só precisa apertar um botão de vez em quando. Um funcionário administrativo, cujo trabalho via de regra é baseado na rotina, não entende por que a venda pode cair de um mês para outro, se todas as condições permanecem iguais. Mas o "Dia do Outro" trazia também um aumento na autoestima geral. Quem visitava outra área sempre voltava gostando mais do que fazia, porque o trabalho dos outros parecia mais monótono, menos desafiante, menos cerebral, ou coisas do gênero. Finalmente, o "Dia do Outro" aumentava a confiança de todos em todos, porque quem recebia um visitante executava seu trabalho daquele dia com perfeição. E, em qualquer empresa, quando um acha que o outro é bom, todos se tornam ótimos.

 

 

 

 

O sucesso consiste em não fazer inimigos

 

NAS RELAÇÕES HUMANAS NO TRABALHO, EXISTEM APENAS TRÊS REGRAS.  

Regra número um. Colegas passam, mas inimigos são para sempre. A chance de uma pessoa se lembrar de um favor que você fez a ela vai diminuindo à taxa de 20% ao ano. Cinco anos depois, o favor será esquecido. Não adianta mais cobrar. Mas a chance de alguém se lembrar de uma desfeita se mantém estável, não importa quanto tempo passe. Exemplo: se você estendeu a mão para cumprimentar alguém em 1997 e a pessoa ignorou sua mão estendida, você ainda se lembra disso em 2006. Regra número dois. A importância de um favor diminui com o tempo, enquanto a importância de uma desfeita aumenta. Favor é como um investimento de curto prazo. Desfeita é como um empréstimo de longo prazo. Um dia, ele será cobrado, e com juros. Regra número três. Um colega não é um amigo, Colega é aquela pessoa que, durante algum tempo, parece um amigo. Muitas vezes, até parece o melhor amigo. Mas isso só dura até um dos dois mudar de emprego. Amigo é aquela pessoa que liga para perguntar se você está precisando de alguma coisa. Ex-colega que parecia amigo é aquela pessoa que você liga para pedir alguma coisa, e ela manda dizer que no momento não pode atender. Durante sua carreira, uma pessoa normal

terá a impressão de que fez um milhão de amigos e apenas meia dúzia de inimigos. Estatisticamente, isso parece ótimo. Mas não é. A Lei da Perversidade Profissional diz que, no futuro, quando você precisar de ajuda, é provável que quem mais poderá ajudá-lo é exatamente um daqueles poucos inimigos. Portanto, profissionalmente falando, e pensando a longo prazo, o sucesso consiste, principalmente, em evitar fazer inimigos. Porque, por uma coincidência biológica, os poucos inimigos são exatamente aqueles que têm boa memória.

 

 

Os três estágios de reconhecimento profissional

 

EXISTEM TRÊS DEGRAUS DE RECONHECIMENTO PROFISSIONAL. O respeito, a admiração e a reverência. O respeito vem do conhecimento. E a admiração vem da capacidade de transformar o conhecimento em resultados. Um professor é respeitado pelo que aprendeu, mas é admirado pela habilidade de ensinar. Um executivo é respeitado por seu currículo, mas é admirado pela capacidade de obter lucros. O último degrau dessa escala é a reverência. Uma pessoa é reverenciada quando ela parece saber tanto, mas tanto, que ninguém se atreve mais a contradizer o que ela diz, ou faz. Numa empresa em que trabalhei, eu presenciei um caso exemplar de reverência. Tivemos uma reunião com um profissional que era considerado um dos maiores especialistas do mundo em legumes. Durante a apresentação, a mesa de reunião parecia uma feira livre, com cestas cheias de legumes. E os apresentadores ali, se esforçando para impressionar o especialista, mostrando gráficos de plantio, de adubação, de precipitação pluviométrica... Eram números que não acabavam mais. Foi quando o especialista pegou uma cenoura de uma cesta. Aí, ele tirou um canivete do bolso, e cortou a cenoura no sentido da longitude, em vez de cortá-la em rodelas. Ninguém ali tinha visto aquilo antes. O especialista olhou as duas longas metades da cenoura, sorriu, e guardou o canivete, sem dizer nada. Imediatamente, alguns dos presentes foram buscar facas para repetir o inusitado corte. E começaram a perceber detalhes que nunca tinham percebido antes. O murmúrio geral foi aumentando, até que alguém parou a reunião e pediu para o especialista relatar o que um corte longitudinal na cenoura poderia revelar. E ele, surpreso, respondeu: “Nada. Eu só estava testando a lâmina do meu canivete novo”. Reverência é isso. Não é o que a pessoa sabe. É o que as outras pessoas imaginam que ela saiba.

 

 

 

Para sobreviver é preciso criar sinergias

 

EM EMPRESAS, É MUITO IMPORTANTE ENCONTRAR SINERGIAS. SINERGIA é uma palavrinha grega que significa “funcionar junto”. Mas no começo a palavra não tinha nada a ver com empresas. Sinergia era um termo científico. Os cientistas começaram a perceber que dois elementos, que tinham pouco ou nenhum efeito quando eram usados isoladamente, poderiam produzir resultados incríveis se fossem misturados. Foi o que aconteceu com os chineses no século IX. Eles misturaram três elementos inocentes - o enxofre, o salitre e o carvão - e criaram a pólvora. Mas a sinergia não parou por aí. Alguns séculos depois, foi inventado o canhão, e foi a sinergia da pólvora com o canhão que mudou o mundo. Até então, os poderosos construíam seus castelos bem no alto das montanhas, que era o lugar mais inacessível para uma invasão. Com a sinergia entre o canhão e a pólvora, os castelos se transformaram, da noite para o dia, nos alvos mais fáceis do mundo. Era só apontar o canhão para o alto e disparar. Aí, reinos fortíssimos foram derrubados e o poder mudou de dono. E é exatamente isso que as empresas de hoje em dia querem evitar. Toda empresa que um dia pensou que era uma fortaleza acabou, cedo ou tarde, sendo pulverizada por um concorrente mais esperto. E é por isso que fabricantes de produtos diferentes, mas compatíveis entre si, se juntam e formam uma sinergia. Carros e pneus, por exemplo. Isolados, eles são bons. Juntos, se tornam fortes. Para os funcionários, a regra é a mesma. Duas áreas trabalhando em conjunto sempre obtêm resultados melhores. E o funcionário que está sempre procurando e oferecendo ajuda vai resistir melhor do que quem imagina que consegue fazer tudo sozinho. Como nos velhos tempos da pólvora, cada funcionário deve estar ciente de que seu cargo é um castelo. E, para sobreviver, é sempre sábio procurar sinergias com os chefes, porque eles têm o poder para disparar o canhão.

 

Do livro " O melhor de Max Gehringer na CBN - Volume 1".

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Um livro que vale a pena ter em casa para consultar sempre.

 

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