Os desafios (e a burocracia!) de cada dia

 

Max Gehringer

 

 

Como identificar alguém importante na empresa

 

SE VOCÊ ACABA DE SER CONTRATADO POR UMA DAQUELAS EMPRESAS que têm muitos funcionários, deve estar encontrando alguma dificuldade para saber quem é quem. Porque, hoje em dia, todo mundo se veste mais ou menos do mesmo jeito - isto é, do mesmo jeito que o diretor se veste. Então, para saber quais são as pessoas que podem vir a ser importantes para seu futuro, aqui vai uma dica. Preste atenção no que as pessoas trazem nas mãos quando estão caminhando pelo escritório. Quanto mais coisas uma pessoa levar nas mãos, menor é o nível hierárquico dela. Se a pessoa estiver segurando uma folha de papel, ela certamente é mais importante do que alguém que esteja carregando um monte de

folhas de papel. E infinitamente mais importante do que alguém que esteja carregando um monte de envelopes. E se a pessoa estiver carregando um papelzinho bem pequeno? Aí, é preciso aumentar o número de observações para chegar a uma conclusão. Se a pessoa sempre carrega um papelzinho toda vez que é vista, é um assistente que está levando um número que o diretor pediu. Já se a pessoa é vista uma vez carregando o papelzinho, é o diretor que não gostou do número que o assistente levou e está indo tirar satisfações com o gerente. E qualquer pessoa que atravesse o escritório sem nada nas mãos é digna de ser observada mais cuidadosamente. Veja para onde ela está se dirigindo. Se ela entrar no banheiro, esqueça. Se ela entrar em uma sala e sentar sem pedir licença, é um diretor. Se entrar em uma sala e alguém que esteja sentado na cadeira imediatamente levantar e sair correndo, aí é um vice presidente. Ignore pessoas que andam de um lado para outro com um celular nas mãos. São no máximo gerentes de segunda linha. Por que, se tivessem uma posição hierárquica melhor, teriam uma secretária para atender as ligações.

 

 

Fábula da empresa burocrática

 

PARA QUEM NÃO SABE O QUE É UMA EMPRESA ESTUPIDAMENTE burocrática, é só imaginar a seguinte situação. Digamos que o mundo vai acabar daqui a duas semanas, no dia 20. Uma empresa burocratizada soltaria o seguinte comunicado. Para: todos os colaboradores. Assunto: fim do mundo. Prezados colaboradores. Como vem sendo amplamente divulgado, o mundo vai acabar no próximo dia 20. Por isso, pedimos a colaboração de todos, na observância das seguintes medidas. Primeiro. Por liberalidade da empresa, não haverá expediente no dia 20. Segundo. No dia 19, véspera da catástrofe, o expediente será encerrado uma hora mais cedo, para a dedetização trimestral de rotina de nossos escritórios. Terceiro. Todos os documentos pendentes devem ser empacotados e enviados ao arquivo morto. Piadas de mau gosto sobre o arquivo morto não serão toleradas pela Direção. Quarto. As carteirinhas do médico devem ser devolvidas até o dia 19 ao senhor Acácio, setor de Registros. A não devolução implicará o cancelamento imediato das referidas carteirinhas. Quinto. Ficam proibidas as demonstrações de paranóia coletiva, como as registradas no dia de ontem, quando um grupo de funcionários começou a chorar copiosamente. Se esse fato se repetir, a Direção suspenderá o intervalo para cafezinho. Sexto. A Direção concorda com o argumento de que tudo neste mundo será carbonizado, mas reserva-se o direito de manter a proibição ao tabagismo nas dependências da empresa. Sétimo. Finalmente, no caso de existir algum tipo de vida após a morte, todos os funcionários devem se apresentar no estado em que estiverem, sólido, líquido ou gasoso, para expediente normal no dia 21. Quem faltar e não se justificar sofrerá as punições previstas no regulamento interno. Bom Juízo Final para todos. Atenciosamente, a Direção.

 

 

 

O exemplo que vem de cima

 

QUANDO UMA EMPRESA RESOLVE IMPLANTAR ALGUMA MUDANÇA, normalmente ela faz uma campanha interna para mostrar aos funcionários que a mudança vai ser boa para a empresa e melhor ainda para os funcionários. Na prática, porém, a maioria das mudanças acaba dando resultados inferiores aos esperados. Ou porque os funcionários não entenderam, ou porque não quiseram colaborar. Então, a culpa é dos funcionários? Eu acho que não. E vou contar uma historinha prática. Eu trabalhei em uma empresa que tentou, várias vezes, implantar um sistema de uso de crachás. Mas nós, os funcionários, éramos contra. Nós achávamos que os crachás eram desnecessários, porque ali na empresa todo mundo conhecia todo mundo e andar com aquela peça de plástico pendurada no peito não iria melhorar nada para ninguém. A direção da nossa empresa tentou de

tudo, até que chegou à famosa solução jurássica: quem não estivesse usando crachá, não entraria para trabalhar. Resultado: todo mundo passou a odiar os crachás e a perdê-los de propósito. Até que um dia eu fiquei sabendo como uma grande empresa havia conseguido fazer com que seus funcionários usassem crachás sem precisar fazer nenhuma campanha e sem gastar um tostão. Foi assim. Um dia, os diretores apareceram usando crachás. E todo mundo começou a se perguntar por que só os diretores tinham crachá. Duas semanas depois, os gerentes também receberam crachás e passaram a usá-los com orgulho, porque os crachás os colocavam no mesmo nível, por assim dizer, dos diretores. Não demorou muito para os funcionários começarem a ficar insatisfeitos com aquela discriminação, e aí a empresa mandou fazer crachás para todo mundo. E todo mundo passou a usar, feliz da vida. A lição é simples: o que faz qualquer mudança funcionar não é a comunicação eficiente. A comunicação ajuda, mas não resolve. O que resolve, mesmo, é o exemplo que vem de cima.

 

 

 

Para que serve uma reunião

 

EU PERDI A CONTA DAS VEZES EM QUE OUVI GENTE RECLAMANDO QUE reuniões não servem para nada. Todo mundo concorda com isso, do presidente da empresa ao auxiliar de serviços gerais. Na semana passada, eu disparei 50 e-mails para colegas que trabalham em empresas, perguntando como eles encaravam as reuniões. De forma unânime, as respostas revelaram duas coisas. A primeira, é que reunião é a forma mais utilizada pelas empresas para desperdiçar o tempo, o conhecimento e a energia de seus funcionários. A segunda, é que todas as empresas que consultei continuam a fazer reuniões. Quer dizer, há uma enorme contradição entre o que se acha e o que se pratica. E aí fica a dúvida. Se todo mundo concorda que reunião só atrapalha, por que ninguém decidiu, simplesmente, acabar com elas? Porque a alternativa para a reunião é o boato. Sem uma informação oficial sobre o que está acontecendo na empresa, os funcionários começam a deduzir, por conta própria, o que poderia estar acontecendo. Por isso, é muito mais fácil gastar um par de horas numa reunião que, aparentemente, não serve para nada, do que gastar uma infinidade de horas tentando desmentir rumores gerados pela ignorância, no bom e no mau sentido da palavra. Reuniões foram criadas, desde os tempos das cavernas, para evitar que cada integrante de uma tribo passasse a ter idéias próprias, independentes e contrárias à orientação dos líderes. E essa estratégia funciona hoje. No fundo, a reunião é a forma que as empresas encontraram para evitar que seus funcionários, principalmente os de nível hierárquico mais baixo, comecem a pensar por conta própria. Em sua aparente inutilidade, a reunião evita uma perigosa dispersão. Mas, para isso, basta só uma reunião. É preciso haver continuidade. É por isso que o “re” no começo da palavra “reunião”. Em latim, esse “re” significa “novamente”. Para unificar os pensamentos, é preciso reunir as pessoas. Ou seja, reunião gera reunião.

 

 

 

Do livro " O melhor de Max Gehringer na CBN - Volume 1".

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