Como conquistar um emprego

Parte 2

 

Max Gehringer

 

 

 

O excesso de criatividade das dinâmicas de grupo

 

QUEM ESTÁ TENTANDO ENCONTRAR UM BOM EMPREGO EM

UMA grande empresa sabe que existem muitas etapas a serem ultrapassadas. Uma delas chama-se dinâmica de grupo. Que funciona assim: uma dúzia de candidatos sentam em semicírculo e um mediador fica fazendo perguntas e anotando o que cada um responde. Mas também fica reparando como cada um está vestido, como se comporta, se rói as unhas, se usa gíria, essas coisas que a gente faz e não percebe.

 

Quem passa por uma dinâmica de grupo sempre sai dela achando que fez muita coisa errada. Alguns acham que poderiam ter falado mais, outros acham que deveriam ter falado menos. Então, aqui vão algumas regrinhas básicas. A primeira é se vestir do jeito que a empresa se veste. Ir de camiseta e jeans e descobrir que todo mundo usa terno, incluindo o mediador, é começar marcando um gol. Um gol contra. A segunda é sempre encontrar um alvo prático para qualquer comentário.

Por exemplo, quem pratica alpinismo OU toca guitarra, deve dizer como essa habilidade poderá ser útil no trabalho. A terceira e a quarta regra são interessantes. A terceira é falar muito. E a quarta é falar pouco. Parece contraditório, mas não é. Falarmuito é não deixar passar nenhuma oportunidade para dizer alguma coisa. Em dinâmicas de grupo, o silêncio não é visto como sinal de sabedoria. É visto como falta de assunto, mesmo. Por isso, interrompa quem estiver falando. Educadamente,

mas interrompa. E aí, fale pouco. O que você tem a dizer deve caber em 30

segundos. Porque é exatamente aí que você também será interrompido por alguém.

 

E não se deve desperdiçar esse precioso tempo dizendo coisas como “com certeza”, “tipo assim” ou “vou procurar dar o máximo de mim”, a não ser que a dinâmica seja para escolher um novo lateral direito. A última regra é estar atualizado. Leia dois ou três jornais do dia antes de sair de casa. Alguém pode estar se perguntando o que é que a invasão do Afeganistão tem a ver com uma vaga de assistente administrativo. 

 

E a resposta é: absolutamente nada. Mas eu não faço as regras da dinâmica de grupo. Eu só tento explicá-las.

 

 

De olho nas agências de recolocação

 

EM ALGUNS PAÍSES DA EUROPA JÁ EXISTE UMA LEI QUE OBRIGA AS empresas que demitem funcionários, sem justa causa, a prestar-lhes

assistência profissional e psicológica. A parte profissional consiste em ajudar na preparação e no envio do currículo e no treinamento para entrevistas. E o acompanhamento psicológico serve para diminuir aquele trauma pós-demissão. E no Brasil? Bom, no Brasil, por enquanto, o funcionário demitido tem que se virar sozinho. Ligar para os amigos, dizer que a vida é assim mesmo, e pedir ajuda aos poucos que estão dispostos a ajudar de verdade.

 

Mas existe uma variante esperta:

agências especializadas em recolocação. Essas agências funcionam assim: elas entram naqueles sites que têm milhares de currículos expostos e escolhem uma dúzia deles.

A escolha é feita pelo tempo que um profissional passou na empresa e pelo cargo que ele ocupou. Porque alguém que tenha tido um bom cargo durante cinco ou dez anos deve ter algum dinheirinho guardado. Aí, a agência entra em contato com o novo desempregado e diz que tem uma vaga perfeita para ele. Para consegui-la, ele só terá que pagar uma pequena taxa, que varia entre 100 e 500 reais. Não há, é claro, garantia de que o emprego será conseguido, mas as chances são enormes.

 

O desempregado se empolga e paga, e realmente será chamado para um par de entrevistas, em empresas que fazem parte do esquema da agência de recolocação.

Mas logo descobrirá que o sonhado emprego era uma doce ilusão. E, pior de tudo, não terá do que reclamar, porque o esquema não é ilegal, já que o pagamento da taxa não garantia um emprego. O nome técnico que se dá a essa atividade é picaretagem.

É claro que existem empresas honestas de recolocação no Brasil. Mas essas não abordam ninguém: é preciso que o interessado vá procurá-las. Por isso, quem for abordado, deve abrir o olho. Além de ter ficado sem o emprego, há o risco de ficar também sem a poupança.

 

 

 

Exageros não impressionam, incomodam

 

UMA PERGUNTA MUITO COMUM NA ELABORAÇÃO DE CURRÍCULOS: deve-se colocar a pretensão salarial?

 

A resposta é não.

Há vários motivos para isso, mas o principal é que o salário recebido no final do mês é apenas uma parte do que se chama de pacote de remuneração. Uma pessoa pode ganhar mil reais por mês e aceitar um emprego de 900 reais, se junto com ele vier um plano de

assistência odontológica, por exemplo. Ou a possibilidade de a empresa financiar um curso de longa duração.

 

Mas a maioria não faz essa conta e alguns até saem perdendo na troca, porque se concentram apenas no dinheiro que entra no bolso. Pior ainda é

escrever “salário a combinar”. Salários não são mais combinados desde 1960.

Salários são oferecidos pela empresa e aceitos ou não pelo candidato. Em alguns casos, são negociados. Mas nunca são combinados.

 

Outra pergunta muito comum:

deve-se colocar a idade no currículo?

A resposta também seria não, mas a prática de mencionar a idade está tão disseminada que a falta da idade no currículo pode dar a impressão de que o candidato está querendo escondê-la. Então, é bom colocar.

 

Na verdade, há um monte de outras informações que entrariam nessa mesma categoria, vagamente chamada “na hora a gente vê”. Por exemplo, altura e peso. E se um candidato tiver 1m70 de altura e pesar 104 quilos? Não é uma questão de sonegar informações, é apenas não informar algo que possa ser mal interpretado, porque quem lê um currículo nunca consegue adivinhar a intenção de quem o escreveu.

 

Há candidatos que colocam no currículo coisas como nomes de filhos, hobbies, religião e até orientação sexual. Um currículo deve dizer o máximo sobre as aptidões estritamente profissionais do candidato, mas com um mínimo de palavras. Por isso, se um currículo passar de três quartos de uma página, já não é mais currículo. É autobiografia.

 

 

Do livro " O melhor de Max Gehringer na CBN - Volume 1".

Se quiser saber tudo sobre carreira, currículo, comportamento e liderança, adquira o livro.

Um livro que vale a pena ter em casa para consultar sempre.