Como conquistar um emprego

 

Max Gehringer

 

 

 

Uma carta personalizada faz toda a diferença

 

OS CURRÍCULOS ESTÃO CADA VEZ MAIS IGUAIS. HÁ EMPRESAS especializadas em montar currículos que só mudam o nome da pessoa. Esses currículos começam com verbos agressivos na primeira pessoa, tipo implantei, liderei, organizei, coordenei... e continuam com os resultados numéricos fantásticos que a pessoa conseguiu em sua carreira. Tanto que, há dois anos, eu cheguei a uma conclusão interessante: todas as pessoas que podiam salvar as empresas do buraco estavam desempregadas. Cheguei a essa conclusão somando os números de 50 currículos que recebi pelo correio, num dia só. Essas 50 pessoas, segundo os

currículos, haviam economizado mais de 300 milhões de reais para as empresas onde trabalhavam, tinham aumentado o faturamento delas em 45% e tinham coordenado investimentos que ultrapassavam 500 milhões de reais. E foram todas despedidas. O que me levou a pensar num complô: será que as empresas estão despedindo os funcionários mais eficientes? Claro que não, salvo algumas exceções.

 

 

A verdade é que esses currículos cheios de superlativos não impressionam mais. Olhando pelo lado positivo, sua única utilidade é virar papel reciclado. Muito mais importante que o currículo em si é uma carta pessoal, feita sob medida para cada empresa que vai receber o currículo. Uma vez recebi uma carta que começava dizendo “Prezado Senhor... Sou entregador de pizza”. Era de um jovem que fazia bico como motoboy de pizzaria nas noites de sábado, para poder pagar a faculdade. E pedi para contratar o sujeito imediatamente. Ali estava um exemplo de alguém com determinação e entusiasmo. Portanto, a carta personalizada é o que realmente vai fazer a diferença. O currículo é só o anexo.

 

 

E agora? Minto ou não minto?

 

 

SE VOCÊ JÁ PREPAROU OU ESTÁ PREPARANDO UM CURRÍCULO, HÁ UMA razoável possibilidade de ter tido aquele longo momento de hesitação e se perguntado: e agora? minto OU não minto? Não se preocupe, isso é normal. Aliás, as duas coisas são normais, tanto a hesitação quanto a mentira. Mentir no currículo é um esporte universal. Não há, que eu saiba, dados estatísticos brasileiros a respeito de mentiras em currículos. Mas nos Estados Unidos, onde existem pesquisas para tudo, quase a metade mente. Essas pesquisas revelam também que homens mentem mais que mulheres. E que, quanto menor a vaga, maior a mentira. Candidato a gerente mente mais que candidato a diretor. Como no Brasil a esperteza sempre foi maior do que no resto do mundo, pode-se deduzir que aqui também exista o que se chama de “maquiagem de currículo”.

 

E quais são as mentiras mais freqüentes?

Transformar seminários de um fim de semana em cursos de aperfeiçoamento profissional. Transformar viagens de turismo em cursos. Transformar a participação em um grupo de trabalho em liderança de um projeto. Mencionar números que são impossíveis de checar, como reduções de custo. Usar o fato de que no espanhol a maioria das palavras é praticamente idêntica ao português para mencionar “boas noções de espanhol”. Alguns pecam por omissão, esquecendo, por exemplo, de mencionar a idade. Outros pecam por excesso, colocando até as horas de auto-escola para tirar a carteira de motorista e chamando isso de “curso de aperfeiçoamento de habilidade em deslocamento motorizado”. Claro que mentir no currículo é sempre ruim, porque cedo ou tarde a mentira bóia. Mas cada um é cada um.

Como diz um amigo meu:

“Eu sou honesto. Por isso nunca exagero nas mentiras.”

 

Do livro " O melhor de Max Gehringer na CBN - Volume 1".

Se quiser saber tudo sobre carreira, currículo, comportamento e liderança, adquira o livro.