O ATLETICANO EM NOVA YORK

 

Parte 2

 

Cristiano de Oliveira

 

 

 

Saudações, Alvinópolis da política mais complicada do Brasil.

 

Eu era doido pra acompanhar uma época de eleição em Alvinópolis pra ver como é. Só pelo mural não tem graça. O mural me ajuda muito daqui de longe, mas não deixa uma ideia clara, pois rapidamente você nota que há umas cinco pessoas que escrevem usando 80 apelidos diferentes ali, cada um com a sua agendinha de campanha debaixo do braço.

Só sei que nosso candidato Leleco está pronto pra botar Alvinópolis nos eixos. A minha agência de marketing Oliveira Solutions já preparou o jingle, na onda do tchu-tchá-tchá.

 

Eu quero Co

Eu quero

Eu quero Co, Le-le-co, lelé, Co, Le-le-co

 

Leleco Prefeito agradará a gregos e troianos. Os moradores da Baixada ficarão felizes, pois ele levará as festas do Carnaval, a Exposição, a Festa da Chita, da Padroeira e de Ano Novo para o Parque de Exposições. Mas também agradará o resto da população, criando 16 festas novas a serem realizadas na Praça da Baixada.

 

Enquanto isso, o Galo estranhamente vai dando muitas alegrias. São tantos anos de sofrimento com o Galo que a ficha ainda não está caindo direito. Fé eu sempre boto. Se eu botei fé nos tempos de Curê, Reinaldinho do Pagode, Mixirica, Sergipano, Hélio Pescara, Escobar, Moacir Girafa... como é que vou deixar de botar fé agora? Já o Cruzeiro parece que começou a se livrar da herança maldita dos Perrelas e acertou a mão com Borges e Ceará, mas Wellington Paulista já reclamou da reserva. Corre um boato que a diretoria tentou entrar em contato com Pião para emprestar o jogador ao seu time pra pelada de fim de ano, mas a negociação agarrou em uma cláusula que prevê pagamento de luvas no valor de 1 Gatorade, 1 pão com manteiga e um canário da terra (sem a gaiola).

 

Pois é, jovens, meu projeto MIDÁ O GALO DE PRATA (Momentos Inesquecíveis Do Atleticano Objetivando Galo de Prata) sofreu um golpe duro esse ano: arrumei emprego novo e, com isso, tive que cancelar a viagem mais bem arquitetada de todas. A ideia era ir a Londres, pegar o final das Olimpíadas com a bandeira, depois sapear em outro canto da Europa, e por fim voltar à França, já que haverá casamento de uma amiga minha francesa, e eu fui convidado pro 0800 no castelo.  Isso ia me render umas 15 colunas, mas foi tudo por água abaixo, e justamente por causa do maior problema desse mundo: o trabalho. Realmente, o serviço é um grande mal na vida do homem, atrapalha todo tipo de vagabundagem importante que a gente planeja.

 

Bom, assim sendo, esse ano vou ter que pegar mais leve nas viagens. Mas bom que eu aproveitei o primeiro semestre pra dar uma pequena esticada, conforme comecei a contar na edição passada. Então, aí vai a rapa do tacho de tudo aquilo que a bandeira do Galo viu no Major Ezequiel da América do Norte: o pequeno vilarejo de Nova York.

 

- De cara, dá pra ver que Nova York é muito mais civilizada que Toronto: a cidade tem banca de revista. Toronto não tem. Agora, pra Nova York chegar ao mesmo nível de avanço tecnológico de Belo Horizonte, só faltam os elementos matando serviço parados do lado da banca às 7 da manhã, lendo o caderno esportivo que fica pregado naquela grade. No dia em que Nova York tiver isso, ninguém segura os EUA mais.

 

 

- Peguei o barco pra ir à Estátua da Liberdade. O passeio vale a pena, mas parar na ilha da estátua é furada. Não tem nada lá, ninguém pode entrar dentro dela, e as fotos tiradas do barco são bem melhores. Aliás, eu achei que a estátua era maior, mas ela é meio miudinha, pra ser sincero. Mas foi assim que os EUA se tornaram o que são, né? Vendendo essa conversa de que lá, camarão é lagosta, calango é dinossauro, porquinho da Índia é capivara, mandruvá é jiboia, aquela pontezinha suspensa dá quatro da Rio-Niterói e cada antena daquelas na cabeça da Estátua da Liberdade dá cinco pirulitos da Praça 7.

 

- Aliás, quem quiser ficar rico, é só comprar umas 50 máquinas de Ducha-Car e arrumar um contrato com a prefeitura de Nova York pra dar uma lavadinha na Estátua da Liberdade. Ela está num poeirão medonho.

 

- Mas o passeio de barco acaba valendo a pena mesmo na segunda parada: o Museu da Imigração, em Ellis Island. Ele foi construído no prédio onde a imigração funcionou até a década de 50, ou seja, onde os navios despejavam centenas de imigrantes por dia e a bagunça era grande. O começo do filme O Poderoso Chefão 2 tem um cena passada lá, e mostra como funcionava o processo (embora a filmagem tenha ocorrido em Trieste, na Itália). Uma coisa do museu que acho que nunca vou esquecer é uma frase de um imigrante que foi reproduzida em um painel:  "Na minha terra, diziam que as ruas dos EUA eram pavimentadas com ouro. Quando cheguei aqui, aprendi três coisas:

1) as ruas não eram pavimentadas com ouro;

2) as ruas nem pavimentadas eram;

3) quem tinha que pavimentar as ruas era eu."

 

 

Bom, quando o Canadá criar um museu desses, eu gostaria de acrescentar minha profunda frase: "Dinheiro aqui dá em árvore, mas a gente passa a vida toda tacando pedra no galho e só cai lacraia".

 

De resto, a arquitetura da cidade me chamou a atenção. Os prédios seguem desenhos bastante particulares. Mas não vou nem começar a falar de construção antiga, porque eu já vivi rôia suficiente nas casas antigas da América do Norte, muito obrigado.

É fato mesmo, quando cheguei ao Canadá, fui morar numa casa antiga com um casal de irmãos que alugavam quartos lá também. Daí começaram a acontecer uns negócios esquisitos na casa: porta amanhecia aberta, torneira aparecia aberta do nada, uma amiga de uma vizinha foi nos visitar e saiu correndo da casa porque disse que viu um cara andando lá dentro... Com isso, a gente vivia de cabelo em pé, naquela época. E o pior era que a vizinha que morava no sótão da casa (o dono da casa fez um apartamentinho lá em cima, junto ao telhado) se mudou de lá e, apesar da casa dela estar vazia, de vez em quando a gente tinha impressão de ouvir passos. Mas ao mesmo tempo, tinha uma varandinha descoberta com uma pequena churrasqueira lá, então a gente esquecia os passos e subia pro sótão pra fazer churrasco de vez em quando.

 

Teve um dia que a gente tomou umas e outras lá, depois desceu e sentou na cozinha pra conversar antes de ir dormir. Todo mundo meio ruim, de pijamão, e aí um cisma que ouviu um barulho. Aí começa a lembrar das histórias, da torneira, da porta, vai dando aquele arrepio... Ninguém lembrou que a varanda ficava bem em cima da nossa cozinha. Pois bem naquela hora, no meio daquele papo, uma LAPA de um guaxinim pulou do telhado bem no meio dessa varanda pra catar resto de churrasco. Rá. Nunca vi um porre melhorar tão rápido. Foram três pro meio da rua num pulo só. Depois de duzentas horas tomando coragem, sobe todo mundo de lanterna lá, se pelando de medo, só pra descobrir o carnaval que o guaxinim deixou pra gente limpar.


Chega por hoje, então. Bora trabalhar, porque a passagem de ônibus subiu pra 7 reais.

 

 

Apita Antônio Barcelos Filho, errrrrrrrrrrrgue os braços!!!

 

Cristiano de Oliveira é mineiro de BH, residente em Toronto no Canadá. Já visitou Alvinópolis inúmeras vezes.

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