Saudações, Alvinópolis do
Carnatal.
E eis que o campeonato
chegou ao fim. Foi um ano espetacular do Galo, mas a
verdade é que o Fluminense mereceu. Jogou como nunca e
operou um milagre com aquele time. Porque sinceramente,
de um time que tem Tiago Carleto, refugo do Coelhão do
pai, eu não esperava título. Wellington Nem? Até outro
dia, estava escondido no Figueirense. Quem diabo é Digão
e Gum no jogo do bicho? Os amigos europeus me
perguntaram outro dia, enquanto choravam com o molho de
alho e pimenta Dona Zita que eu sempre trago (a
gringaiada é fraca pra pimenta, mas manda aquele molho
Dona Zita pra dentro do mesmo jeito, morrendo de achar
bom), quem joga no Fluminense que eles conhecem. Eu tive
que dizer: “Deco e Fred”. E é claro que os caras riram
da minha cara. Portanto, eu tenho que aplaudir Abel
Braga, pois montou um timaço sem grandes estrelas.
Afinal, se nome valesse alguma coisa, Dom Pedro com seus
864 sobrenomes seria rei até hoje.
E digo mais: na minha
humilde opinião, é sem choradeira. Esse papo de CBflu,
de roubo... Deus que me perdoe dizer isso, quando gente
de fora fala eu estresso na hora, mas entre nós eu posso
falar: o torcedor mineiro tá virando um chorão de marca
maior. Herança da terrível política mineira, onde até
hoje, a ordem é chorar miséria e botar a culpa nos
outros. Se houver algum problema, a culpa é sempre dos
outros estados ou do governo federal. O político mineiro
é sempre santo, sofrido, prejudicado... Deve ser muito
pobre também, né? É bem capaz.
E isso se reflete no
futebol. Tem sempre alguém de fora pra receber a culpa.
“Ah, mas teve aquele pênalti...” (no caso do Cruzeiro e
seu amigo Sandro Meira Ricci). “Ah, o STJD julgou
Ronaldinho...” (no caso do Galo). O lance do pênalti
pode ser claro, e o conflito de interesse do tal juiz
flamenguista pode ser um negócio escandaloso, mas em
campeonato de pontos corridos, se você depende de um
pênalti, de um jogador jogar uma partida, você não
merece ser campeão. Se pensarmos bem, teve muito erro a
favor do Galo esse ano também. O Sport passou foi muita
raiva dentro do Independência. Empatamos com o
Fluminense na mão grande. Já está virando frase feita
pelo Brasil afora, o tal “chororô de mineiro”. Chega.
Enxadinha pra todo mundo porque a grama do quintal tá só
crescendo. E esse negócio de que a culpa é do vizinho
que jogou uma semente no quintal só funciona no samba do
Bezerra.
Bom, finalmente, é hora de
largar isso aqui e descer a serra. A melhor hora do ano:
a hora de passar Natal com vó. Isso aqui já tá uma
depressão danada. O povo no Brasil vê filme e acha
lindo, a neve caindo, o povo todo encapotado brindando
feliz em harmonia e união, aquele peruzão na mesa... Mas
cê quer saber a verdade, como é que funciona mesmo? O
tio vai contar:
- A neve cai linda e
branquinha, aqueles flocos reluzentes descendo, fazendo
um barulhinho... Pois é. Mas isso se não ventar. Se
ventar, a casa cai na hora. Aquele pó doido sai
chicoteando pelo ar, pega dentro do olho e dá uma
fincada tão gelada que parece uma dedada de um pinguim.
Orelha? O que é orelha? A sensação é de que você só tem
um pedaço de pau de cada lado da cabeça, de tão geladas
e sem sensibilidade que elas ficam. O pé vai atolando
naquela areia branca maligna enquanto você anda, e daí a
pouco ela dá um jeito de invadir seu sapato. Parece que
derramaram um copo de whisky dentro da sua meia. Aí
chega a hora de atravessar a rua, onde 590 mil carros já
amassaram bem a neve sobre o asfalto. Resultado: aquilo
vira um barreiro de um tamanho, que a simples travessia
de uma rua parece mais o esgotamento de uma fossa. Dá
uma saudade danada de Bota Sete Léguas, aquela que a
gente usava quando era menino pra ir à roça. Aliás, a
situação é tão brava que deram um jeito de fazer aquilo
voltar à moda aqui. Mas por enquanto, só vi modelos
femininos: feias como as de antigamente mesmo, só que
estampadas. E pergunta se motorista em Toronto pega leve
quando passa em poça de água? Ele faz é acelerar mais,
que é pra ver o brasileiro pular com vontade.
- E fazer compra? É um
arranca-rabo medonho. Você entra na loja todo
encapotado, por causa do frio lá fora, e a loja está com
o aquecimento ligado no máximo. Só que ninguém quer
ficar carregando casaco na mão, no meio de uma loja
cheia de desesperado correndo e catando as coisas,
fuxicando atrás de etiqueta de preço, empurrando
carrinho de bebê (pra carregar compra! O bebê que se
vire e vá andando atrás). Resultado: vira aquele
amontoado de gente suando e se acotovelando, e o calor
na loja é alto, vai subindo aquela maresia de sovaco
cansado, o sistema de som da loja castigando aquele
jingobéu enjoado de gringo na cabeça da gente... Ah, mas
nesse quesito, eu sou obrigado a admitir que o
brasileiro também sofre, pois tem que aturar Simone e
aquele raio daquela harpa, sabe qual é? Desde que eu
nasci, eu sofro com aquela harpa. Toda propaganda do SOS
dos Fogões, Casa do Rádio, Abdala é Fogo na Roupa,
Armazém do Grilo, Sapataria do Amigão... tudo tem que
tocar o inferno da harpa. Se você não lembra qual é, ela
tá aí embaixo.
- E aquela cena bonita dos
amigos reunidos à mesa, a câmera do lado de fora,
filmando pela janela o povo lá dentro celebrando,
enquanto a neve cai... Rapaz, quando eu vim pra cá a
primeira vez, em 1998, falei com vó que não me esperasse
pro Natal, pois pretendia passar Natal aqui, com os
amigos que certamente ia fazer na faculdade ou no
dormitório da faculdade. Afinal, quando eu era menino
assisti a Porky’s 1, 2 e 3, Picardias Estudantis,
Curtindo a Vida Adoidado, Clube dos Cafajestes... Todos
os filmes de comédia de escola. Estava completamente
ciente do que ia encontrar aqui: festa da toga,
campeonato de virar cerveja, luau pelado, muita mulher
bonita e boa pra casamento, de família boa... RÁ. Que
chumbada na asa que eu levei! Quando chegou dezembro, eu
já estava passando fim de semana inteiro com som ligado,
a porta aberta, escorada com caixa de cerveja geladinha,
pra ver se alguma alma bondosa me dava um minuto de
atenção, nem que fosse pra me roubar. Nem que fosse pra
catar minha cerveja e sair correndo! Mas nada. Chegou
ao ponto de ter uma festa no quarto em frente ao meu,
porta fechada, som no máximo lá dentro... O dono do
quarto passa por mim, voltando sei lá de onde, diz um
“boa noite” muito sistemático, e abre a porta do quarto.
Eu dou uma pescoçada e vejo duas mulheres lá dentro
dançando em cima da cama do cara, que entra gritando
igual doido, “úúúúú!!”, e fecha a porta na minha cara.
Não adianta não, eu sou tão fechado que Ronaldinho
Gaúcho passa do meu lado e vira Cid Moreira: lá dentro é
“úúúúú!!!!!”, aqui fora é “boa noite”. Amigo no Natal?
Só se for brasileiro mesmo, e olhe lá.
- Pra completar minha
agonia, qual é a maior atração de Natal de Toronto? A
grande Parada do Papai Noel. Um monte de carro alegórico
passando pelas ruas, com Papai Noel e mais uns 300
figurantes, todos dando tchauzinho pro povo, aquele
tchau de rainha, sabe? Que o cidadão faz aquela cara de
jumento magro e só abana a mão bem de levinho, numa
preguiça danada... Se depender desse Papai Noel pra
distribuir presente, tá todo mundo lascado: vai dar dia
5 de janeiro e ele ainda nem tomou banho pra catar o
trenó e sair.
Mas tudo isso vai ficar
pra trás, pois estou a caminho. Esse ano, a passagem
pelo Brasil vai ser rápida, devido a problemas com a
enxada que estou deixando aqui e vai ficar me esperando,
mas ao menos o Natal com vó está garantido e eu continuo
invicto, sem nunca ter passado um Natal sequer longe
dela, graças a Deus.
Pois é, meu querido povo
alvinopolense, me despeço por aqui, porque mala pra
arrumar é o que não falta. A todos vocês que
acompanharam o meu tormento aqui no Alvinews por mais um
ano (se é que ainda sobrou alguém), o meu muito obrigado
sempre pela preferência de sintonia. Peço licença a Tica
pra dizer mais uma vez: cês são feijão sem bicho. A
todos, um Natal GG: joinha, joinha, e um 2013 da mais
alta qualidade para todos nós e para a nossa
Alvinópolis. Meu abraço, saudade grande de todo mundo
aí.
Apita Antônio Barcelos
Filho, “errrrrrgue os braços”!
Cristiano de Oliveira é mineiro de BH, residente em Toronto
no Canadá. Já visitou Alvinópolis inúmeras vezes.
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