O ATLETICANO E O NATAL DO GRINGO

 

Cristiano de Oliveira

 

 

 

 

Saudações, Alvinópolis do Carnatal.

 

E eis que o campeonato chegou ao fim. Foi um ano espetacular do Galo, mas a verdade é que o Fluminense mereceu. Jogou como nunca e operou um milagre com aquele time. Porque sinceramente, de um time que tem Tiago Carleto, refugo do Coelhão do pai, eu não esperava título. Wellington Nem? Até outro dia, estava escondido no Figueirense. Quem diabo é Digão e Gum no jogo do bicho? Os amigos europeus me perguntaram outro dia, enquanto choravam com o molho de alho e pimenta Dona Zita que eu sempre trago (a gringaiada é fraca pra pimenta, mas manda aquele molho Dona Zita pra dentro do mesmo jeito, morrendo de achar bom), quem joga no Fluminense que eles conhecem. Eu tive que dizer: “Deco e Fred”. E é claro que os caras riram da minha cara. Portanto, eu tenho que aplaudir Abel Braga, pois montou um timaço sem grandes estrelas. Afinal, se nome valesse alguma coisa, Dom Pedro com seus 864 sobrenomes seria rei até hoje.

 

E digo mais: na minha humilde opinião, é sem choradeira. Esse papo de CBflu, de roubo... Deus que me perdoe dizer isso, quando  gente de fora fala eu estresso na hora, mas entre nós eu posso falar: o torcedor mineiro tá virando um chorão de marca maior. Herança da terrível política mineira, onde até hoje, a ordem é chorar miséria e botar a culpa nos outros. Se houver algum problema, a culpa é sempre dos outros estados ou do governo federal. O político mineiro é sempre santo, sofrido, prejudicado... Deve ser muito pobre também, né? É bem capaz.

 

E isso se reflete no futebol. Tem sempre alguém de fora pra receber a culpa. “Ah, mas teve aquele pênalti...” (no caso do Cruzeiro e seu amigo Sandro Meira Ricci). “Ah, o STJD julgou Ronaldinho...” (no caso do Galo). O lance do pênalti pode ser claro, e o conflito de interesse do tal juiz flamenguista pode ser um negócio escandaloso, mas em campeonato de pontos corridos, se você depende de um pênalti, de um jogador jogar uma partida, você não merece ser campeão. Se pensarmos bem, teve muito erro a favor do Galo esse ano também. O Sport passou foi muita raiva dentro do Independência. Empatamos com o Fluminense na mão grande. Já está virando frase feita pelo Brasil afora, o tal “chororô de mineiro”. Chega. Enxadinha pra todo mundo porque a grama do quintal tá só crescendo. E esse negócio de que a culpa é do vizinho que jogou uma semente no quintal só funciona no samba do Bezerra. 

 

 

 

Bom, finalmente, é hora de largar isso aqui e descer a serra. A melhor hora do ano: a hora de passar Natal com vó. Isso aqui já tá uma depressão danada. O povo no Brasil vê filme e acha lindo, a neve caindo, o povo todo encapotado brindando feliz em harmonia e união, aquele peruzão na mesa... Mas cê quer saber a verdade, como é que funciona mesmo? O tio vai contar:

- A neve cai linda e branquinha, aqueles flocos reluzentes descendo, fazendo um barulhinho... Pois é. Mas isso se não ventar. Se ventar, a casa cai na hora. Aquele pó doido sai chicoteando pelo ar, pega dentro do olho e dá uma fincada tão gelada que parece uma dedada de um pinguim. Orelha? O que é orelha? A sensação é de que você só tem um pedaço de pau de cada lado da cabeça, de tão geladas e sem sensibilidade que elas ficam. O pé vai atolando naquela areia branca maligna enquanto você anda, e daí a pouco ela dá um jeito de invadir seu sapato. Parece que derramaram um copo de whisky dentro da sua meia. Aí chega a hora de atravessar a rua, onde 590 mil carros já amassaram bem a neve sobre o asfalto. Resultado: aquilo vira um barreiro de um tamanho, que a simples travessia de uma rua parece mais o esgotamento de uma fossa. Dá uma saudade danada de Bota Sete Léguas, aquela que a gente usava quando era menino pra ir à roça. Aliás, a situação é tão brava que deram um jeito de fazer aquilo voltar à moda aqui. Mas por enquanto, só vi modelos femininos: feias como as de antigamente mesmo, só que estampadas. E pergunta se motorista em Toronto pega leve quando passa em poça de água? Ele faz é acelerar mais, que é pra ver o brasileiro pular com vontade.

-  E fazer compra? É um arranca-rabo medonho. Você entra na loja todo encapotado, por causa do frio lá fora, e a loja está com o aquecimento ligado no máximo. Só que ninguém quer ficar carregando casaco na mão, no meio de uma loja cheia de desesperado correndo e catando as coisas, fuxicando atrás de etiqueta de preço, empurrando carrinho de bebê  (pra carregar compra! O bebê que se vire e vá andando atrás). Resultado: vira aquele amontoado de gente suando e se acotovelando, e o calor na loja é alto, vai subindo aquela maresia de sovaco cansado, o sistema de som da loja castigando aquele jingobéu enjoado de gringo na cabeça da gente... Ah, mas nesse quesito, eu sou obrigado a admitir que o brasileiro também sofre, pois tem que aturar Simone e aquele raio daquela harpa, sabe qual é? Desde que eu nasci, eu sofro com aquela harpa. Toda propaganda do SOS dos Fogões, Casa do Rádio, Abdala é Fogo na Roupa, Armazém do Grilo, Sapataria do Amigão... tudo tem que tocar o inferno da harpa. Se você não lembra qual é, ela tá aí embaixo.

 

 

 

 

 

- E aquela cena bonita dos amigos reunidos à mesa, a câmera do lado de fora, filmando pela janela o povo lá dentro celebrando, enquanto a neve cai... Rapaz, quando eu vim pra cá a primeira vez, em 1998, falei com vó que não me esperasse pro Natal, pois pretendia passar Natal aqui, com os amigos que certamente ia fazer na faculdade ou no dormitório da faculdade. Afinal, quando eu era menino assisti a Porky’s 1, 2 e 3, Picardias Estudantis, Curtindo a Vida Adoidado, Clube dos Cafajestes... Todos os filmes de comédia de escola. Estava completamente ciente do que ia encontrar aqui: festa da toga, campeonato de virar cerveja, luau pelado, muita mulher bonita e boa pra casamento, de família boa...  RÁ. Que chumbada na asa que eu levei! Quando chegou dezembro, eu já estava passando fim de semana inteiro com som ligado, a porta aberta, escorada com caixa de cerveja geladinha, pra ver se alguma alma bondosa me dava um minuto de atenção, nem que fosse pra me roubar. Nem que fosse pra catar minha cerveja e sair correndo!  Mas nada. Chegou ao ponto de ter uma festa no quarto em frente ao meu, porta fechada, som no máximo lá dentro... O dono do quarto passa por mim, voltando sei lá de onde, diz um “boa noite” muito sistemático, e abre a porta do quarto. Eu dou uma pescoçada e vejo duas mulheres lá dentro dançando em cima da cama do cara, que entra gritando igual doido, “úúúúú!!”, e fecha a porta na minha cara. Não adianta não, eu sou tão fechado que Ronaldinho Gaúcho passa do meu lado e vira Cid Moreira: lá dentro é “úúúúú!!!!!”, aqui fora é “boa noite”. Amigo no Natal? Só se for brasileiro mesmo, e olhe lá.

 

 

- Pra completar minha agonia, qual é a maior atração de Natal de Toronto? A grande Parada do Papai Noel. Um monte de carro alegórico passando pelas ruas, com Papai Noel e mais uns 300 figurantes, todos dando tchauzinho pro povo, aquele tchau de rainha, sabe? Que o cidadão faz aquela cara de jumento magro e só abana a mão bem de levinho, numa preguiça danada... Se depender desse Papai Noel pra distribuir presente, tá todo mundo lascado: vai dar dia 5 de janeiro e ele ainda nem tomou banho pra catar o trenó e sair.

Mas tudo isso vai ficar pra trás, pois estou a caminho. Esse ano, a passagem pelo Brasil vai ser rápida, devido a problemas com a enxada que estou deixando aqui e vai ficar me esperando, mas ao menos o Natal com vó está garantido e eu continuo invicto, sem nunca ter passado um Natal sequer longe dela, graças a Deus.

Pois é, meu querido povo alvinopolense, me despeço por aqui, porque mala pra arrumar é o que não falta. A todos vocês que acompanharam o meu tormento aqui no Alvinews por mais um ano (se é que ainda sobrou alguém), o meu muito obrigado sempre pela preferência de sintonia. Peço licença a Tica pra dizer mais uma vez: cês são feijão sem bicho. A todos, um Natal GG: joinha, joinha, e um 2013 da mais alta qualidade para todos nós e para a nossa Alvinópolis. Meu abraço, saudade grande de todo mundo aí.

 

Apita Antônio Barcelos Filho, “errrrrrgue os braços”!

 

Cristiano de Oliveira é mineiro de BH, residente em Toronto no Canadá. Já visitou Alvinópolis inúmeras vezes.

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