Um intervalo na viagem
à República Tcheca pra avisar que eu cheguei vivo.
Saudações, Alvinópolis do
Circo Lesco Lesco.
Pra dar inspiração, estou
aqui escutando “O Sonho do Barnabé”, que na voz e violão
do saudoso Tetêga virou “O Pão Virado”. Ê tempo bom.
Por falar nisso, aqui vai
um pedido aos amigos de Alvinópolis: eu coleciono discos
de vinil, e tudo que eu preciso de rock e MPB, uma hora
eu acho. Mas o fato é que sou altamente eclético, e tem
uma coisa que tá difícil conseguir: completar minha
coleção de discos do Manhoso. Sabe o Manhoso, aquele do
gato Tico e do Só Capim Canela? Pois é, as músicas do
Manhoso me fazem rir desde que eu era pequeno, e eu
venho há anos tentando completar a discografia dele, mas
faltam dois discos, um se chama Criando Cobras e o outro
Feijão Tumim. Se alguém tiver e quiser vender, eu tô
comprando.
Pois é, jovens, aqui estou
eu, transmitindo do Brasil, na alegria incontida de
poder estar em casa, perturbando a paz do cachorro,
tomando Original gelada e fuçando na geladeira de mãe.
Vai parecer bobagem, mas cê não sabe a alegria que é pra
mim poder encostar em um botão no rádio e já pegar
futebol na Itatiaia. Lá eu tenho que conectar internet -
e cada vez que a conexão cai, eu quase passo mal - ou
então pegar pela internet no telefone, que cê paga por
megabyte usado. De toda forma, pra ouvir uma pequena
Turma do Bate Bola é um sufoco danado. Bom, é uma pena
que essa facilidade toda, no momento, só me sirva pra
escutar Copa Itatiaia de futebol amador, mas não reclamo
de nada. Se tiver Roberto Abras tomando Cavalo Branco,
pra mim já está bom.
Dureza mesmo foi pra
chegar aqui. Resolvi experimentar o novo vôo
Toronto-Miami-Belo Horizonte. A agência me jurou que o
vôo Miami-BH era direto, e como sempre, o rapazola foi
obrigado a pagar à vista. Não existe parcelamento no
Canadá. Que jóia, né? Pois quando cheguei a Miami, fui
pegar o bilhete de embarque, e no próprio guichê estava
escrito “Miami-Rio”. Que roubada. O vôo não só parou no
Rio, como passei três horas preso na sala de embarque do
Galeão esperando pra embarcar de novo. Após embarcar, o
piloto explicou que o atraso foi causado por problemas
com bagagem.
Foi aí que pensei na
bobagem que tinha feito: quem é o doido que pega vôo de
Miami pro Brasil uma semana antes do Natal? Aquilo é o
Paraguai Express! Uma muambada que não acaba mais. O
povo devia escovar dente com controle de Playstation,
porque só dava videogame nas bagagens de mão. Tablet
era igual passaporte, todo mundo tinha que ter um. Tinha
gente que trazia tantos, que dava pra fazer uma sanfona
com eles. Pelo menos os passageiros são menos
barulhentos que os do vôo Toronto-São Paulo, que sempre
vem lotado de estudantes de inglês que vão e voltam sem
falar nem “hello” direito, e de crianças, já que
brasileiro vai pro Canadá e começa a procriar igual
coelho, aí tem que trazer a tropa toda no avião pra
visitar a avó. Sério, eu vou ficar rico no dia que
passar a vender DRAMIN na sala de embarque. Bom, só sei
que no vôo de Miami pro Rio dá pra dormir melhor. Isso
se um home theatre não desabar do bagageiro em
cima de você.
Outra encrenca foi a
franquia de bagagem de mão. Ela é de 10 kg no vôo
Toronto-Miami, mas quando cheguei a Miami, o pessoal da
TAM barrou: máximo 5 kg. O correto seria que a franquia
do primeiro trecho fosse respeitada no segundo, mas a
turma da TAM em Miami pelo visto já não agüenta mais ver
tanto brasileiro e já manda todo mundo se lascar logo de
uma vez. A mulher acabou com a minha raça: ela me deixou
seguir com a mochila, mas disse que funcionários com
balanças portáteis estariam na sala de embarque
conferindo bagagens de mão, e a minha certamente seria
recolhida lá. Gelei a espinha: a mochila continha meu
laptop, câmera, roupas de inverno (que usei antes de
embarcar em Toronto), backups de computador de 7 anos
pra cá... O tipo de coisa que, se você despacha e
extravia, está lascado de acordo. Foi dando a hora de
embarcar, e eu desorientado, pensando em como ia fazer
pra passar com a mochila.
Resultado: em plena sala
de embarque do aeroporto de Miami, no meio do verão, um
calor de lascar o cano e faltar corrente na bobina... Lá
estava o bonitão de touca, cachecol, dois casacos, 500
revistas e livros debaixo do braço, e os bolsos como se
eu tivesse roubado o baleiro da escola, com 300 miudezas
dentro. A mochila chegou aos 5 kg, mas eu mesmo devia
estar pesando uns 200. Embarquei sem problemas, a
mochila passou, mas passei a viagem inteira catando
chave, fone de ouvido, pen drive, caneta e até aquele
bafômetro que eu levei pra Alvinópolis uma vez, que iam
caindo dos bolsos a cada vez que eu virava pra tentar
dormir.
Jovens, eu infelizmente
vou ter que encerrar mais cedo hoje. Eu ainda tenho a
parte final da viagem a Praga pra contar, mas hoje não
vai dar, e por isso peço desculpa a vocês. Além dos
compromissos familiares que a gente sempre tem quando
volta pra casa, eu ainda recebi uma tonelada de serviço
pra fazer (passaram o ano inteiro me mandando só
mixaria. Justo agora que eu tô cercado de Bohemia
gelada, eles resolvem me mandar serviço, ó que rôia).
Então a gente fica por aqui, e em fevereiro eu volto ao
normal, já que estarei de volta a Toronto, debaixo de
-25 graus (temperatura esperada), tomando Budweiser
quente e rindo sozinho da errada em que eu fui me
enfiar.
Apita Antônio Barcelos
Filho, errrrrrrrrrrrgue os braços!!!
Cristiano de Oliveira é mineiro de BH, residente em Toronto
no Canadá. Já visitou Alvinópolis inúmeras vezes.
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