O ATLETICANO E O CARNAVAL ABAIXO DE ZERO

 

Cristiano de Oliveira

 

 

 

Saudações, Alvinópolis do Bloco do Ninho da Águia.

 

Ri mesmo, cambada de sem-vergonha. Ri mesmo, porque não é com vocês. Todo mundo passou Carnaval no meio da rua, de bermuda ou shortinho, e tomando gelada no Maurão. E ainda devem ter mandado Ciloca anotar, só pra polemizar. Estou vendo as fotos no Alvinews e tá me dando até azia. Tive que vir embora antes do Carnaval, passando esse belo feriado... sem ter feriado. Aqui não tem dessas coisas não, o máximo que arrumei foi a casa de um amigo meu pra ver desfile do Rio de Janeiro, pois ele paga Globo Internacional e o desfile foi transmitido (15 dólares por mês pra pegar Globo? Pode botar quantas vassouras quiser atrás da porta, mas só assisto na casa dos outros). Não dava nem pra ir à varanda da casa, pois fazia -8 do lado de fora, com o vento devia estar -13. Dentro da casa, o aquecimento parecia a boca de um dragão, num calor danado. E eu vendo desfile e tomando cerveja. Foi só dar um pulo na varanda do cara e voltar pra dentro que minha pressão caiu na hora. Só deu tempo de sentar. O povo todo lá, vendo desfile, e eu suando frio e pensando se o vexame ia parar por ali ou se o show do Circo Lesco Lesco ia continuar e eu ainda ia desmaiar, cair duro pra trás ou alguma coisa assim. Quando cheguei em casa, fui dormir e sonhei que aquele cantor Zé Geraldo estava com o bigodão dele e o violão na porta do Ninho da Águia lotado, olhando pra mim e cantando assim: "Tudo isso acontecendo e eu aqui na praça, dando milho aos pooooombos".

 

Mas o pior da história eu não contei. Por que tive que vir embora antes do Carnaval? Porque eu, como sempre, acho que rôia é igual boitatá, é só uma lenda. Em dezembro, pouco antes de ir para o Brasil, duas empresas me ofereceram emprego. Fiz entrevistas e tudo mais, mas a decisão só sairia em janeiro. Falei que ia viajar, e eles disseram que me chamariam para entrevistas finais no final do mês, ou começo de fevereiro. Aí é aquele negócio: não tem como dar errado. Após passar nas preliminares em duas empresas, o normal é que o camarada passe na entrevista final em pelo menos uma. Mas já dizia aquela frase: "Onde houver uma camisa preta e branca no varal, procurando emprego durante uma tempestade, o atleticano perde o currículo no vento." Voltei rapidinho pra cá no dia 1 de fevereiro, e poucos dias depois, as duas empresas me deram um cinto. "Cinto" muito, mas vá caçar emprego em outro canto. A tristeza foi tanta que nem xingar eu consegui.

 

Bom, mas ainda na tentativa de salvar um pouco do Carnaval, no sábado fui tocar meu surdão com a bateria da escola de samba na festa de Carnaval da comunidade brasileira. Aí cê já vai achando que o negócio melhorou pro meu lado, né? Ah, tá. Não é nem culpa da organização não, o povo aqui até se esforça pra fazer um negócio bem feito, organizado, e ao menos dar uma aliviada na falta do Carnaval. E olha que a turma conseguiu fazer muito mais do que eu esperava. Mas não adianta, não é a mesma coisa. Afinal, onde já se viu, fora de escola primária, Carnaval com hora pra acabar? Deu dez da noite, a polícia já estava na porta, e dali não saiu até a festa acabar. É lei estadual: ninguém pode consumir bebida alcoólica em lugar público depois das 2 da manhã. Então, deu uma e meia, parou de vender cerveja. Deu duas horas, as luzes do salão se acenderam e o povo começou a varrer e levantar as cadeiras! A luz acendeu e me pegou com a baqueta do surdo na mão. Ainda não tinha dado tempo de guardá-la. É um negócio muito triste. Durante a festa, entre uma banda e outra, o DJ catava o microfone e gritava: "Vamos, gente, bebe rápido, aproveita mesmo porque daqui a pouco acaba, e aí, só daqui a 374 dias." Que dureza. Acho inclusive que vou recomendar essa ideia como propaganda pro Carnaval do ano que vem. "Carnaval no Canadá: uma festa como você nunca viu". E não é mentira: é frio, dura um dia só e acaba às duas da manhã, sem briga mas cheio de polícia na porta. Ninguém nunca viu isso. Só um tal de Cristiano, mas esse só vê o que não deve mesmo.

 

 

Pra aliviar a cabeça e esquecer o Carnaval, eu resolvi esquiar de novo. Mas fiquei cismado depois da furada em que entrei no ano passado e resolvi comprar capacete. Ano passado, eu vivi um momento ecológico muito bonito: abracei uma árvore. Tomei um capote monstro e fui direto nela. Quase trouxe um galho pra casa, espetado bem pertinho do meu olho. Viva a mãe-natureza.

 

Pois é, aí fui comprar o capacete. Vi propaganda de uma loja de material esportivo em liquidação, 50% de desconto, etc etc. Eu não sei como depois de quase nove anos, eu ainda caio em conversa de canadense, que é o povo mais incompetente do mundo na arte de fazer negócio. Atravessei a cidade pra ir lá, a loja lotada, fila dando volta pra chegar no caixa... e como era a grande liquidação? Simples: 50% de desconto em óculos de esqui cor-de-rosa, máscara de esqui do Pikachu e capacete PP (é isso mesmo. Menor que o pequeno. Deve ser pra chihuaua esquiador). O resto levava 10% de desconto e olhe lá. Pense no tamanho do cano que eu tomei no capacete. De agora em diante, quando for esquiar, vou tentar sempre cair de cabeça, pra compensar o prejuízo botando o capacete pra trabalhar.

 

Bom, aí o bonitão montou no ônibus pra ir esquiar e esquecer o Carnaval. Você pode perceber a animação total do meu Carnaval no pequeno vídeo que eu preparei.

 

 

 

Foi até um dia divertido, mas a rôia não esquece os amigos, e mais uma vez ela veio me visitar. O ônibus estava marcado para 16h55, e dez minutos antes, lá estava eu, esperando no meio do estacionamento. A temperatura muito amena, só -12, e o candidato aqui esperando bem comportado. Quando deu 17h20, meu dedo já não servia nem pra coçar o ouvido, de tão congelado. Cê já sentiu frio no olho? Pois a situação era bem assim. E descobri que minha linda touca do Galo (aquela da Diadora) foi fabricada com base em Renan Ribeiro: começa bem, mas daí a um tempo começa a deixar passar. Com 20 minutos, se minha orelha fosse lata de Skol, ela já acendia aquela setinha azul. E nada de ônibus. No desespero, fui tentar descobrir o que se passava, e fui informado de que o ônibus simplesmente chegou mais cedo e foi embora mais cedo, e o brasileiro que se lascasse por lá mesmo. O lugar fica a 40 km da cidade mais próxima, e só o ônibus especial chega lá. Eu devia estar numa cara de pânico tão grande, que um milagre aconteceu. Uma mulher me ofereceu a coisa mais difícil de se conseguir no Canadá: uma carona. Nem acreditei. Num país onde pedir carona na rua é proibido por lei, a mulher se ofereceu para me levar pelos 180km de volta até Toronto. Depois dessa, eu acredito até em Galo campeão.

 

E assim, estou enterrando oficialmente o Carnaval 2012. Foi um fracasso atrás do outro, mas eu sobrevivi, e ano que vem, se Deus quiser, vou conseguir passar ao menos um diazinho de Carnaval em Alvinópolis e gritar muito "Sapeca Demônio".

 

E chega também, porque eu não tô bom não. Tem mais de 800 recibos aqui na minha frente, esperando para serem contabilizados para o imposto de renda. Ééééé, tá achando que é só aí que tem imposto de renda? Aqui também tem, e se você deixar pro contador fazer tudo, vai deixar as calças no escritório dele pra pagar a conta. Tem que sentar e contar recibo de tudo. E o pior: separar os recibos dedutíveis dos recibos de cerveja na Dona Graça. 

 

Apita Antônio Barcelos Filho, errrrrrrrrrgue os braços.

 

GLOSSÁRIO DA COLUNA:

Rôia = Termo alvinopolense usado aqui para representar as furadas em que Cristiano sistematicamente entra.

Rolha = Aquele negócio de tampar garrafa de vinho

 

Cristiano de Oliveira é mineiro de BH, residente em Toronto no Canadá. Já visitou Alvinópolis inúmeras vezes.

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