O ATLETICANO NO ÁRTICO

 

Cristiano de Oliveira

 

 

 

Saudações, Alvinópolis do mamógrafo.

E aí, como estão as coisas? Libertadores no Ninho da Águia deve estar sendo evento de gala, né? Não dá pra ir vestido com roupa de estádio. Eu estou indo ver jogo de calça e camisa social. É sério mesmo! O motivo real é que estou indo pro bar direto do serviço, mas já virou folclore que Cristiano assiste jogo engomadinho porque jogo do Galo agora é ópera. É black-tie. Mas nós aqui tomamos um golpe duríssimo na asa logo quando a Libertadores começou: com o inverno bravo que deu esse ano afastando a clientela, com a filha em Belo Horizonte e com o bar precisando de uma arrumada, Dona Graça fechou as portas temporariamente. Pendurou um cartaz na porta dizendo “Fechado pra Reforma” e foi pra BH por três semanas. Apesar do desespero inicial de ficar sem bar pra ver jogo, eu aproveitei a oportunidade pra assistir em um restaurante brasileiro lá perto. E não é que foi bom? Além de ver numa televisão boa, não tinha tropeirão, mas tinha lombo grelhado com maionese, arroz, feijão e farofa. Nessa terra onde só se come frango, um pratão desse não tem volta. E com o Galo ganhando, só garçonete bonita... Aí é caixa.

Ah, mas notícia nessa comunidade brasileira corre rápido. Sem Peixe é Nova York, comparado com isso aqui. Dona Graça mal voltou de viagem e já foi me ligando: “Já cheguei, pode voltar pra cá.” E aproveitou pra avisar que vem aí uma televisão de 50 polegadas. Mas apesar da minha devoção ao bar dela, agora vai ser complicado. Eu provei do fruto, gostei e dei parabéns à serpente: agora eu quero lombo com maionese na hora do jogo.

Como diretor de futebol do bar da Dona Graça, eu vou ter que buscar parceiros pra fazer uma proposta a Ciloca, visando a compra do passe de Antônio do Garanjanga. Daremos uma parte em dinheiro e mais um jogador em troca: Pelé, o cruzeirense mais fanático que temos aqui (não importa o quanto ele beba, ele nunca fala a palavra “Atlético”. Ele chama de “palavrão”. “Lá em casa, todo mundo torce pro Palavrão”). Eu gosto muito dos sanduíches da Dona Graça, mas comparar lombo, maionese e farofa com um hambúrguer é querer comparar Réver com Kanakis. Ou Dedé com Caveirákis.

 

Pois muito bem, meu povo. A bandeira viajante do Galo, depois de ser desfraldada em grandes centros mundiais como Paris, Nova York, Toronto, Berlim, Praga, Reykjavik, Montreal e Alvinópolis, além de vários meios de mato do Canadá afora, agora deve ter batido um recorde. É momento fundamental do projeto MIDÁ O GALO DE PRATA (Momentos Inesquecíveis Do Atleticano Objetivando Galo de Prata). Pra quem não acompanha o meu esquema aqui no Alvinews e está chegando agora, eu explico o projeto: eu levo a bandeira do Galo pra passear pelo mundo, fotografando-a em lugares e situações marcantes, além de explicar o que é o Galo aos gringos curiosos que veem a bandeira sendo fotografada e vêm me perguntar sobre ela. Sério, já teve turista japonês me fotografando com a bandeira. Tá certo que japonês tira foto de tudo que vê (e sempre posando pras fotos fazendo V com os dedos da mão – que diabo é essa mania, hein?), mas ao menos ela desperta a curiosidade do povo mundo afora.

E por que eu faço isso? Mais uma vez, pra quem não conhece a história: eu nunca dei muita bola a esse Galo de Prata, mas no dia em que vi Bambam do Big Brother e Marcos Frota sendo agraciados com o mesmo, aí foi de lascar o cano. Aí é esculhambação com a minha pessoa. O único produto do Galo que eu não tenho é cueca, e isso porque quando eu fui comprar só tinha tamanho P. Fiz prova de Engenharia de Software na faculdade com fone no ouvido escutando Atlético X Mamoré (e obviamente me lasquei, pois Prof. Pasteur torcia pro América). Fui sócio-torcedor, vivia no estádio: encarei arrastão, fui pisoteado, arrombaram meu carro três vezes, comprei picolé de limão ao preço de Chicabon e ainda me venderam feijão tropeiro sem ovo. Paguei pra ver cada pelada contra Democrata Jacaré, Tupi Manchester, Alvorada do Tocantins (dos artilheiros Preá e Meu Tio, e ainda correu o boato – ô povo ruim falador, Ave Maria -  que o time passara o dia rodando BH, tirando foto e andando de elevador, que eles nunca tinham visto na vida. E Meu Tio chorou de emoção com a torcida do Galo gritando o nome dele)... Aí chega um ator de novela, monta um circo em BH, aparece no Globo Esporte dizendo que é fã do Marques e gosta do time, e os caras vão lá e dão um Galo de Prata pra ele? Vá se lascar! Aí resolvi correr atrás do meu, levando o nome do time pelo mundo afora. Eu pelo menos tô trabalhando em prol do time pra ganhar o meu troféu.

 

 

Bom, mas eu disse que minha bandeira deve ter batido um recorde: pois é, eu não sei não, mas tenho a impressão de que ela é a bandeira do Galo que mais perto chegou do pólo norte até hoje. E o Alvinopolense provavelmente é o único time do interior mineiro cuja camisa chegou lá também. Pois é, sob pressão da minha irmã, que veio aqui me visitar, eu acabei concordando em ir conhecer Yellowknife, a capital dos Northwest Territories e capital canadense mais próxima do Círculo Ártico. Em março, finzinho de inverno. Ideia fraca? Pode apostar.

O lugar é ruim de chegar. Do avião, só se vê tudo branco. Até o lago, que congela inteiro, fica branco. O acesso à cidade é complicado: são 4 horas de voo de Toronto a Calgary, e depois mais 2h30 em um avião pequeno até Yellowknife. Dizem que é por isso que tudo lá é caro. A cidade é no meio do nada mesmo. É no segundo trevo depois da entrada pra casa do Papai Noel, à direita. Vai ter uma foca vigiando a cancela, você pergunta a ela que ela sabe informar.

Cheguei lá levando tudo que eu tinha em termos de roupa de frio. Temperatura média durante o dia, com sol: -22 graus. No fim da tarde, começo da noite, ela caía pra -27, -30. E durante a madrugada, quando a gente saía pra ver a Aurora Boreal, ela ia logo pra casa dos -40 e poucos, e com o vento, a sensação térmica podia chegar quase a -50. Apesar disso, o espertão aqui achou que, se vestisse todas as roupas de frio que usa aqui em Toronto, uma em cima da outra, aguentaria o tranco. Realmente, aguentei: eu não morri. Mas a dor foi fora do comum. Congelei tudo o que o corpo permitiu. Tirei pouca foto, porque tirar a luva pra bater uma foto torrava os dedos rapidamente. O duro foi pra tirar a tradicional foto com a camisa do Alvinopolense, que sempre viaja comigo também. Foi com muita fé e amor pelo time que eu tomei coragem e tirei a roupa na rua pra bater a foto. RÁ. Quase fiquei sem os cabelos do peito, e os do sovaco viraram piaçava. O frio parece cortar a gente. Olha a foto aí:

 

 

E rôia, teve? Ah, se não tivesse, o viajante não era eu, era aquele menino do Príncipe Charles. Viagem minha, se não tiver rôia, tem alguma coisa errada. Pois o japonês da recepção do hotel encheu meu saco pra ir conhecer o Bullock’s Bistro, um restaurante que funciona em uma cabana de madeira do tempo do boitatá, à beira do lago, e que foi eleito o melhor fish and chips (peixe frito com batatinha, mais uma das esquisitices da cozinha britânica) do Canadá pela revista Reader’s Digest. No Brasil, essa é a famigerada revista Seleções, aquela que manda pelo correio uma peste de uma chave que não serve pra abrir nada e te enrola pra ficar pagando 800 prestações, prometendo um prêmio no final que é igual ácaro: ninguém nunca viu, mas jura que existe. Pilantragem pura, tem denúncia contra ela no mundo inteiro. Bom, mas àquela altura, qualquer revista, por pior que fosse, conhecia Yellowknife melhor que eu, então fui na dela e baixei pro tal restaurante.

 

 

Chegando lá, a garçonete era muda. Juntando com meu ouvido que não funciona muito bem, já começou a virar a Praça da Alegria. Depois de 300 tentativas, eu entendi o que ela queria me dizer: que eles não tinham nada que estava escrito no cardápio. Com mais 780 tentativas, entendi que eles só tinham três tipos de peixe, pois era tudo pescado ali mesmo, no lago congelado, e só estavam saindo aqueles três tipos. Mandei vir um tal de Arctic Char, um peixe muito bem recomendado. Eu nem gosto de peixe, mas a fome é o melhor remédio para o preconceito e eu comi na maior alegria. Muito bom, realmente. Que peixe extraordinário, era tão bom que até o espinho dele devia ser temperado. Só que aí veio a conta e o conceito do peixe caiu na hora. Peixe com batatinha pra três, mais duas cervejas e uma coca. Total: 240 reais. Meu cartão de crédito chegou até a suar na maquininha. Que falta de vergonha, um peixe fuleiro daquele, pescado num buraco que o cara fez no gelo ali no quintal dele, que não vale um sarapó? Que nem de geladeira precisa? Ô povo ladrão, nem o polvo que dava placar da Copa do Mundo deve ter saído tão caro. Fiquei traumatizado, passei no supermercado e comprei três pacotes de biscoito.

Bom, no mês que vem eu continuo a saga. Tem mais roubada pela frente ainda.

 

Apita Antônio Barcelos Filho, “errrrrrgue os braços”!

 

Cristiano de Oliveira é mineiro de BH, residente em Toronto no Canadá. Já visitou Alvinópolis inúmeras vezes.

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