Saudações,
Alvinópolis do Corolla batido.
(nada me
tira da cabeça que esse Corolla bateu enquanto era usado
por meliantes para furtar o mamógrafo).
Pra
começar, momento comemorativo: esta é a minha coluna de
número 40 no Alvinews. Um livro, eu não digo que vai
virar, porque não venderia nem pra pagar o papel. Mas dá
pra fazer uma literatura de cordel bem bacana, pra
vender em feira.
Bom, eu
vou voltar àquele assunto que tive que interromper por
causa da Libertadores: a viagem da bandeira do Galo ao
extremo norte do planeta, em mais um momento histórico
do projeto MIDÁ O GALO DE PRATA (Momentos Inesquecíveis
Do Atleticano Objetivando Galo de Prata). Fui levar a
bandeira pra dar uma volta em Yellowknife, capital dos
Northwest Territories, norte do Canadá. Um frio de
lascar. E depois de ser fotografada, há alguns anos,
durante a erupção de um gêiser na Islândia, agora a
bandeira acrescenta mais um fenômeno natural à coleção:
a Aurora Boreal.
Como eu já
havia dito, rôia não faltou. E a maior delas foi
subestimar o potencial turístico daquele fim de mundo.
Como contei na edição passada, foi um erro não reservar
os passeios com antecedência. Todos estavam lotados.
Por fim, o
gerente do hotel me descolou um milagre: achou uma
excursão pra ver a Aurora Boreal que teve desistências.
Nem acreditei em tamanha sorte, pois era exatamente o
que eu mais queria ver. Ao contrário das pescarias no
gelo e corridas de trenó, essa é o tipo da coisa que não
depende só da temperatura baixa. A Aurora Boreal só
aparece em determinados lugares, e em determinadas
noites. E me disseram que, de acordo com a meteorologia,
aquela noite seria das boas.
Sei, viu?
Pra começar, só dentro do micro-ônibus é que descobri
que a excursão era de uma agência de viagens japonesa.
Todo mundo lá dentro, inclusive o guia, era japonês. Ou
seja, a viagem foi toda muito bem explicada, só não deu
pra entender nada. O ônibus foi se enfiando pelas
estradinhas mato afora (“mato” é modo de dizer, pois
naquele frio, só sobra galho seco), até chegar a uma
cabana. Aí entendi o esquema: eles fazem um chocolate
quente e uma sopa na cabana, acendem uma lareira, e você
fica lá fora caçando Aurora Boreal no céu. Quando você
notar que não está conseguindo nem mais falar direito
porque a boca tá travando de frio, você entra pra fazer
um aquecimento na embaixada japonesa. Como diria o
Sílvio Santos ao Ivo Holanda: “bem bolado, bem bolado”.
Bem bolado
nada! É rôia, isso sim. Com 700 árvores em volta da
casa, como é que eu vou conseguir ver peste de Aurora
Boreal no céu? E pra completar, a sensacional ideia de
vestir cinco blusas por baixo do meu casaco de esqui foi
pro vinagre rapidinho. Com alguns minutos de caça à
Aurora, o zíper do casaco estourou, e o bonitão teve que
tirar a camisa do Alvinopolense (uma das várias camadas
que estavam por baixo) e vestir por cima dele, pra pelo
menos mantê-lo um pouco mais fechado. Será que adiantou
alguma coisa, debaixo da agradável temperatura de -45
graus? Ah, adiantou muito... Além de ficar com a
sensação de ter mergulhado de peito dentro de um isopor
de cerveja, eu ainda fiquei parecendo o Galo Doido, com
aquela camisa em cima do casaco. De agora em diante, o
próximo artista que vier me dizer que “ai, subir no
palco dá um frio na barriga...”, eu vou mandar pro
inferno. Frio na barriga de verdade, eu agora sei o que
é. Mas não mude de assunto não, Cristiano: e a Aurora
Boreal, como foi? Apareceu bem fraquinha, ficou cinco
minutos no céu e cascou fora. Rôia legítima, autenticada
em cartório.
Mas nem só
de roubada vive o homem. Ainda naquela noite, ao chegar
ao hotel, recebi uma bênção: o vigia, ao ver o Galo
Doido entrando e perguntar o porquê de eu estar
fantasiado (além da camisa por cima do casaco, minha
cara também estava igualzinha à do Galo Doido: tão
congelada que já não mudava de expressão),
sensibilizou-se com a história e consertou o zíper do
meu casaco ali mesmo. Pensei comigo e com Roberto
Carlos: “Uma estrela vai brilhar, no meu caminho...”.
Botei fé que a sorte ia mudar.
No dia
seguinte, o milagre se deu: consegui outra excursão, até
mais barata. Esta era promovida por um índio da região e
não tinha cabaninha. O cara levava todo mundo de
micro-ônibus pro meio do lago congelado. Sem árvore em
volta, escuridão total. Ambiente perfeito. Garanti minha
vaga sem pensar.
O lugar
realmente era ideal. O micro-ônibus pegou uma das
estradas que os tratores abrem sobre o lago durante o
inverno, uma estradona de gelo, sem demarcação, mas que
aparentemente dava umas três pistas pra cada lado. Foi
bem lá pro meio do lago e parou. Tranquilo, seguro, bem
escuro e sem nada pra atrapalhar a visão. O único
problema é que às vezes passava um caminhão pela
estrada, e o barulho do gelo trincando debaixo das rodas
deixa o camarada meio ressabiado.
E o
negócio estava tão bom, que já parecia Show de Calouros
do Sílvio Santos. Lembra que o Sílvio Santos falava o
valor do prêmio que o calouro ia levar, aí dava aquele
barulhinho, “priiim, pruuum”, e ele aumentava o prêmio?
Tava igualzinho. Pois o prêmio aumentou: a Aurora Boreal
apareceu, e como apareceu. Cortou o céu, toda verde,
enorme, parecia baixa, mas com raios que subiam, parecia
que eu estava vendo uma piscina de cabeça pra baixo. Ela
vai crescendo devagar, devagar... E de repente se
concentrou bem em cima da gente, ficou cor-de-rosa,
acelerou, e daí ela rodava, espalhava, voltava,
esticava, encolhia, virava um redemoinho... Era tão
bonito, tão grande, que parecia que ia cair em cima de
mim. E o mais engraçado é que tudo aquilo acontecia no
mais profundo silêncio. Só se ouviam exclamações de
espanto das pessoas às vezes, e só. Nenhum barulho no
céu, nenhum bicho no meio daquela geleira... Nada. O céu
parecendo que ia abrir e Raul Seixas cair lá de cima
cantando “O Trem”, mas tudo era o maior silêncio. Na
hora eu até pensei: que música combina com isso? Marco
Antônio Araújo foi a primeira opção. Jean-Michel Jarre,
talvez? Triumvirat, progressivo alemão? Mas minha cabeça
nasceu pra esculhambar, aí comecei a pensar em Beto
Barbosa, Luiz Caldas... Ia ficar bem bom, né? Uma Aurora
Boreal dançando no céu tocando “Adocica”.
Mas como
eu já disse: viagem minha, se não tiver rôia, é porque o
viajante não sou eu, é Barack Obama. É bom lembrar que
essa beleza toda acontecia enquanto a temperatura
chegava a -48 graus, e eu ali, em pé, em cima daquele
blocão de gelo, usando um excelente par de botas
brasileiras, testadas e aprovadas no rigoroso inverno
alvinopolense. Botei quatro meias e mais uma palmilha de
feltro, e jurei que ia dar certo. Rá! Em dez minutos,
meu dedão direito congelou. De 10 em 10 minutos eu tinha
que voltar pra dentro do ônibus, mas era tanta meia que
não dava pra mexer os dedos do pé. O dedão só foi
descongelar, com muita dor, depois que voltei pro hotel,
muitas horas mais tarde. A dor que a gente sente ao
descongelar um dedão, meu amigo e minha amiga, é coisa
que eu não desejo nem pra Paulinho McLaren, nem pra
Roberto Cavalo, nem pra Wellington Paulista, e se eu
estiver num dia bom, acho que nem pra Jaeci Carvalho eu
desejo aquilo.
E pra
fotografar a bandeira naquele breu com a Aurora Boreal?
Deixa com o índio que o índio conhece tudo. O cara levou
uma câmera no tripé e montou no meio da estrada. Aí o
candidato fica parado na frente dela, sem se mexer, por
dois minutos. O índio vai, abre o obturador da câmera e
ilumina o distinto com uma lanterna. Depois de dois
minutos, ele fecha o obturador da câmera e a foto tá
pronta. Aí você imagina o que é o camarada ficar parado,
sorrindo e segurando uma bandeira aberta, debaixo de
quase 50 graus negativos. E o cara ainda veio me falar
pra não piscar! Moço, nem se eu quisesse eu conseguia.
Já dava pra botar meu olho em copo de uísque, de tão
gelado. E o sorriso largo e franco pra foto? Você já viu
gengiva congelar? Se eu tivesse um espelho ali, acho que
eu tirava placa bacteriana na UNHA. Mas não reclamo de
nada! Obrigado, índio amigo, pois se fosse depender de
mim pra tirar a luva e bater foto, eu só ia ter retrato
dentro do hotel.
E para
encerrar a noite, o zíper do meu casaco estourou de
novo. Fim.
E assim
foi. Depois vou ver se ainda tem alguma coisa da viagem
que eu não contei. Se tiver, na próxima edição eu conto
mais. Senão, a gente muda de assunto.
Apita Antônio Barcelos
Filho, errrrrrgue os braços!
Cristiano de Oliveira é mineiro de BH, residente em Toronto
no Canadá. Já visitou Alvinópolis inúmeras vezes.
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