O Atleticano no Ártico

 

Parte 3

 

A aurora Boreal 

 

Cristiano de Oliveira

 

Excursão do Ìndio, cheia de  japoneses e eu no meio...

 

 

Saudações, Alvinópolis do Corolla batido.

(nada me tira da cabeça que esse Corolla bateu enquanto era usado por meliantes para furtar o mamógrafo).

 

Pra começar, momento comemorativo: esta é a minha coluna de número 40 no Alvinews. Um livro, eu não digo que vai virar, porque não venderia nem pra pagar o papel. Mas dá pra fazer uma literatura de cordel bem bacana, pra vender em feira.

 

Bom, eu vou voltar àquele assunto que tive que interromper por causa da Libertadores: a viagem da bandeira do Galo ao extremo norte do planeta, em mais um momento histórico do projeto MIDÁ O GALO DE PRATA (Momentos Inesquecíveis Do Atleticano Objetivando Galo de Prata). Fui levar a bandeira pra dar uma volta em Yellowknife, capital dos Northwest Territories, norte do Canadá. Um frio de lascar. E depois de ser fotografada, há alguns anos, durante a erupção de um gêiser na Islândia, agora a bandeira acrescenta mais um fenômeno natural à coleção: a Aurora Boreal.

 

Como eu já havia dito, rôia não faltou. E a maior delas foi subestimar o potencial turístico daquele fim de mundo. Como contei na edição passada, foi um erro não reservar os passeios com antecedência. Todos estavam lotados.

Por fim, o gerente do hotel me descolou um milagre: achou uma excursão pra ver a Aurora Boreal que teve desistências. Nem acreditei em tamanha sorte, pois era exatamente o que eu mais queria ver. Ao contrário das pescarias no gelo e corridas de trenó, essa é o tipo da coisa que não depende só da temperatura baixa. A Aurora Boreal só aparece em determinados lugares, e em determinadas noites. E me disseram que, de acordo com a meteorologia, aquela noite seria das boas.

 

 

Sei, viu? Pra começar, só dentro do micro-ônibus é que descobri que a excursão era de uma agência de viagens japonesa. Todo mundo lá dentro, inclusive o guia, era japonês. Ou seja, a viagem foi toda muito bem explicada, só não deu pra entender nada. O ônibus foi se enfiando pelas estradinhas mato afora (“mato” é modo de dizer, pois naquele frio, só sobra galho seco), até chegar a uma cabana. Aí entendi o esquema: eles fazem um chocolate quente e uma sopa na cabana, acendem uma lareira, e você fica lá fora caçando Aurora Boreal no céu. Quando você notar que não está conseguindo nem mais falar direito porque a boca tá travando de frio, você entra pra fazer um aquecimento na embaixada japonesa. Como diria o Sílvio Santos ao Ivo Holanda: “bem bolado, bem bolado”.

 

Bem bolado nada! É rôia, isso sim. Com 700 árvores em volta da casa, como é que eu vou conseguir ver peste de Aurora Boreal no céu? E pra completar, a sensacional ideia de vestir cinco blusas por baixo do meu casaco de esqui foi pro vinagre rapidinho. Com alguns minutos de caça à Aurora, o zíper do casaco estourou, e o bonitão teve que tirar a camisa do Alvinopolense (uma das várias camadas que estavam por baixo) e vestir por cima dele, pra pelo menos mantê-lo um pouco mais fechado. Será que adiantou alguma coisa, debaixo da agradável temperatura de -45 graus? Ah, adiantou  muito... Além de ficar com a sensação de ter mergulhado de peito dentro de um isopor de cerveja, eu ainda fiquei parecendo o Galo Doido, com aquela camisa em cima do casaco. De agora em diante, o próximo artista que vier me dizer que “ai, subir no palco dá um frio na barriga...”, eu vou mandar pro inferno. Frio na barriga de verdade, eu agora sei o que é. Mas não mude de assunto não, Cristiano: e a Aurora Boreal, como foi? Apareceu bem fraquinha, ficou cinco minutos no céu e cascou fora. Rôia legítima, autenticada em cartório.

 

 

Mas nem só de roubada vive o homem. Ainda naquela noite, ao chegar ao hotel, recebi uma bênção: o vigia, ao ver o Galo Doido entrando e perguntar o porquê de eu estar fantasiado (além da camisa por cima do casaco, minha cara também estava igualzinha à do Galo Doido: tão congelada que já não mudava de expressão), sensibilizou-se com a história e consertou o zíper do meu casaco ali mesmo. Pensei comigo e com Roberto Carlos: “Uma estrela vai brilhar, no meu caminho...”. Botei fé que a sorte ia mudar.

No dia seguinte, o milagre se deu: consegui outra excursão, até mais barata. Esta era promovida por um índio da região e não tinha cabaninha. O cara levava todo mundo de micro-ônibus pro meio do lago congelado. Sem árvore em volta, escuridão total. Ambiente perfeito. Garanti minha vaga sem pensar.

 

O lugar realmente era ideal. O micro-ônibus pegou uma das estradas que os tratores abrem sobre o lago durante o inverno, uma estradona de gelo, sem demarcação, mas que aparentemente dava umas três pistas pra cada lado. Foi bem lá pro meio do lago e parou. Tranquilo, seguro, bem escuro e sem nada pra atrapalhar a visão. O único problema é que às vezes passava um caminhão pela estrada, e o barulho do gelo trincando debaixo das rodas deixa o camarada meio ressabiado.

 

E o negócio estava tão bom, que já parecia Show de Calouros do Sílvio Santos. Lembra que o Sílvio Santos falava o valor do prêmio que o calouro ia levar, aí dava aquele barulhinho, “priiim, pruuum”, e ele aumentava o prêmio? Tava igualzinho. Pois o prêmio aumentou: a Aurora Boreal apareceu, e como apareceu. Cortou o céu, toda verde, enorme, parecia baixa, mas com raios que subiam, parecia que eu estava vendo uma piscina de cabeça pra baixo. Ela vai crescendo devagar, devagar... E de repente se concentrou bem em cima da gente, ficou cor-de-rosa, acelerou, e daí ela rodava, espalhava, voltava, esticava, encolhia, virava um redemoinho... Era tão bonito, tão grande, que parecia que ia cair em cima de mim. E o mais engraçado é que tudo aquilo acontecia no mais profundo silêncio. Só se ouviam exclamações de espanto das pessoas às vezes, e só. Nenhum barulho no céu, nenhum bicho no meio daquela geleira... Nada. O céu parecendo que ia abrir e Raul Seixas cair lá de cima cantando “O Trem”, mas tudo era o maior silêncio. Na hora eu até pensei: que música combina com isso? Marco Antônio Araújo foi a primeira opção. Jean-Michel Jarre, talvez? Triumvirat, progressivo alemão? Mas minha cabeça nasceu pra esculhambar, aí comecei a pensar em Beto Barbosa, Luiz Caldas... Ia ficar bem bom, né? Uma Aurora Boreal dançando no céu tocando “Adocica”.

 

 

Mas como eu já disse: viagem minha, se não tiver rôia, é porque o viajante não sou eu, é Barack Obama. É bom lembrar que essa beleza toda acontecia enquanto a temperatura chegava a -48 graus, e eu ali, em pé, em cima daquele blocão de gelo, usando um excelente par de botas brasileiras, testadas e aprovadas no rigoroso inverno alvinopolense. Botei quatro meias e mais uma palmilha de feltro, e jurei que ia dar certo. Rá! Em dez minutos, meu dedão direito congelou. De 10 em 10 minutos eu tinha que voltar pra dentro do ônibus, mas era tanta meia que não dava pra mexer os dedos do pé. O dedão só foi descongelar, com muita dor, depois que voltei pro hotel, muitas horas mais tarde. A dor que a gente sente ao descongelar um dedão, meu amigo e minha amiga, é coisa que eu não desejo nem pra Paulinho McLaren, nem pra Roberto Cavalo, nem pra Wellington Paulista, e se eu estiver num dia bom, acho que nem pra Jaeci Carvalho eu desejo aquilo.

 

E pra fotografar a bandeira naquele breu com a Aurora Boreal? Deixa com o índio que o índio conhece tudo. O cara levou uma câmera no tripé e montou no meio da estrada. Aí o candidato fica parado na frente dela, sem se mexer, por dois minutos. O índio vai, abre o obturador da câmera e ilumina o distinto com uma lanterna. Depois de dois minutos, ele fecha o obturador da câmera e a foto tá pronta. Aí você imagina o que é o camarada ficar parado, sorrindo e segurando uma bandeira aberta, debaixo de quase 50 graus negativos. E o cara ainda veio me falar pra não piscar! Moço, nem se eu quisesse eu conseguia. Já dava pra botar meu olho em copo de uísque, de tão gelado. E o sorriso largo e franco pra foto? Você já viu gengiva congelar? Se eu tivesse um espelho ali, acho que eu tirava placa bacteriana na UNHA. Mas não reclamo de nada! Obrigado, índio amigo, pois se fosse depender de mim pra tirar a luva e bater foto, eu só ia ter retrato dentro do hotel.

 

E para encerrar a noite, o zíper do meu casaco estourou de novo. Fim.

E assim foi. Depois vou ver se ainda tem alguma coisa da viagem que eu não contei. Se tiver, na próxima edição eu conto mais. Senão, a gente muda de assunto.

 

 

Apita Antônio Barcelos Filho, errrrrrgue os braços!

 

Cristiano de Oliveira é mineiro de BH, residente em Toronto no Canadá. Já visitou Alvinópolis inúmeras vezes.

Contato :

 

Colunas anteriores