O ATLETICANO E MAIS UM CARNAVAL NO GELO

 

Cristiano de Oliveira

 

 

 

 

Saudações, Alvinópolis do Carnaval do Xixi.

 

Pelo visto, a principal atração do Carnaval de Alvinópolis desse ano foi o povo fazendo xixi nas portas das casas. Carnaval Globexiga? Era só o que me faltava... Mas nós, do Comitê Leleco Prefeito 2016 – Coligação Vamos Renovar e Vamos Rebolar, já estamos tomando nota disso tudo e já temos a solução. Prefeito Leleco vai fechar um acordo com a Minas Arena para administrar a distribuição de bebidas no Carnaval. Como em lugar administrado pela Minas Arena não tem nada pra beber, pronto! Não tem xixi.  

Pois é, eis aqui minha primeira participação no Alvinews esse ano. Mês passado eu perdi o bonde. Mas foi até bom, pois deu pra colocar em prática uma parte da Metodologia de Marketing do Professor MC Pelé. Eu, como estudioso da obra do saudoso flanelinha MC Pelé em seus shows pelo interior, tomei nota da metodologia utilizada. São dois itens principais:

- MC Pelé só tinha três ou quatro músicas. Enrolava o quanto podia pra não acabar o show, mas ainda assim acabava cedo. Aí saía do palco, e bastava uma pessoa – uminha só - pedir bis que ele já voltava pra cantar “Olha Que Menina Linda” pela milésima vez.

- MC Pelé se apresentava sozinho, com CD de playback ao fundo. Então, quando o palco era muito grande, ele convidava pessoas da plateia pra subir e se alinhar atrás dele, cobrindo o palco inteiro. Ficava aquele monte de gente fazendo fundo enquanto ele ensinava todo mundo a dançar “A Zumbizeira”. 

Resultado brilhante: mesmo quem já estava doido pra ir embora, acabava ficando só pra ver o amigo que subiu no palco pagar mico dançando “I Love Sogra”.

 

Portanto, o primeiro item se aplica à minha situação: aproveitei o fracasso total de ter perdido a data de entrega da coluna pra ver se alguém dava a minha falta. Assim que perguntaram por onde eu andava, já voltei na hora.

Bom, ano novo, resenha esportiva nova:  desde que me entendo por gente, quando um time manda embora 15 caras e traz outros 15, a imprensa repete 800 vezes a palavra “barca”, “olha a barca”, “não pode trazer barca”... Tudo bem que o Cruzeiro não trouxe uma barca composta por Curê, Bilu, Alfinete, Catanha, Márcio Mixirica, Nilson Sergipano, Leandro, Ataliba, Walker... Mas ainda assim, saíram 250 e vieram 270. E ninguém na imprensa nunca falou em “barca boa” ou “barca ruim”. Barca era barca, e recebia sempre repúdio de todos os jornalistas. Mas pelo visto, tá dando certo no Cruzeiro. E agora, quem vai falar o quê?

 

E no Galo, que história mal contada foi aquela do Kalil baixando a cabeça pro Aécio, aceitando todas as condições pra jogar o clássico no Mineirão, e nunca mais tocando no assunto pra explicar o que houve, a não ser pra dizer “não culpem o nosso querido senador”? Ficou muito esquisito.

E quanto à cereja do bolo, eu não sei. Pra mim, seria o Barcos. Tardelli, depois desse tempo todo, é incógnita de novo. Mas se o negócio é bolo, nós vacilamos, pois mandamos embora uma parte fundamental de qualquer bolo. Não tinha cereja, mas Escudero era a vela: podia botar fogo nele à vontade que ele continuava parado até que o tirassem dali.

 

 

Voltando ao assunto Carnaval: sempre que você tiver uma crise de vontade de reclamar do Brasil, lembre-se de que tudo nessa vida possui prós e contras, inclusive o país onde a gente mora. E dentre os prós, anote um aí por minha conta: são pouquíssimos os povos do mundo que têm um feriado de 4 dias e meio fora do Natal. E se você acha que isso não conta como pró, então larga a geladinha do Maurão e vem pra cá: venha acordar 6h30 da manhã na segunda e terça-feira de Carnaval pra ir trabalhar, com um breu danado lá fora (no inverno, o sol só sai lá pras 8) e -12 graus por cima. É igual vulcão: só é bonito em foto.

A tragédia já começa na sexta-feira de Carnaval. No meio da tarde, o Facebook já começa a apontar uma queda no número de postagens dos amigos que moram no Brasil. Aparece um do tipo “Botando o pé na estrada”, outro do tipo “O izopô já tá lotado, as muié já evém, até quarta-feira se Deus quisé!” , e depois é só silêncio. Quando chega a noite, os únicos posts que acho no meu Facebook são: “Ê neve da peste...”  -  “Limpando a calçada pois um cara já escorregou ali e disse que vai me processar”  -  “Tá tão frio que eu tô cuspindo granizo”.

Mas o que mais acontece entre emigrantes brasileiros é o cara vir pra cá, levar um trem na asa e não ter coragem de admitir. Aí é sexta-feira de Carnaval, o cara tá entrincheirado em casa, neve descendo com raça, a janela de casa parecendo carrinho de pipoqueiro, com aqueles negocim branco lá fora voando pra cima e pra baixo e se estourando no vidro, um frio do cão, nada pra fazer, todo mundo hibernando dentro de casa... Mas notícia do cara é só “Tá lindo lá fora. Tá uma delícia. Tomando vinho e vendo a neve... Adoro!” Adora nada! Deixe de enganar o povo! (e aproveite e deixe de falar “adoro!” que pega mal demais). A turma no Brasil tem quase 5 dias de feriado pra tomar cerveja na rua. Nós temos zero dias pra tomar esse raio desse vinho socado dentro de casa. Nós perdemos e acabou! Não adianta querer disfarçar, pois essa rôia nossa é de domínio público. É a mesma coisa que Ney Matogrosso tentar esconder os cabelos do peito.

 

Mas como já é tradição, no sábado pelo menos uma brasileira aqui organiza uma festona de Carnaval. O lugar era enorme, mas longe que só. Como aqui nem todo mundo tem carro (com seguro obrigatório a 400 reais por mês, quem aguenta encarar? Eu não. Tô há dez anos sem carro), a organização disponibilizou quatro ônibus escolares saindo do Centro pra levar o povo pra festa, ó que joia. A bateria de escola de samba em que eu toco foi contratada pra se apresentar lá, e a passagem de som era na sexta à noite. Ah tá bom... Caiu uma tempestade de neve que se você abrisse a boca no meio da rua, em dois segundos parecia que tinha raspado fundo de congelador com o dente. Era ônibus encalhando no meio da rua, carro derrapando... Cancelamos a passagem de som e consequentemente a cerveja depois. Fui pra casa dormir. Aí cê já vê o naipe do meu Carnaval.

No dia seguinte, de cada 10 que chegavam à festa, 5 estavam com cara de acabado. A conversa era a mesma: “Passei o dia limpando neve. Tô guentando não...” Isso é uma afronta à Convenção de Genebra:  o cara, ao invés de 4 dias, tem 6 horas de Carnaval no ano (o horário da festa era das 20h às 2 da manhã) e ainda passa o dia agarrado na pá. Chega lá já pregado, doido pra aproveitar tudo no pouco tempo que tem, cerveja a R$ 10 a latinha... Pra completar, começa a correr uma polêmica: no fundo do palco, uma bandeira com o Cristo Redentor pintado sorrindo, e ao lado de cada mão dele, um pôster com uma bundona bem vermelha, bem endiabrada. Parecia que ele tava apresentando as bundas e achando bom. É pólem na hora, o fuxico começou a correr.

 

 

Não encontrei amigo nenhum enquanto tocava a banda baiana que abriu a noite. Assim que o show deles acabou e saí correndo pra pegar o surdão e ir pro palco, não deu outra: encontrei amigo, conhecido, atleticano, cruzeirense, 380 elementos altamente embriagados querendo me dar abraço... E surdão que é bom, nada. Parecia Paz de Cristo na hora da missa, tamanha a quantidade de gente pra cumprimentar. Um dos que estava altamente mais ou menos de gólo agarrou meu braço e falou assim: “Ó... Ó só essa! Prestenção! Ó, ó, ó...” E me arrastando pelo braço, chegou perto de uma menina que estava de costas pra gente e deu-lhe uma lambida no ombro!! E eu ali, quase que de braço dado com o cara, servindo de plateia do lambedor, sem acreditar no tamanho da furada que tinha conseguido arranjar. A menina virou o cão! Os amigos dela foram juntando em volta, e a bateria armando pra entrar no palco sem surdão, o Cristo Redentor lá, rindo pra mim, e eu no meio daquela roda de cara revoltado ao lado do doidão que só conseguia rir... Não havia dúvida: apesar da neve, da distância e do preço da cerveja, ainda assim a minha amiga RÔIA conseguiu chegar ao baile. Isso é que é prestigiar o brasileiro.

 

Dois outros retardatários da bateria passaram por ali e me carregaram, para minha salvação. Fizemos o show, deu mais cinco minutos e a luz acendeu. Todo mundo correu pra fazer fila pra pegar o escolar de volta pro Centro. Enquanto eu carregava os instrumentos pro furgão da banda e o frio torrava meus dedos, olhei no meio da neve e tive uma visão: a neve se abriu, e do meio dela surgiu um bigode. A neve se abriu ainda mais, e surgiu o dono do bigode. Era o Zé Geraldo, que apareceu pra mim cantando o Hino da Rôia: “Tudo isso acontecendo e eu aqui na praça, dando milho aos poooooooombos”.

E atenção, gente honesta! Na próxima edição, a bandeira viajante do Galo está de volta! Fiquem de olho, pois ela vai cair matando, e provavelmente vai quebrar um recorde.

 

Apita Antônio Barcelos Filho, “errrrrrgue os braços”!

 

Cristiano de Oliveira é mineiro de BH, residente em Toronto no Canadá. Já visitou Alvinópolis inúmeras vezes.

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