Saudações, Alvinópolis da
Chita.
O correto seria continuar
aqui com a história da viagem da bandeira do Galo a
Yellowknife, no extremo norte do Canadá. É até gozado
lembrar isso, pois agora está um calor da peste aqui,
outro dia chegou a 45 graus. E pensar que lá eu estava
pegando -45, com os dedos todos queimados de frio...
Pois é, correto seria
voltar a esse assunto, mas não dá não. Vou ter que ficar
com o assunto que, com certeza, ainda é o principal no
Ninho da Águia. Hoje vai ter que ser edição especial
Fatos e Fotos: a bandeira viajante comemorando seu
primeiro título da Libertadores (Fatos e Fotos é das
antigas mesmo, hein? Oitocentos anos de revista, todo
Carnaval tinha edição especial). Foi um festival de rôia
até chegar ao título que é melhor botar no papel antes
que eu esqueça.
Logo na fase de grupos,
contei pra vocês aqui que D. Graça fechou o bar por
algumas semanas e eu passei a assistir aos jogos em um
restaurante brasileiro na mesma rua, comendo um lombo
com maionese e farofa antes do jogo. E o Galo, só
ganhando. Quando Dona Graça voltou e eu voltei a
assistir aos jogos lá, quem disse que tive coragem de
largar o lombo com maionese, que estava dando sorte?
Passava lá mais cedo, batia o pratão e depois seguia pro
bar. Aí virou superstição, mas bem que eu podia ter
arrumado uma superstição mais barata. Tem gente que usa
a mesma cueca em todo jogo, que não corta cabelo durante
o campeonato... Aí vem o bonitão e resolve que, pro Galo
ganhar, ele tem que dar 40 reais num prato de lombo com
maionese, fora a cervejada que desce na Dona Graça
depois, no meio da tensão do jogo, 10 reais cada long
neck... Acho que, no fim, eu posso não ter visto nenhum
jogo do Galo no Independência durante a Libertadores,
mas devo ter gastado o mesmo valor de um ingresso por
jogo. E não é ingresso de ponto cego não!
Veio o jogo contra o
Tijuana, e o resultado eu contei pra vocês na edição
passada: uma queda de pressão de lascar. Quase desmaiei,
fiquei ruim mesmo, branco igual cera, o povo me chamando
de Máscara do Pânico...
Aí veio o Newell’s Old
Boys. No primeiro jogo, passei no restaurante e caí na
bobagem de trocar o lombo com maionese por um espeto
misto com batatinha que estava na promoção do dia. Que
fracasso. O Galo tomou 2 a zero e no bar da Dona Graça a
tristeza era geral. Surgiu de novo aquele velho assunto
de que minha crista dá azar. Fiquei quieto, mas no fundo
eu sabia que a crista era inocente, o culpado mesmo era
o espeto misto, aquele vagabundo sem-vergonha.
Já no segundo jogo, pedi
certo, mas veio errado: a maionese havia acabado e foi
trocada por batatinha. Deu a lógica: o Galo passou, mas
foi apertado. O bar estava lotado, e eu tive que
assentar mais ao fundo, perto da porta. Lá fora, um
grupo de gringos trazidos por um atleticano assistia ao
jogo sem muito interesse, menosprezando o futebol e
falando que beisebol é muito mais interessante (tem
doido pra tudo. A primeira vez em que vi um jogo de
beisebol ao vivo, saí pra comprar cerveja seis vezes, só
pra ter uma desculpa pra sair dali). O estresse era
total. Tião, ex-jogador, avô e atleticano fanático,
espalhou 800 galhos de arruda em cima de uma mesa e,
tenso e doido pra fumar, repetia: “Sem meu buf-buf eu
não aguento esse Galo”. Quando saiu o gol milagroso do
Guilherme, aos 450 minutos do segundo tempo, o bar veio
abaixo. Era só abraço, gente pulando e galho de arruda
voando. No meio da encrenca, uma garrafa quebrou, eu
levei um totó e caí em cima do ventilador de chão (pois
é, existe ventilador de teto, de mesa... Mas no bar da
Dona Graça é de chão mesmo. Ô ideia fraca). Mas nem
prestei atenção, era finalzinho de jogo e levantei
rápido, pois estava ficando claro que haveria disputa de
pênaltis.
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Compare a situação. À esquerda, primeiro jogo
contra o Newell's. À direita, último jogo da
final. |
Durante as cobranças,
enquanto a corrente de jogadores era formada no meio do
campo, no bar da Dona Graça formava-se a corrente de
cachaceiros. Todo mundo abraçado, um ao lado do outro,
um segurando o outro pra não cair (e teve um que quase
caiu mesmo). Quando Vitor pegou o último pênalti, aí deu
endoidei e não vi mais nada. Abracei brasileiro, gringo,
cachorro, bicicleta, e só parei um pouco quando Dona
Graça chegou correndo com um copo de água gelada,
dizendo que eu estava roxo. Os gringos do beisebol
pareciam que tinham caixa de abelha dentro da calça.
Pulavam desorientados e não sabiam nem o que era pra
gritar, então ficavam gritando igual gorila de filme, só
fazendo barulho. Quando a poeira baixou e tudo foi se
acalmando, eu senti uma coceirinha na perna. Cocei, e a
mão voltou vermelha: minha perna parecia balcão de
açougue. Era sangue pra todo lado. Aparentemente, na
queda sobre o ventilador, abri um corte de meio metro na
perna e não senti nada até aquele momento. Pois é, com a
rôia é assim: na alegria e na tristeza, na vitória e na
derrota, ela sempre estará ao seu lado.
O primeiro jogo da final
começou com um mau pressentimento: tive coisa pra fazer
na rua antes do jogo e, por falta de tempo, ao invés do
lombo com maionese eu comi no MCDONALD’S. Aí, meu amigo,
não há superstição que aguente. Aí manda pra vala mesmo.
O Galo tomou de dois a zero e eu só pensando: “’Fritas
acompanha?’ Fritas acompanha você até o inferno,
McDonald’s”. Ô ódio mortal que eu tenho desse tal de
“fritas acompanha” que atendente de McDonald’s do Brasil
fala. Frase feia, errada gramaticalmente, antipática, e
depois que mexeu com o Galo, aí eu enfezei de vez.
No sábado antes da grande
final, estava fazendo a minha roda de samba no bar e
perguntei se havia algum paramédico na plateia que
gostaria de participar da festa da quarta-feira, pois
certamente teríamos gente passando mal. Um cidadão se
ofereceu: o Pelé. O cruzeirense mais fanático e maior
tomador de cerveja do Canadá prometeu vir de branco e
trazer sua estátua do Raposão, avisando que o melhor
remédio pra quem passasse mal era colocar o paciente
abraçado com a estátua e tirar foto. O camarada melhora
na hora. Dona Graça falou que não precisava, pois a
mangueira de água gelada do bar estava ali é pra curar
falta de vergonha na cara mesmo. O cenário estava
armado.
Na quarta-feira, passei no
restaurante brasileiro e estava fechado para férias. Aí
é aquele negócio: superstição é um negócio divertido,
tolerável, dá umas historinhas boas pra escrever aqui...
mas só até o momento em que eu fico com fome. Aí eu sou
obrigado a jogar pro alto: corri pro bar, pedi o
X-Egg-Burger da Dona Graça mesmo e o Galo que se
virasse. Ficar sem comer é que eu não ia.
Não dava para andar dentro
do bar. E nem do lado de fora, pois a rua lotou também.
Os gringos nos restaurantes da vizinhança vinham ver que
bagunça era aquela. Os vizinhos ameaçando chamar a
polícia. Os estudantes brasileiros, que vêm pra cá sem
saber nada das leis locais, pulavam no meio da rua com
garrafa de cerveja na mão (aqui é proibido beber na
rua). E por incrível que pareça, foi o jogo que me gerou
menos problemas de saúde. Acho que fui salvo pela ficha:
aquela famosa ficha que tem que cair pra que a gente
compreenda algo. Pois a minha não caía. A cabeça não
aceitava direito que eu estava prestes a ver meu time
ser campeão da Libertadores pela primeira vez na vida. E
acho que assim o corpo me dizia: “Não, não, cê deve
estar enganado. Não passe mal com isso não, pois é
alarme falso”.
Um amigo nosso fez um
vídeo do exato momento da última cobrança de pênalti, e
apesar de eu estar num estado terrível naquela hora, vou
colocar aqui assim mesmo. Pra quem não conhece, muito
prazer, eu sou o cara da crista:
Eu só sei que agora começa
uma nova era. Finalmente, conseguimos reduzir em pelo
menos 50% o número de piadinhas. Chega de entrar em
barzinho e ver placa na parede escrito: “Fiado, só
quando o Galo for campeão da Libertadores”. Chega de
ouvir que Bin Laden tá escondido na sala de troféus do
Galo porque ninguém nunca entra lá... Acabou!
E Dona Graça, que é
cruzeirense, também agradece. Ela passou aperto com a
quantidade de torcedor ameaçando passar mal (e se alguém
cai duro lá, ela perde a licença da prefeitura pra
vender bebida), mas no fim, tirou um lucrinho bom.
Quando foram mexer com ela depois da conquista do Galo,
a resposta foi categórica: “Meu filho, meu time é a
gaveta”, disse ela apontando pra gaveta da caixa
registradora.
E agora é o mundial. Há
uma turma grande indo pra Marrocos, mas depois de
comemorar a Libertadores aqui, me deu a maior tristeza
por ter que comemorar um título tão importante longe de
casa e longe da verdadeira festa da torcida (a nossa
festa aqui morreu cedo, à 1h30 da manhã). Assim, tô
correndo sério risco de largar Marrocos pra lá e ver o
Mundial no Brasil, e quem sabe até num tal de Ninho da
Águia. Vamos aguardar.
Apita Antônio Barcelos
Filho, errrrrrgue os braços!
Cristiano de Oliveira é mineiro de BH, residente em Toronto
no Canadá. Já visitou Alvinópolis inúmeras vezes.
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