A BANDEIRA VIAJANTE

CAMPEÃ DA LIBERTADORES

 

Cristiano de Oliveira

 

 

 

Saudações, Alvinópolis da Chita.

O correto seria continuar aqui com a história da viagem da bandeira do Galo a Yellowknife, no extremo norte do Canadá. É até gozado lembrar isso, pois agora está um calor da peste aqui, outro dia chegou a 45 graus. E pensar que lá eu estava pegando -45, com os dedos todos queimados de frio...

Pois é, correto seria voltar a esse assunto, mas não dá não. Vou ter que ficar com o assunto que, com certeza, ainda é o principal no Ninho da Águia. Hoje vai ter que ser edição especial Fatos e Fotos: a bandeira viajante comemorando seu primeiro título da Libertadores (Fatos e Fotos é das antigas mesmo, hein? Oitocentos anos de revista, todo Carnaval tinha edição especial). Foi um festival de rôia até chegar ao título que é melhor botar no papel antes que eu esqueça.

 

Logo na fase de grupos, contei pra vocês aqui que D. Graça fechou o bar por algumas semanas e eu passei a assistir aos jogos em um restaurante brasileiro na mesma rua, comendo um lombo com maionese e farofa antes do jogo. E o Galo, só ganhando. Quando Dona Graça voltou e eu voltei a assistir aos jogos lá, quem disse que tive coragem de largar o lombo com maionese, que estava dando sorte? Passava lá mais cedo, batia o pratão e depois seguia pro bar. Aí virou superstição, mas bem que eu podia ter arrumado uma superstição mais barata. Tem gente que usa a mesma cueca em todo jogo, que não corta cabelo durante o campeonato... Aí vem o bonitão e resolve que, pro Galo ganhar, ele tem que dar 40 reais num prato de lombo com maionese, fora a cervejada que desce na Dona Graça depois, no meio da tensão do jogo, 10 reais cada long neck... Acho que, no fim, eu posso não ter visto nenhum jogo do Galo no Independência durante a Libertadores, mas devo ter gastado o mesmo valor de um ingresso por jogo. E não é ingresso de ponto cego não!

 

 

Veio o jogo contra o Tijuana, e o resultado eu contei pra vocês na edição passada: uma queda de pressão de lascar. Quase desmaiei, fiquei ruim mesmo, branco igual cera, o povo me chamando de Máscara do Pânico...

 

 

Aí veio o Newell’s Old Boys. No primeiro jogo, passei no restaurante e caí na bobagem de trocar o lombo com maionese por um espeto misto com batatinha que estava na promoção do dia. Que fracasso. O Galo tomou 2 a zero e no bar da Dona Graça a tristeza era geral. Surgiu de novo aquele velho assunto de que minha crista dá azar. Fiquei quieto, mas no fundo eu sabia que a crista era inocente, o culpado mesmo era o espeto misto, aquele vagabundo sem-vergonha.

 

Já no segundo jogo, pedi certo, mas veio errado: a maionese havia acabado e foi trocada por batatinha. Deu a lógica: o Galo passou, mas foi apertado. O bar estava lotado, e eu tive que assentar mais ao fundo, perto da porta. Lá fora, um grupo de gringos trazidos por um atleticano assistia ao jogo sem muito interesse, menosprezando o futebol e falando que beisebol é muito mais interessante (tem doido pra tudo. A primeira vez em que vi um jogo de beisebol ao vivo, saí pra comprar cerveja seis vezes, só pra ter uma desculpa pra sair dali). O estresse era total. Tião, ex-jogador, avô e atleticano fanático, espalhou 800 galhos de arruda em cima de uma mesa e, tenso e doido pra fumar, repetia: “Sem meu buf-buf eu não aguento esse Galo”. Quando saiu o gol milagroso do Guilherme, aos 450 minutos do segundo tempo, o bar veio abaixo. Era só abraço, gente pulando e galho de arruda voando. No meio da encrenca, uma garrafa quebrou, eu levei um totó e caí em cima do ventilador de chão (pois é, existe ventilador de teto, de mesa... Mas no bar da Dona Graça é de chão mesmo. Ô ideia fraca). Mas nem prestei atenção, era finalzinho de jogo e levantei rápido, pois estava ficando claro que haveria disputa de pênaltis.

 

Compare a situação. À esquerda, primeiro jogo contra o Newell's. À direita, último jogo da final.

 

Durante as cobranças, enquanto a corrente de jogadores era formada no meio do campo, no bar da Dona Graça formava-se a corrente de cachaceiros. Todo mundo abraçado, um ao lado do outro, um segurando o outro pra não cair (e teve um que quase caiu mesmo). Quando Vitor pegou o último pênalti, aí deu endoidei e não vi mais nada. Abracei brasileiro, gringo, cachorro, bicicleta, e só parei um pouco quando Dona Graça chegou correndo com um copo de água gelada, dizendo que eu estava roxo. Os gringos do beisebol pareciam que tinham caixa de abelha dentro da calça. Pulavam desorientados e não sabiam nem o que era pra gritar, então ficavam gritando igual gorila de filme, só fazendo barulho. Quando a poeira baixou e tudo foi se acalmando, eu senti uma coceirinha na perna. Cocei, e a mão voltou vermelha: minha perna parecia balcão de açougue. Era sangue pra todo lado. Aparentemente, na queda sobre o ventilador, abri um corte de meio metro na perna e não senti nada até aquele momento. Pois é, com a rôia é assim: na alegria e na tristeza, na vitória e na derrota, ela sempre estará ao seu lado.

 

O primeiro jogo da final começou com um mau pressentimento: tive coisa pra fazer na rua antes do jogo e, por falta de tempo, ao invés do lombo com maionese eu comi no MCDONALD’S. Aí, meu amigo, não há superstição que aguente. Aí manda pra vala mesmo. O Galo tomou de dois a zero e eu só pensando: “’Fritas acompanha?’ Fritas acompanha você até o inferno, McDonald’s”. Ô ódio mortal que eu tenho desse tal de “fritas acompanha” que atendente de McDonald’s do Brasil fala. Frase feia, errada gramaticalmente, antipática, e depois que mexeu com o Galo, aí eu enfezei de vez.

No sábado antes da grande final, estava fazendo a minha roda de samba no bar e perguntei se havia algum paramédico na plateia que gostaria de participar da festa da quarta-feira, pois certamente teríamos gente passando mal. Um cidadão se ofereceu: o Pelé. O cruzeirense mais fanático e maior tomador de cerveja do Canadá prometeu vir de branco e trazer sua estátua do Raposão, avisando que o melhor remédio pra quem passasse mal era colocar o paciente abraçado com a estátua e tirar foto. O camarada melhora na hora. Dona Graça falou que não precisava, pois a mangueira de água gelada do bar estava ali é pra curar falta de vergonha na cara mesmo. O cenário estava armado.

 

 

Na quarta-feira, passei no restaurante brasileiro e estava fechado para férias. Aí é aquele negócio: superstição é um negócio divertido, tolerável, dá umas historinhas boas pra escrever aqui... mas só até o momento em que eu fico com fome. Aí eu sou obrigado a jogar pro alto: corri pro bar, pedi o X-Egg-Burger da Dona Graça mesmo e o Galo que se virasse. Ficar sem comer é que eu não ia.

 

Não dava para andar dentro do bar. E nem do lado de fora, pois a rua lotou também. Os gringos nos restaurantes da vizinhança vinham ver que bagunça era aquela. Os vizinhos ameaçando chamar a polícia. Os estudantes brasileiros, que vêm pra cá sem saber nada das leis locais, pulavam no meio da rua com garrafa de cerveja na mão (aqui é proibido beber na rua). E por incrível que pareça, foi o jogo que me gerou menos problemas de saúde. Acho que fui salvo pela ficha: aquela famosa ficha que tem que cair pra que a gente compreenda algo. Pois a minha não caía. A cabeça não aceitava direito que eu estava prestes a ver meu time ser campeão da Libertadores pela primeira vez na vida. E acho que assim o corpo me dizia: “Não, não, cê deve estar enganado. Não passe mal com isso não, pois é alarme falso”.

Um amigo nosso fez um vídeo do exato momento da última cobrança de pênalti, e apesar de eu estar num estado terrível naquela hora, vou colocar aqui assim mesmo. Pra quem não conhece, muito prazer, eu sou o cara da crista:

 

 

 

Eu só sei que agora começa uma nova era. Finalmente, conseguimos reduzir em pelo menos 50% o número de piadinhas. Chega de entrar em barzinho e ver placa na parede escrito: “Fiado, só quando o Galo for campeão da Libertadores”. Chega de ouvir que Bin Laden tá escondido na sala de troféus do Galo porque ninguém nunca entra lá... Acabou!

E Dona Graça, que é cruzeirense, também agradece. Ela passou aperto com a quantidade de torcedor ameaçando passar mal (e se alguém cai duro lá, ela perde a licença da prefeitura pra vender bebida), mas no fim, tirou um lucrinho bom. Quando foram mexer com ela depois da conquista do Galo, a resposta foi categórica: “Meu filho, meu time é a gaveta”, disse ela apontando pra gaveta da caixa registradora.

 

 

E agora é o mundial. Há uma turma grande indo pra Marrocos, mas depois de comemorar a Libertadores aqui, me deu a maior tristeza por ter que comemorar um título tão importante longe de casa e longe da verdadeira festa da torcida (a nossa festa aqui morreu cedo, à 1h30 da manhã). Assim, tô correndo sério risco de largar Marrocos pra lá e ver o Mundial no Brasil, e quem sabe até num tal de Ninho da Águia. Vamos aguardar.

 

Apita Antônio Barcelos Filho, errrrrrgue os braços!

 

Cristiano de Oliveira é mineiro de BH, residente em Toronto no Canadá. Já visitou Alvinópolis inúmeras vezes.

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