O Atleticano
no jogo do Brasil em Toronto
Cristiano de Oliveira
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O
homem da crista com Galvão. |
Saudações,
Alvinópolis.
O Mundial de
Clubes está chegando, e há inclusive boatos de que um certo
elemento X que viaja com uma certa bandeira deve assistir à
final no Ninho da Águia. Mas o mal do urubu é pensar que o
boi tá morto, e a minha esquentação de cabeça mesmo é com o
Monterrey. O Bayern é Boa Esporte comparado ao Monterrey,
pois eu tô com trauma de mexicano desde que o Tijuana me deu
aquela queda de pressão histórica. Ainda é lenda na
comunidade brasileira de Toronto. Volta e meia alguém que eu
nunca vi na vida chega pra mim e diz, “você é o cara que
passou mal naquele jogo?” Sou eu, sim senhor.
Mas o estresse
maior é o medo da contusão do Ronaldinho. Ele já tá quase
curado, mas seguro morreu de velho. Por isso, Ronaldinho,
pelo amor do homem de Nazaré, escute o que eu digo: dê um
reforço nesse tratamento. Passe tudo que estiver disponível
nessa coxa. Eu inclusive ofereço gratuitamente os serviços
da Clínica de Fisioterapia e Levantamento de Defunto
Oliveira Runco, passando a Rodrigo Lasmar a lista de
medicamentos que o senhor deve utilizar. Segura aí:
- Bota
emplastro Sabiá com pinga;
- Aplica fumo
de cigarro com álcool. Ao menos pra marimbondo é bom;
- Aplica Gelol
e Vick Vaporub por cima;
- Mistura
capim-santo e Jurubeba Leão do Norte e faz uma compressa com
um cadim de pólvora;
- Passa sebo
de carneiro e depois lava com Atalaia Jurubeba. Na falta
deste último, Epatovis servirá;
- Até hoje
ninguém soube explicar pra que servia peste de Emulsão
Scott, mas como todo menino daquela época sobreviveu, manda
pra dentro também;
- Dissolva 3
Pílulas de Lussen num copo de Epocler. Se não fizer bem pra
perna, ao menos dá pra fazer barbantinho cheiroso, é
diversão garantida na concentração;
Peraí que no
armário de remédio de vó tem mais, xô lembrar aqui, vai
anotando:
- Massagem do
Belmiro com Pomada Vovô Pedro;
- Massagem do
Belmiro com álcool canforado;
- Massagem do
Belmiro com Óleo Elétrico do Dr. Chas de Gratz;
- Taca óleo de
arnica e calêndula;
- Passa
Própolis, sô, Própolis resolve até problema de família!
Meu amigo, se
Reinaldo tivesse feito esse tratamento, você poderia dar o
joelho dele pra Ronaldo Fenômeno que ele ainda entortaria
uns 50 Kanapkis antes de se aposentar.
E por falar em
Mundial, vocês viram o jogo da Seleção brasileira aqui em
Toronto? Acho que foi a primeira vez que a Seleção veio
jogar aqui, ou ao menos a primeira vez em muitos anos. E
como eu nunca tinha visto jogo da Seleção ao vivo, resolvi
conferir. Até que, comparado com o habitual, teve pouca rôia.
Mas sempre tem uma ou duas pra contar, pois afinal, se eu
estiver em um evento e não tiver rôia, é porque você me
confundiu. Não era eu não, era aquele rei do camarote lá de
São Paulo.
Já nem tenho
camisa do Brasil mais. Comprei uma pra Copa de 1998, no
camelô do centro de BH, pagando com ticket refeição. Ô tempo
bom, uma caideira, um zero no bolso de amargar, mas a gente
se divertia bem... Mas aquela camisa já ficou pequena, eu a
deixei no Brasil e nunca comprei outra. Assim sendo, pra
esse jogo do Brasil aqui, fazer o quê, né? Fui obrigado a
vestir, mais uma vez, a famosa vestimenta do Galo Doido, com
crista e tudo, e com a eterna bandeira viajante. Só que,
como eu estava saindo do serviço e na minha bolsa não cabia
um jogo completo de roupas pra trocar, tive que misturar:
camisa do Galo por cima da social, um sobretudo por cima da
camisa do Galo, calça social preta com sapato... e crista na
cabeça. Mas ficou bunitim demais, viu? Era uma mistura de
Sílvio Santos com Tião das Rendas. Um trem horroroso.
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Estádio Rogers Centre (antigo Skydome), Toronto.
Vista da minha cadeira apertada. |
Uma coisa me
chamou a atenção, e de cara eu faço um apelo aos jogadores
que são chegados a uma cerveja gelada: por favor, peçam ao
Movimento Bom Senso FC para que lute também pela proibição
da cerveja a 13 dólares canadenses em estádio. São R$ 26 por
um copo de cerveja!! Já não basta o ingresso custar R$ 200,
e a gente ainda tem que deixar as calças no bar pra comprar
uma cerveja? Por isso eu peço encarecidamente que façam ao
menos um ato simbólico para lembrar a todos da nossa luta.
Por exemplo: se Pelé um dia dedicou seu milésimo gol às
crianças do Brasil, o Adriano Imperador bem que podia
dedicar seu décimo gol aos cachaceiros do Brasil. Só evitem
sentar ou deitar em campo antes do jogo começar, senão dá
tonteira.
Ouvi dizer que
Galvão Bueno estava encantado com o estádio. Pois é, lá na
cabine de imprensa, realmente tudo é muito bom, mas vá lá
sentar naquelas cadeirinhas apertadas da arquibancada pra
ver. Eu uma vez fiz cobertura do jogo da Seleção feminina
pro jornal da comunidade brasileira de Toronto, em outro
estádio, mas também muito bem arrumado. Ah, mas era uma
beleza. Tô lá na cabine, tomando nota das coisas, quando
chega um cara com uma travessona de cachorro-quente no molho
e pão fresquinho, muita Coca, muito suco... Só faltou um
torresmo bem sequinho e uma gelada, mas aquilo ali já foi o
suficiente pra derrubar a reportagem. Se aconteceu algum
show, algum evento na hora do intervalo, só Deus sabe, pois
o repórter não viu nada.
Mas voltando
ao jogo da Seleção, eu vou explicar como ficou aquele
estádio, originalmente de beisebol, depois de adaptado para
o futebol: da linha lateral pra fora do campo, era o do
Barcelona. Da linha lateral pra dentro, era o do Grêmio
Manhumirim. A grama voava como poeira em forró, abrindo
buraco pra todo lado. E a turma da manutenção corria pra
tampar os buracos com a bola rolando! Os brasileiros,
acostumados com confusão, toda hora achavam que um doidão
tinha invadido o campo. As traves eram daquelas de treino,
só não vi direito se tinham as rodinhas. Depois li que a
grama só começara a ser instalada na segunda-feira, pois no
domingo houve jogo ali na grama sintética. E quatro horas
após o jogo, a grama já estava removida para ser
reaproveitada. Pensando bem, é muito sofrimento pra pobre da
grama: sem sol, em cima de um piso de cimento, e
provavelmente com uma caveira de burro enterrada embaixo,
pois há 20 anos time nenhum ganha campeonato ali.
Tomamos um
chocolate da torcida do Chile. Novecentas vezes mais animada
que a brasileira. Mas também, é tudo doido: as três ou
quatro brigas que vi acontecer envolveram SOMENTE torcedores
do Chile. Brigam entre eles mesmos. E olha que o estádio nem
tinha separação de torcida. Se eles quisessem, poderiam ter
mexido com os brasileiros. Mas nem abanaram o rabo pra
gente, só queriam saber de levar a mão na orelha um do
outro. O pau cantou, e cantou ópera. E o mais engraçado é
que até a polícia, acostumada com a paradeira dos jogos de
beisebol, tremia na hora de entrar no meio pra separar. Eles
não entravam de cara não, ficavam esperando a poeira dar uma
abaixada pra intervir. A polícia canadense mata a gente de
rir, parece piada de português. Teve uma vez que um cara
pegou uma refém na porta de um prédio daqui e botou uma faca
no pescoço dela. Um atirador de elite acertou a cabeça do
cara, que caiu morto na hora. Assim que a mulher correu
dali, a polícia juntou em cima e algemou o cadáver!
Mas a torcida
brasileira tem que inventar uma coisinha nova pra cantar em
estádio. Pra reclamar, todo mundo é bom. A Seleção é ruim, o
jogador é ruim, o técnico é ruim... Mas a parte do camarada,
que é ao menos criar uma musiquinha mais ou menos pra cantar
na hora do jogo, ele não faz. Eu acho que foi o Conde D’Eu
que criou esse tal de “sou brasileiro com muito orgulho e
muito amor”. Ave Maria, já passou da hora de arrumar um
grito melhorzinho, até a prefeitura de Contagem já usou essa
música. Eu vou fazer a minha parte e sugerir:
(pra
cantar ao ritmo de Minha Pipa Tá no Ar)
Rá rá rá
Saudade do
Josimar
Ri ri ri
Ou então do Aldair
Ou então:
Nunca vi
rastro de cobra nem couro de lobisomem
Saudade do
Lazaroni, saudade do Lazaroni
Tem mais, ao
som do MC Pelé:
Fred e Jô
são coisas do passado
A onda
agora é
É Tom João
e Barbado
E chega porque
tem muita mala pra arrumar. Tá quase na hora de descer a
serra, graças a Deus. É hora de ir pra casa, pois vó tá
esperando pro Natal. Gente boa, muito obrigado por mais um
ano acompanhando essa humilde coluna. Faço minhas as
palavras de Tica e digo mais uma vez: cês são feijão sem
bicho. Um Feliz Natal pra todo mundo e um ano novo da mais
alta qualidade. Mas se Deus quiser, eu passo em Alvinópolis
pra desejar isso tudo ao vivo. Segura Ninho da Águia, que o
tio tá chegando!
Apita Antônio Barcelos
Filho, errrrrrgue os braços!
Cristiano de Oliveira é mineiro de BH, residente em Toronto
no Canadá. Já visitou Alvinópolis inúmeras vezes.
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