O Atleticano e a Copa longe de casa

 

Cristiano de Oliveira

 

 

 

Saudações, Alvinópolis da Copa no Ninho.

 

Saudade de vocês! Eu sou um rato e perdi o prazo de entrega do meu texto pra Coluna do Alvinopolense do mês passado. Foi mal aí, viu? Eu sei que isso é um desrespeito com os quatro leitores que eu tenho, mas acontece de vez em quando, especialmente quando eu estou totalmente sem assunto, como estava em maio. É duro manter essa coluna, jovem! Quando eu viajo é facinho, pois aí entro em uma roubada atrás da outra, e todo mundo adora ler história de rôia dos outros, né? O povo é muito generoso... Mas quando não viajo, fica duro de arrumar assunto, pois o Canadá é tão animado quando Argentina X Suíça. Nada acontece. O noticiário da noite geralmente começa com escândalos e denúncias contra políticos (e ainda tem inocente que acha que só no Brasil existe isso), e termina com notícias do tipo “mensagem em garrafa é encontrada e devolvida ao dono”. Ou então, “mulher coloca aparelho pra surdez e ouve pela primeira vez na vida”, “cachorro salva passarinho em enchente”... Outro dia fizeram uma reportagem enorme sobre como o cidadão de Toronto faz pra matar serviço.

 

E então, como estão as coisas por aí? Nó, como eu queria estar assistindo à Copa com vocês. Fiz uma bobagem tremenda: fui ao Brasil rapidinho em maio e, ao invés de ficar pra Copa, voltei pra cá. Dava pra ter ficado, pois como eu contei na coluna passada, a empresa onde eu trabalhava quebrou e o desemprego aqui tá batendo em 10%, ninguém tá arrumando nada. O mercado só deve reaquecer quando o verão acabar (e olhe lá), mas imaginei que, com a Copa, ia ter muito show de samba pra fazer  nos bares brasileiros daqui. Então, voltei pra ganhar um trocado. Ah tá... Fui chamado pra tocar na abertura da Copa, em um bar, e depois daquele show, nunca mais apareceu outro. Pelo visto, 800 brasileiros tiveram a mesma ideia que eu. Até quem não tocava nem matraca de vendedor de biju resolveu tocar na Copa, e com isso tá sobrando gente pra fazer show, e pouquíssimos bares colocando música ao vivo. Assim sendo, minha brilhante ideia de ganhar dinheiro na Copa foi pro buraco. Consegui um show na abertura e um na final.

Mas ao menos as datas que eu tinha fechado pra tocar aos sábados no bar da Dona Graça, independentes da Copa, foram mantidas. Já ajuda um pouco, e o show lá está ficando bom. Houve um caso engraçado, que foi até filmado, no dia em que a turma reclamou que estávamos tocando “a seco” e perguntaram se Dona Graça podia liberar ao menos uma cerveja. Ela ficou com raiva, foi lá dentro, encheu logo uma jarra, botou na mesa e falou, “enche a cara!”.

 

 

No geral, a Copa aqui tá bem quieta, em termos de comemoração. Em termos de cobertura, até que vai muito bem. Essa Copa bateu recorde de audiência e de aprovação no Canadá, segundo o principal canal de televisão daqui. Não se fala de outra coisa, e a gente acaba vendo cada cena de lascar: outro dia eu parei numa lanchonete de comida árabe pra comer um negócio, e lá dentro os três atendentes, todos libaneses e torcendo pra Argélia, batiam uma boca medonha com dois clientes palestinos, um com camisa da Alemanha e outro com camisa da Argentina. Aquele papo de “o cliente sempre tem razão” ali passou longe, a casa estava era caindo mesmo. E pra completar o conflito na Faixa de Gaza, só faltava mesmo um brasileiro de camisa do Galo entrando no meio e pedindo um sanduíche.

 

Mas em matéria de festa e comemoração, esse ano tá fraco. Sei lá, talvez seja a economia, que tá um desastre, porque não era assim. Copa do Mundo aqui costumava ser animada. Na Copa de 2006, a polícia fechou uma rua pra gente. Agora, as comemorações estão todas espalhadas, cada um comemorando no seu mundinho, cada grupinho em um bar... E com isso, a festa nunca fica grande o suficiente. A comunidade brasileira daqui já não é tão unida como antigamente, e como é proibido beber na rua e também é proibido consumir bebida alcoólica a partir das duas da manhã (então os bares param de vender à 1h30), fica tudo mais complicado. E a festa de gringo? Rá. Quando eu vejo o povo daqui celebrando alguma coisa, eu me lembro daquelas danças da corte portuguesa que a gente vê em filme. O nível de animação é o mesmo. A não ser que a Itália vença a Copa. Aí ao menos sai briga, pois o português e o italiano aqui comemoram futebol batendo um no outro. É sério, eles se odeiam. Fui ver a festa da final de 2006, que a Itália ganhou, e voltei chapiscado de sangue. O pau quebrava bem na frente da gente.

Há um bar que está colocando música ao vivo após os jogos e ficando um pouco mais animado. Aliás, tá ficando é lotado mesmo. O gerente é um português altamente mal encarado que fica na porta e não deixa ninguém entrar por motivos de lotação. Só que, em todo jogo, ele esquece a porta dos fundos aberta, e daí fica lá na frente barrando todo mundo, enquanto a turma toda entra pelo terreiro tranquilamente. No último jogo, quando ele se deu conta do que estava acontecendo, o Neymar já tinha até saído do hospital.

 

E por falar em Neymar, e como a celebração da Copa aqui não tá dando muito assunto, eu vou fazer a minha resenha esportiva da Copa até agora:

- Da próxima vez em que Argentina e Suíça jogarem, é favor avisar ao público para levar colchonete. Que joguinho burocrático... Eu cheguei a ter vontade de lavar louça durante o jogo Argentina X Suíça. Lavar louça!!! Rogério Suka que me perdoe por dizer isso (aliás, ele deve estar com aquela camisa do Ayala desde o início da Copa, né? Saudade dessa turma toda de Alvi, mandem um abraço pra ele por mim).

 

- A Inglaterra reclamou da mão do Maradona em 1986, do gol que não foi dado contra a Alemanha em 2010, e antes da nossa Copa, reclamou de Manaus porque estavam com medo de animais selvagens (ah, é bem capaz mesmo de aparecer onça numa cidade de dois milhões de habitantes). Enfim, a Inglaterra há 50 anos parou de jogar bola pra se dedicar à arte da reclamação. Ô time feio. Sinto informar, mas o Mamoré de Patos de Minas é 300 vezes melhor que a seleção da Inglaterra. E onça não come qualquer porcaria não.

 

 

- Não, é mentira: a Inglaterra é só 100 vezes pior que o Mamoré. Camarões sim, é 300 vezes pior. Ah, que saudades do goleiro-muralha N’Kono, em 1982, ou do Roger Milla em 1990. O time de hoje daria no máximo um bom adversário para o Pinga Rato, mas perderia se jogasse contra o Alvinopolense.

 

- No último treino antes da estreia, a Grécia acertou mais os fotógrafos e arquibancadas do que o gol (deu no Jornal Nacional, eu estava na Dona Graça e vi). Dito e feito: o ataque deles é tão fraco que deveria ser estudado, pra ver se dá pra criar uma vacina. Atenção Grécia, vou dar alguns nomes de jogadores brasileiros aos quais vocês deveriam oferecer cidadania grega. Vai sair barato, e com certeza melhorarão seu time em 500%. Anota aí: Meu Tio, do Alvorada de Tocantins; Márcio Mixirica; Jones Carioca, que de carioca não tem nada, ele é lá de Caratinga; Fábio Júnior, o matador de São Pedro da Cabeluda; Jacozinho de Sergipe, que está aposentado, mas se der uma vaca a ele, ele topa; e tem um pacotão CECÊLEGALO que tá na promoção com 20% de desconto à vista ou 12 vezes no cartão: é Curê, Catanha, Cairo, Cleiton, Carlão, Célio Silva, e por mais 20 reais e cinco tampinhas de Coca você ganha um Wellington Saci exclusivo.

 

- E pra quem não entende nada de futebol, eu vou explicar o que é o Fred usando uma analogia que todo mundo entende: o boteco. Pois bem, o Fred é aquele cara que promete que vai tocar no bar, fazendo percussão para o cara da voz e violão. No dia do show, ele aparece de ressaca, senta no palco e não mexe um dedo. Fica todo mundo esperando, o show já passou da metade, mas o cara ainda não tirou nem um chocalho do bolso. Aí, na hora em que o show esquenta, naquela hora em que o violeiro toca Andança e pede pra todo mundo cantar junto, o cara cata uma garrafa vazia e começa a bater nela com um garfo, além de gritar “por onde for, quero ser seu par” bem na orelha do cara do violão. Isso é o Fred: o cara que não ajuda, e na hora mais importante, ainda por cima atrapalha. Mas como já dizia o LP, tudo na vida tem dois lados. A gente faz hora, entra na brincadeira, mas é preciso ter memória e lembrar que ele sempre foi goleador quando teve bons armadores jogando pra servi-lo. O esquema da Seleção o está deixando muito na mão também.

Bom, estou escrevendo isso ainda antes do Brasil X Alemanha. Vocês provavelmente já saberão do resultado ao ler essas linhas, e eu espero que a gente tenha ganhado e que a Copa tenha sido e esteja sendo boa em Alvinópolis. Na próxima edição a gente volta e vê no que deu.

 

Apita Antônio Barcelos Filho, errrrrrrgue os braços!!

 

Cristiano de Oliveira é mineiro de BH, residente em Toronto no Canadá. Já visitou Alvinópolis inúmeras vezes.

Contato :

 

Colunas anteriores