O ATLETICANO EM BERLIM

 

Cristiano de Oliveira

 

 

 

 

Saudações, Alvinópolis cidade carinho.

 

Antes de começar a historinha da viagem, a resenha esportiva. Eu acho bonito como a história do Galo é passada de geração para geração: dez anos atrás, a minha geração xingava Mancine. Hoje, a nova geração xinga Mancine também. Quem naquela época nem ia ao campo ainda, hoje vai lá para preservar nossas tradições de outrora e xingar Mancine outra vez. Recordar é viver.

 

E quanto a Serginho, eu sinto muito, mas não dá. É atleticano, é dedicado, mas não dá. Rafael Miranda também era atleticano e dedicado, e quem sente falta dele hoje? Serginho, além de tudo, é um cara emocionalmente complicado. Já não foi uma nem duas vezes que repórteres o entrevistaram em tempos de crise e ele desandou a chorar. E outra: você já notou que sempre que o time está péssimo, em crise, jogando mal e tomando vaia, ele é expulso? Quando a situação dá uma melhoradinha, como agora, ele continua ruim, mas ao menos não é expulso. Mas eu sou um cara que mostra o problema e apresenta soluções. Solução pra Serginho: bote-o pra trabalhar no bar da Dona Graça no próximo Atlético e Cruzeiro, em dezembro. Aí ele vai aprender a lidar com pressão. 600 mil elementos altamente embriagados, o mais educado ali fuma charuto em ônibus lotado, a chapa de sanduíche fumaçando um bacon pesado, e lá fora um frio de 0 grau (porque dezembro é só começo de inverno, o clima ainda é maneirinho), não pode abrir porta nem janela. Fora que, se sair gol do Cruzeiro, ele certamente vai ganhar todos os abraços no meu lugar. Se ele aguentar essa, vai voltar pro Galo e se tornar o novo Éder Lopes.

 

Bom, então voltemos à Alemanha. Lá fui eu para Berlim, buscar mais fotos para o projeto MIDÁ O GALO DE PRATA (Momentos Inesquecíveis Do Atleticano Objetivando Galo de Prata): meu belo projeto de tirar fotos da bandeira do Galo pelo mundo afora, na esperança de que Kalil se lembre de mim e me dê um Galo de Prata por carregar o nome do time pelo mundo afora. E a todos que acham que eu não mereço, eu só digo quatro palavrinhas: Bambam do Big Brother. Bambam do Big Brother bota crista de Galo na cabeça e vai enfrentar a turma da cajibrina na D. Graça? Bambam foi sócio-torcedor? Bambam comprou camisa do Fica Ronaldo? Bambam ia almoçar todo dia naquele restaurante horroroso que tinha lá na sede de Lourdes? E o principal: Bambam fica parado com bandeira do Galo aberta no meio da rua em frente aos pontos turísticos mais famosos do mundo? Não! Mas ele ganhou Galo de Prata, e Cristiano, esse menino tão bom, está sobrando, passando um frio danado, coitado. Por isso, eu não desisto. Uma estrela ainda vai brilhar no meu caminho, e esta estrela será de prata, com crista, bico e esporão.

 

 

 

Cheguei a Berlim bem cedo, debaixo de uma chuva brava, e a diária no hotel só começava a contar às 2 da tarde. Aí o gênio teve a brilhante idéia de fazer hora na rua até as duas... carregando mala. Ô roubada. A chuva descendo, e eu caçando museu pra entrar, pois museu é bom lugar de turismo em dia de chuva. Fui visitar o DDR Museum, o museu da Alemanha Oriental, e pelo visto, todos os turistas em Berlim tiveram a mesma idéia. O lugar estava lotado, e logo na entrada, eu já senti a tragédia anunciada: a fila pra entrar passava pela lojinha de souvenir. E eu lá, com a minha mala. Não, não era aquela mala bonitinha que o cara leva na bagagem de mão quando vai a serviço pra São Paulo, não. Era a famosa mala “tio de Miami”, a mala que o brasileiro residente nos EUA usa quando vai passar Natal em casa e tem só uns 350 sobrinhos pra presentear. Cabe uma onça dentro da mala.  E lá fui eu, no meio daquele amontoado de gente, rolando aquela porcaria de mala molhada e derrubando ímã de geladeira, caneta, cartão postal... Sorte que ao menos o museu tinha guarda-volumes. Do contrário, a minha mala terrorista teria destruído o que sobrou da Alemanha Oriental.

 

O museu é interessante, mas é um museu pertencente à iniciativa privada. Ou seja, as descrições dos artefatos não dão uma visão imparcial da História. O museu é do cara, ele fala o que bem entende. Então, todas as descrições do museu só fazem falar mal da Alemanha Oriental. Tudo era ruim, de acordo com o museu. Não vou falar que a vida lá era boa não, mas o desemprego zero e o sistema de saúde excelente que eles tinham são fatos históricos que o museu tratou de esconder. O melhor exemplo foi a reconstituição que fizeram da típica sala de televisão de uma família de Berlim Oriental, na década de 70/80. Descreveram a sala como a coisa mais horrível do mundo. Pensei caladinho: naquela época, todas as salas de todas as casas no Brasil eram iguaiszinhas àquela. Inclusive a lá de casa, com a Telefunken que tinha que esquentar pra mostrar imagem, e trocava canal rodando aquele botãozão barulhento. Se rodasse o botão depressa demais, vó quase matava a gente. É só um exemplo de uma constatação engraçada: o povo tinha tanto medo de comunista, e no fim, a nossa vida era mais parecida com a deles do que podíamos imaginar.

 

 

Bom, no dia seguinte, fui cuidar das fotos da bandeira. Lá fui eu para o Portão de Brandenburgo, marco histórico da cidade de Berlim, por onde Hitler um dia passou em triunfo, mas também por onde, anos antes, Napoleão passara em triunfo ao derrotar a Prússia (e ainda roubou a estátua da carrocinha que fica em cima do portão, o safado). Ali em frente, um dia, esteve o muro de Berlim, e ali foram penduradas cortinas gigantes para que a visita do presidente americano Kennedy fosse ignorada pelo lado oriental. Em suma, a história da Alemanha passou por ali. E assim, a bandeira do Galo também tem que passar.

 

Só que eu garanto que a experiência de Hitler, Napoleão e Kennedy foi 500 vezes mais interessante do que a minha. Debaixo de uma chuva de lascar o cano, lá estava eu, bandeirona aberta pra tirar a foto, quando de repente, passa uma limusine. No que ela reduziu a velocidade bem em frente ao portão pra fazer o retorno (não se pode atravessar o portão), um grupo de turistas brasileiras, que obviamente nunca tinha visto uma limusine na vida, pulou em cima do carro pra tirar foto. Só mulher, tudo gritando e abraçando o carro pra tirar foto. E Cristiano lá... Bandeira aberta... A chuva caindo... Aí, veja só que jóia: dentro da limusine só tinha homem. Os caras abriram a janela e puxaram papo, é lógico. Aí começa: como é que tá, como é seu nome, quer dar uma volta, e aí Elba Ramalho, que tal um jogo de baralho? E as meninas tentando responder naquele inglês excelente, né? Sessenta horas pra fazer uma frase, com 500 “yes, yes, yes” no meio. Mas o cara está querendo se dar bem, então ele tem toda a paciência do mundo. E a menina se esforça, sonhando com o amor de verão em terras estranhas... nós dois aqui, uma limusine, o portão de Brandenburgo... A chuva fina cai... Trilha sonora de Morris Albert... E ao fundo de cena tão romântica, um TROUXA segura uma bandeira do Galo aberta, esperando o filho de uma ratazana puxar aquela banheirona dali pra poder tirar uma peste de uma foto.

 

Sério mesmo, na foto logo no início do texto, eu só estou sorrindo porque eu assistia Bozo quando era menino e ele ensinou que o lema é “Sempre Rir”, então mesmo atolado na fossa, eu tô rindo. Mas se foto tivesse som, meus amigos, essa foto ia ter tanto palavrão que ia fazer disco do Costinha parecer do Balão Mágico.

 

Depois disso, eu estava muito tenso, e aí só tem uma coisa pra aliviar o espírito: linguicinha na brasa com chopp de meio litro. Disseram que Berlim é a terra do Currywurst, que é aquela linguiça servida com um ketchup especial à base de curry e batatinha. A mesma que eu comi em 2009, que está nas fotos da coluna anterior, só que aquela era tamanho de campeonato, né? Pois bem: passei na porta de um restaurante em Berlim, e tinha um anúncio lá: Currywurst XXL. “XL”, em inglês, é a abreviatura de “extra large”, geralmente usado em roupas, significando tamanho GG. Aí imaginei: os caras tem linguiça GGG!! Corri pra dentro e já mandei descer uma e um chopp. Mas que decepção. Que mixaria de linguicinha. Os caras desrespeitaram a minha tradição, o meu potencial e a minha história no esporte da indecência alimentar. É o mesmo que mandar Diego Tardelli disputar a Copa Dadazinho. Veja na foto aí embaixo: a linguiça era bem boa, mas GG ela não era. Tava mais pra Baby Look.

 

 

O pior ainda estava vir: um camarada meu de lá disse que eu precisava experimentar uma tradição da cidade: cerveja com calda de morango. Tinha uma calda verde de ervas também, mas eu já estava revoltado com esse negócio de ervas, depois do fracasso do bife de porco com aquele molho, então fui na cereja mesmo. Ô rôia... A cerveja descia até com medo de descer. Que trem ruim. Pecado mortal, viu? Na terra da melhor cerveja do mundo, os caras botando mistura no meio. Por que não fazem isso no Canadá, onde o povo engarrafa água de fossa e vende como cerveja? Nessa porcariada que vendem aqui, você pode até misturar essência de losna que a cerveja melhora.

 

Chega! Por hoje, chega. E antes de ir embora: fui ao cinema hoje, pois está tendo Festival de Cinema de Toronto, assistir à estréia de Heleno, o filme sobre o jogador do Botafogo Heleno de Freitas. Não tem muito futebol no filme, pois segundo o próprio Rodrigo Santoro, que estava no cinema respondendo às perguntas do povo, ele não joga nada, não dava nem pra fingir no filme. Mas o cara é um baita de um ator, isso eu tenho que dizer. Muito bom, o filme.

 

Apita Antônio Barcelos Filho, errrrrrrrrrgue os braços!!

 

Cristiano de Oliveira é mineiro de BH, residente em Toronto no Canadá. Já visitou Alvinópolis inúmeras vezes.

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