O ATLETICANO EM BERLIM - PARTE 2

 

Cristiano de Oliveira

 

 

 

 

Saudações, Alvinópolis de Leleco pra prefeito.

 

Com essa guerra de lançamentos de candidatos, eu preciso lançar o meu também. Vote sem preconceito, Leleco pra prefeito. Não o deixe ficar sozím, vice é Vanim.

 

Eu até ia começar com a resenha esportiva, mas do jeito que a coisa , ia parecer anúncio funerário. Vou falar o quê? Quando você liga a televisão pra ver seu time jogar e vê goleiro batendo tiro de meta no pé do outro atacante, jogador revertendo lateral... É porque o fundo do buraco chegou mesmo. E mesmo que escapem do rebaixamento, a tragédia continua: em dezembro, vão demitir uma barca e trazer outra. Daquele mesmo jeitinho: traz o Caçapa pra fazer raiva em uns. Traz o Guilherme pra fazer raiva em outros. E aí fica aquela eterna briga de roça entre os dois times, um provoca daqui, outro provoca de lá... são os dois matutos brigando por cima do muro do quintal, enquanto o trator passando por cima da casa deles pra fazer estrada. E eu, que um dia disse "Nilson Sergipano nunca mais", fico aqui batendo palma pra Didira.

 

Pois é, vamos voltar à viagem que é melhor. Resumo do capítulo anterior: Odete Roitman se arrepende de envenenar a maionese e vai se confessar com Padre Albano, que estava ocupado com a filha de Sinhozinho Malta. Bafo de Bode toma uma cana com Heleninha, os dois tentam apertar a campainha da casa de Perpétua e sair correndo, mas não dão conta. Cristiano continua de férias em Berlim, levando a bandeira viajante pra passear.

 

Fiquei num hotel interessante, no antigo lado oriental de Berlim. Como todo hotel em que já fiquei na Europa, o chuveiro é do tamanho do tanque lá de casa. Não dá pra se mexer. Se abaixar, quebra a porta do box. Se tentar lavar as costas, acerta a torneira e vira a água de quente pra fria (é daquelas torneiras de alavanca). Se pegar o xampu, derruba o chuveirinho. E isso é osso, porque chuveiro de hotel sempre é bom, aquela duchona forte... Mas dentro de uma caixinha daquelas, se a ducha for muito forte, ela afoga o candidato.

 

Ah, peraí. Por falar em hotel, tenho uma adivinhação: como é que você identifica um canadense no salão de café da manhã do hotel? Resposta muito simples: basta ver quem assoando o nariz à mesa. Rapaz, é impressionante. Canadense não pode sentar à mesa de refeições que já arranca o lenço e começa aquela sinfonia. Puóóóm, dá aquela assoadona no nariz. Ô povo esculachado. E isso porque eu deixando de fora a arrotação à mesa, pra não queimar muito o filme deles.

 

 

Bom, mas lá fui eu conhecer o muro de Berlim. Pois é, ainda existem partes dele, mantidas em algumas áreas específicas como parte da memória da cidade. Aliás, a cidade ainda respira o muro. Tem Museu do Muro, Memorial do Muro, pedacinhos do muro pra vender por 5 euros em loja de souvenir, a guarita que vigiava uma passagem no muro... O muro já não existe, mas ainda faz o maior sucesso com os turistas. Mas o Museu do Muro, que é o campeão entre a turistada, na verdade é um fracasso, uma bagunça de fotos pregadas nas paredes com textos enormes, várias fotos repetidas... e só 12 euros pra entrar, ? Tão achando que meu dinheiro é capim.

 

Mas o Memorial do Muro vale a pena, e ainda é de graça. Eles mantiveram um quarteirão do jeito que era: o muro interno, o muro externo, e o terreno cheio de areia e com torres de vigilância entre eles. Em frente a esse quarteirão, construíram um prédio de quatro andares que funciona como uma mostra e arquivo de referência sobre o muro, e o último andar é uma cobertura de onde você pode enxergar todo o quarteirão-modelo. Muito bem bolado, e é realmente impressionante. Pra conseguir atravessar de um muro ao outro sem levar bala, ou o cara era queniano pra conseguir correr, ou tinha que arrumar um disfarce. Sei lá, fantasiar de pipoqueiro e ir chegando devagarinho, sem chamar a atenção... E aí, usava o carrinho de escadinha pra pular o muro. O problema seria se o cara fosse brasileiro. Aí, além de querer pular o muro, ele ia querer levar o estoque de coquinho e amendoim do carrinho pra vender do outro lado, e ia levar chumbo na asa.

 

 

(Sabe o que é pior disso tudo? É que esse monte de ideia cretina realmente me passa pela cabeça quando visito esses lugares.)

 

Outro lugar legal se chama Topographie des Terrors. É uma galeria construída bem no lugar onde ficava o prédio da SS, e que possui a versão mais completa e bem contada que eu já vi da Segunda Guerra Mundial, impressa em painéis e ilustrada com fotos. Ainda há ruínas dos porões do prédio por lá também. Mas não deu pra ver tudo, porque eu cheguei atrasado, pra variar. Tentei ler a história na ordem certinha, mas acho que Hitler ainda não tinha nem se casado quando o segurança passou mandando todo mundo embora porque era hora de fechar.

 

Por falar em prédio, a pergunta que todo mundo me faz: ainda há muita diferença entre as antigas Berlim Ocidental e Berlim Oriental? Diferenças existem, mas estão longe de serem escandalosas. É fato que as reformas pós-guerra na Alemanha Ocidental começaram logo que a guerra acabou, enquanto na Alemanha Oriental, por falta de verba, a reforma só começou mesmo depois que o muro caiu. Com isso, o lado ocidental hoje tem aparência mais antiga, enquanto o oriental está ficando todo novinho. Mas quanto àquela história de que os prédios habitacionais dos países comunistas eram feios, parecendo cadeia, etc etc... na Alemanha, eles até eram, mas as demais construções da época não eram muito diferentes. Depois da guerra, a onda na Alemanha inteira era fazer prédio tipo pombalzão, pra acomodar muita gente, pois a bomba descera com raça durante a guerra e não havia sobrado nada. Bom exemplo é aquele livro "Cristiane F., Drogada e Prostituída", que a molecada toda catava pra ler escondido: o prédio dela é descrito exatamente como um caixotão, embora ela morasse em Berlim Ocidental. No fim, a minha conclusão arquitetônica abalizada é que a Alemanha inteira copiou descaradamente o conjunto IAPI de Belo Horizonte. A diferença é só que o IAPI deve ter passado por mais ou menos umas 370 guerras, pra ficar naquele estado.

 

 

À noite, marquei de encontrar com um camarada lá, um alemão que trabalhou comigo no Canadá. O cara ficou de me levar pra conhecer um bairro de vida noturna animada e tomar uma especialidade da cidade. E realmente, o bairro era lotado de bares e restaurantes... e de trabalhadoras da noite também.. O negócio na área era tão forte que só faltava ter luz vermelha no poste. E só lourona. Mas como dizia o Gelol, "Não basta ser um cara fechado, tem que participar". Então, obviamente, em meio a tanta mulher bonita usando bota da Xuxa (aquela compridona até o joelho), a que mexeu comigo tinha que ser o único travesti da rua. E o pior é não ter entendido a cantada. Meus conhecimentos de alemão só me permitiram agradecer a preferência e continuar no meu passo antes que a conversa esticasse.

 

Parei no bar pra beber a tal especialidade da cidade. Eu vou contar o que era, mas cês tem que prometer que não vão me bater quando eu chegar ao Ninho da Águia: o negócio era cerveja com Sprite. É de lascar o cano... O lugar que tem a melhor cerveja do mundo, misturando com Sprite?? Pra quê? Skol Lemon já tem no Brasil, não precisa mais não!  Tudo bem que não é coisa que todo mundo toma, mas ainda assim, todo bar serve. E se essa moda de botar refrigerante em cerveja pega no Brasil? Já pensou o desastre? No Maranhão, o povo tomando cerveja com Guaraná Jesus, aquele rosa? E em Alvinópolis, já pensou se Ciloca chega pra você um dia e diz, "cerveja agora, só com Guarapan"? Aquela passeata lá em Nova York, a ocupação de Wall Street, ia parecer acampamento de igreja comparado com o que ia virar a porta do Ninho.

 

E é desse jeito. A visita foi curta, mas a bandeira do Galo foi aberta em mais um lugar do mundo. Na próxima edição, a segunda parte da viagem: a bandeira do Galo vai encarar Praga de Tcheca. Da República Tcheca.

 

Apita Antônio Barcelos Filho, errrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrgue os braços.

 

Cristiano de Oliveira é mineiro de BH, residente em Toronto no Canadá. Já visitou Alvinópolis inúmeras vezes.

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