O ATLETICANO NO CALOR DO BRASIL

 

Cristiano de Oliveira

 

 

Saudações, Alvinópolis do Ninho da Águia  reformado.

 

(Tá tão moderno que vai passar a se chamar Chocadeira Digital da Águia. Parabéns Ciloca,  Maurão, Zé Maria e Lindinha.)

 

Eu estou rindo à toa, escrevendo isso aqui sem camisa, no calor de BH, debaixo da minha janela e com o cachorro dormindo ao lado, sob o ventinho bão que sopra no Santo Antônio (às vezes o ventinho dá lugar a um chuvão da peste, mas tá bom também). Tipo do negócio que a gente nem nota. É preciso sair do país e ralar um bocado pra passar a dar valor pra essas coisas. Problema, todo lugar tem. No geral, “aqui também é bom lugar de se viver”, como dizia o 14 Bis.

 

Porém, fui à loja do Galo e estou indignado: cês já notaram que pessoas levemente acima do peso como eu não podem torcer pro Galo mais? É brincadeira! Calça, só tem P. A única camisa que me serviu lá era GGG., e aí só tem rapa de tacho, pouquíssima variedade. Como é que eu vou receber meu Galo de Prata – o qual ainda aguardo pacientemente - com camisa apertada? Os produtos do Galo nunca foram de grande qualidade, mas a Lotto e a Topper acabaram de enterrar a loja. Camisa de futebol apertada é esquisito demais. Torcedor do Galo não dança Rebolation e nem é o Alex Alves (o homem que usava top de crochê). Portanto, vai querer o que com camisa apertada? Bom, tem Leleco, né? Leleco é magro, a dele precisa ser P mesmo. Mas no geral, camisa de futebol precisa ser bem larga, que é pra dar liberdade de movimentos. Afinal, comemorar gol com a massa e segurar tropeiro ao mesmo tempo exige muita desenvoltura. Se o torresmo cai, eu fico pra morrer.

 

 

Bom, nesse tempinho bom que está fazendo por aqui, fico lembrando do que encarei pouco antes de vir pra cá. Acreditem: eu comecei a rascunhar essa coluna dentro de um trem, voltando pra casa em Toronto. É duro. Depois de encarar quase o ano inteiro procurando emprego, fui chamado pra uma entrevista. Fiquei animado, mas só durou até conferir no mapa onde era a firma. Pois é, tive que conferir no MAPA, pois nunca tinha nem ouvido falar do endereço. Daí cê já imagina. Acaba que o negócio era lá depois da Arena do Jacaré. Era mais longe que garagem de ônibus vermelho. Totalmente fora da cidade. E eu que sou um rapaz de poucos recursos e não tenho carro naquela terra, fui obrigado a pegar dois metrôs, um trem e um táxi pra chegar ao meu destino. Ô errada. Da janela do trem só se via fábrica e mato. Ou o que havia sobrado do mato, pois com a neve e a chuva por cima, ele vai virando um barrão só.

 

O pior foi o táxi da estação do trem até a firma. O taxímetro parecia caça-níquel de cassino. Nunca vi os números correrem tão depressa. Também, cada rua ali tinha seis pistas, e sinal de trânsito era uma raridade. O taxista desce o pé sem dó. Até pensei em ir andando, mas a área é  tão imprópria pra pedestre que nem calçada tem. Sério mesmo, não tem lugar pra pedestre andar, o lugar é só pra carro. E aí, jovem, debaixo de -2 graus, com vento e sem calçada, será que Cristiano vai encarar? De terno muito alinhado comprado de 6 vezes na Klus do Pátio Savassi? É ruim!

 

Ah, mas eu devia ter achado bom. Pior foi a segunda entrevista. Eu me animei porque ia acontecer em outro escritório. Na mesma região, porém esse tinha ônibus na porta. E o ônibus custava só 65 centavos pra quem apresentasse o bilhete do trem. Fiquei na maior alegria. Peguei os dois metrôs, o trem, e depois de 700 horas de viagem, peguei o ônibus. Parou na porta bonitinho. Me senti a criatura mais abençoada do planeta.

 

Mas eu não sei por que eu ainda comemoro alguma coisa. É lógico que ainda ia dar tragédia. Pois entrei na firma e o entrevistador estava numa empolgação tão grande que parecia até Daniel Carvalho. Fiquei com medo do cara dormir no meio da minha entrevista. O meu currículo fala que eu sei plantar manga em deserto, desentortar banana, tocar surdo sem baqueta, botar marcha em carrinho de rolamento, fazer cego andar, surdo falar... Mas não adiantou. A pergunta que o entrevistador me faz de cara é: “Há quanto tempo você está no Canadá?” Ou seja, não importa o que eu sei fazer, o que ele quer saber é se eu ainda sou estrangeiro ou se já deu tempo de me colonizarem. Meus amigos, o único conselho que eu dou a vocês: nunca sejam estrangeiros. Ser estrangeiro em um lugar é OSSO. E não pense que é mole ser estrangeiro no Brasil não. Imagina como sofre um paraguaio no Brasil. E japonês, o quanto não tem que escutar? Alemão, que encara 400 comentários de nazista por segundo? Brasileiro é receptivo, mas o cara tem que aguentar muita piadinha cretina e comentário ignorante pra ser bem recebido.

 

 

Só sei que saí de lá meio tenso com a história toda, e assim que saí, o ônibus passou. Perdi. Como a temperatura no momento estava baixa, eu decidi botar minha touca do Galo (do tempo da Diadora ainda, muito bonita, acho que depois da Diadora não fizeram mais dela) e meu cachecol do Galo. As luvas que mãe comprou pra mim em Santa Catarina eu não coloquei, luva complica muito na hora de tirar carteira do bolso, e coisas assim. E com isso, e ainda um sobretudo por cima do terno, lá fui eu pro ponto do ônibus, que inclusive era na grama. Não tinha calçada não.

 

Amiga dona de casa, o que se passou a seguir, Deus ajude que ninguém tenha visto. Pois a peste do ônibus era de meia em meia hora. Eu parado no ponto, e só quando cheguei em casa fui saber que a temperatura naquele momento era de -22 graus. Como é que eu ia saber a temperatura? Não carrego termômetro, e meu celular não marca temperatura. Aliás, não marca é nada, ele é do tempo do boitatá, pra ligar pros outros eu quase tenho que botar ficha. Bom, sem saber a temperatura, encarei o ponto de ônibus. A cada lufada do vento na cara, o olho ficava tão gelado que eu imaginava que ele estava ficando azul e eu estava virando o Fábio Assunção. Quando parei de sentir a minha própria mão e vi que ela estava até roxa de tão vermelha, calcei as luvas de Santa Catarina correndo. Não deu certo, a sensação que dava era de que a luva era feita de tarrafa, porque o vento passava todo por ela. Quando o ônibus chegou, a cena deve ter sido triste: eu estava andando de um lado pro outro pra esquentar, cantando Jane e Herondy pra distrair do frio, a mão atolada no bolso, com o cachecol enrolado na cara deixando o escudo do Galo no queixo. Isso é que é campeão do gelo: até na hora de congelar, eu congelo com o Galo.

 

Ó, é o seguinte: fui convocado aqui pra tomar uma gelada, e isso é algo que não posso recusar. Eu tenho três semanas no ano inteiro pra tomar cerveja gelada, num copo decente, a um preço decente. O resto do ano é Brahma long neck (sem copo) de cinco dólares. Portanto, eu humildemente acho que mereço. Eu vivo privado do direito sagrado do homem de tomar cerveja por preços módicos. Quando o Canadá me concede esse Habeas Corpus, eu preciso desfrutar.

 

Isso tudo pra explicar que a coluna desse mês acaba aqui. Em fevereiro, voltamos a transmitir da terra de ninguém, onde o frio está mordendo, pelo que me falaram. Já estou sofrendo por antecedência. Ô fracasso, nem um joguinho do campeonato mineiro eu pego por aqui esse ano. Vou ter que ver tudo no bar da Dona Graça. Atlético e Funorte com Brahma a 5 dólares? Esse ano vai ser complexo...

 

Apita Antônio Barcelos Filho, errrrrrrrrrrgue os braços.

 

Cristiano de Oliveira é mineiro de BH, residente em Toronto no Canadá. Já visitou Alvinópolis inúmeras vezes.

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