Um atleticano e sua bandeira pelo Canadá afora

 

Cristiano de Oliveira

 

 

 

Saudações, Alvinópolis do Baú do Esporte no Ninho da Águia.

 

Como é que cês tão aí? Tudo na santa paz? Espero que esteja todo mundo bem, com saúde, tranquilidade, bebendo pouco... É duro, hein? Geladinha no Maurão... Bebe não, sô, é ruim. Vem pra cá tomar Brahma long-neck quente a 5 dólares com a gente.

 

Se bem que eu não posso reclamar, pois no bar da Dona Graça a Brahma é sempre gelada. Dos cinquim na long neck eu não escapo, mas ao menos é gelada. E no dia do clássico, depois da tragédia, Dona Graça, que é cruzeirense doente, até me deu uma de brinde pra afogar as mágoas. Mas do jeito que andam as mágoas do atleticano, eu perguntei se não podia vir um tira-gosto junto, pois a situação está de lascar o cano. Nada me tira da cabeça que Diego Macedo está puxando um movimento pra derrubar o Luxa por ter recebido apelido de Tiririca e Lagartixa do treinador. Não há nada mais perigoso nessa vida do que um cara enfezado por causa de apelido. Só aí em Alvinópolis eu sei de ao menos dois que tem apelido daqueles que se mencionar, sai até facada.

 

Bom, mas depois do clássico, eu vou ter que sumir desse bar por um tempo. Foram 600 abraços de cruzeirense que eu tive que aguentar dessa vez. Fora um português que sempre vai lá e não perde a chance de me atazanar. “Ê pá, êst Galo num val nada!” Outro dia, Dona Graça deu uma carne pra gente fazer churrasco no quintal do bar (quando a turma é grande ela faz isso, desde que ninguém traga cerveja de fora), o cara passa na rua, me vê na churrasqueira e grita: “Ê pá, estás a fazeire o funeral do Galo?” Nó, eu fico pra morrer. O cafifento fica naquele bar a noite inteira vendo novela do jeito que minha Tia Nenê ficava (que Deus a tenha em excelente lugar): torcendo pros personagens. “Esta mulher é muito má, pá. Não merece êst gajo.” “Êst gajo é demais, olha o que está a fazeire com ela! Bem feito.” Não para de dar palpite. Mas se fosse só isso, tava tudo bem. O complicado da história, o que mata mesmo, é que o cara se distrai enquanto tá vendo novela e começa a coçar as partes. É sério! Senta no balcão pra ver novela e fica lá, róc róc róc... A novela vai ficando animada, ele também vai se empolgando, rác rác RÁC RÁC... No dia que matarem outra Odete Roitman ele vai direto pro hospital. E o fariseu só para de coçar pra falar mal do Galo. Eu mereço. Eu devo ter dançado lambada na Sexta Feira da Paixão. Graças a Deus ele ao menos nunca quis me cumprimentar.

 

 

Duro é que se eu não vou ao bar da Dona Graça, eu vou aonde? A última vez que fui a um bar diferente, acho que foi quando fui demitido: entrei no primeiro bar que vi pra poder sentar um pouco e organizar as idéias. O duro é que foi uma demissão em massa, então éramos eu e mais 50 desorientados, todo mundo com a cabeça fraca e bebendo cerveja quente. Imagina o fracasso. Prestou não.

 

E com a demissão veio o Seguro Desemprego, e uma das regras do Seguro Desemprego é que o camarada não pode sair do país, senão para de receber. O benefício dura um ano, mas tem que ficar aqui. Então, esse ano a bandeira viajante do Galo não vai continuar sua volta ao mundo. Mas ninguém falou nada sobre viagens domésticas. Afinal, o Canadá pode ser sem graça, mas ao menos é grande e dá pra gente rodar dentro dele. E eu não posso largar agora, pois o Galo de Prata está cada vez mais perto. Tenho fé que Kalil vai reconhecer meu trabalho. Eu já fiz algumas viagens curtinhas por aqui com a bandeira, mas ainda há muito por vir. Uma delas foi a Montreal, e botei uma foto aí pra deixar registrado.

 

 

Uma viagem curiosa foi quando levei a bandeira para a região dos lagos em um daqueles trailers gigantes. Mas não é trailer de rebocar, é daqueles caminhões-baú cujo baú é uma casa. O camarada que não está dirigindo viaja sentado na mesa da sala, que tem cinto de segurança nas cadeiras. Aí você relaxa, abre uma cerveja, pega um salgadinho, bota na mesa junto com o laptop... E na primeira curva, o laptop voa pra pia da cozinha e a cerveja vai cair na cabine do motorista. E se a porta do banheiro estiver aberta, pode olhar que o salgadinho foi parar lá dentro.

 

As camas são bem boas, uma em cima da cabine do motorista, e uma de casal no fundão do baú, mas durante a viagem, se a polícia pega alguém viajando apagado na cama, o bicho pega. É proibido. Então só resta a mesa da sala com cinto de segurança. O banheiro é menor que os banheiros químicos do Carnaval da baixada. Se o sabonete cai, nem tem perigo de abaixar pra pegar, porque não dá pra abaixar. Pra pegar o sabonete, só fazendo embaixadinha com ele. A descarga do vaso sanitário simplesmente abre uma tampinha no fundo dele, deixando o movimento escoar.

 

 

 

E aí vem o pior momento do trailer: a hora de esgotar a fossa. Toda área de camping por aqui possui uma estação de esgotamento de fossa móvel. Geralmente a estação fica bem afastada da área das barracas. Imagine por quê. Cê para o caminhão ao lado de um buraquinho no chão, abre a tampa do buraco e soca a mangueira da fossa ali, ativando o sistema de esgotamento. Um espetáculo muito bonito. Fede a 500km de distância. Nó, que tragédia. O gozado é que todo mundo fala que você nunca cava a fossa ao lado do poço artesiano, não é? Pois bem: ao lado do buraquinho do inferno, na estação do esgotamento, tinha uma mangueirona saindo do chão pra reabastecer os tanques de água limpa do carro. Que dureza. O cismado escovando dente à noite naquela água... Até hoje eu acho que agarrou um ovo de solitária no meu dente do fundo aqui, ó ó ó.

 

, lembrei de uma aqui pra encerrar com chave de ouro. Tava vendo televisão outro dia, aí aparece uma propaganda de firma de advocacia. Aqui, pra quem não sabe, a indústria do processo é imensa. Qualquer coisinha dá processo, e as indenizações em geral são violentas. Pois me aparece uma propaganda de uma firma dessas com os dizeres:

 

“Atenção. Se você usou o remédio X e contraiu diabetes ou morreu, procure-nos para processar a indústria.”

 

Ou eu moro no Portugal da América do Norte, ou então já existe televisão no além.

 

Ôu, na próxima edição me lembrem de contar a história de quando eu resolvi tocar na noite aqui de Toronto. É caso bom de contar tomando cerveja, porque aí eu posso encenar. Mas eu vou dar um jeito de passar a cena pras letrinhas do computador.

 

Apita Antônio Barcelos Filho, errrrrrrgue os braços!!!

 

Cristiano de Oliveira é mineiro de BH, residente em Toronto no Canadá.

Já visitou Alvinópolis inúmeras vezes.

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