O ATLETICANO E MAIS UM CLÁSSICO NO CANADÁ

Cristiano de Oliveira

Saudações, Alvinópolis da eleição pra diretor do colégio

(Perdoem a ignorância, mas eu sinceramente não conhecia eleição pra diretor de colégio. Mas tudo bem, só peço a Deus que a disputa seja limpa e não dê mau exemplo aos alunos. Se começam a inventar que o Candidato A masca fumo, o Candidato B bate pemba e o Candidato C dança gafieira, olha que lição terrível de boataria os alunos tiram da eleição.)

Pra começar, recados diversos:

Marcos Martino, sei como é receber o tipo de crítica que você mencionou ter recebido recentemente, já escutei bastante por aqui também. Deixo aqui o meu apoio a você, e fique tranquilo pois um comentário nocivo traz dez comentários legais. Tomar gol é ruim, mas seu time ganha de 10x1 fácil.

Temperos Dona Zita, de Alvinópolis para o mundo. O que tem de gringo babando atrás dos temperos que eu trouxe não é brincadeira. Já teve gente querendo me contratar pra fazer churrasco em festa por causa do sal grosso temperado. Cê já imaginou uma coreana entrando no molho de pimenta e alho e morrendo de achar bom? E uma família de alemães tacando molho de pimenta na culinária deles? Pois eu vi isso tudo. Os Temperos Dona Zita estão internacionalmente aprovados.

Com o fim oficial do verão, não dá mais pra andar de camiseta. Mas posso assegurar que, apesar de não ter podido viajar mais longe esse ano, a camisa do Alvinopolense foi bem divulgada na cidade de Toronto. Mas ano que vem, me aguardem. Se Deus quiser, o recorde de camisa do AFC mais viajada da história há de ser quebrado pela minha. E a bandeira do Galo vai junto, porque afinal eu ainda acredito no meu Galo de Prata. Se Kalil foi capaz de pagar um milhão pra Vanderlei Pif-Paf perder tudo no pôquer, porque não vai pagar cinquenta merréis num Galo de Prata pra mim, que sou muito mais dedicado ao Galo do que o LuxenTruco?

Gente boa, analise comigo a situação: meu velho amigo, companheiro de Mineirão e leitor assíduo dessa coluna, André Eugênio, me manda um recado avisando que estará passando rapidamente por Toronto e que deveríamos nos encontrar. Eu obviamente respondo que assim será. Até aí, tudo bem. Próximo passo: qual seria o lugar ideal para se levar um turista atleticano, leitor dessa coluna, pessoa de bom gosto e fino trato?

Evidentemente, só um lugar pode atender a esses quesitos. E assim, André foi muito bem recebido na única atração turística de Toronto que tem Graça: Novo Horizonte Sports Bar, o bar da Dona Graça. Teve que conversar com um contador de caso (isso porque eram 4 da tarde. Se fosse na hora da novela, eram 10), tirar foto com o bandeirão do Galo e tomar Brahma long-neck de 5 dólares assistindo Globo Internacional. Mais de 500 propagandas do tipo "Quer voltar pro Brasil? Nós fazemos sua mudança!" De cada duas propagandas na Globo Internacional, uma é oferecendo pra fazer a mudança do camarada de volta ao Brasil. Por que será, hein? Deve ser porque aqui é muito bom e todo mundo quer ficar, né? Ah, quer muito... No fim, é claro, rimos muito relembrando os casos das antigas.

De quebra, o André circulou na área e conheceu o bar onde Tom Cruise filmou "Cocktail", e viu os botecos que foram fechados e disfarçados quando John Travolta gravou "Hairspray" bem no meio da rua dos brasileiros (esconderam todos os brasileiros pra fazer o filme). Bom, depois disso, não havia absolutamente mais nada para se ver na cidade, e ele foi embora.

Uma pena foi ele não ter ficado para o clássico, que aconteceu no fim de semana seguinte. O clássico, apesar da vitória, foi mais uma aventura. Escute a minha história triste.

Cheguei ao bar da Dona Graça debaixo de vaia. A torcida do Cruzeiro era o dobro da nossa. Ao entrar com a minha crista do Dadá, tive que correr pro balcão, onde fundei a minha Geral. Como eu sempre chego atrasado por causa da peste do ônibus que sempre demora no fim de semana, só me resta o balcão mesmo. E lá eu fico, cabeça encostada na estufa das coxinhas.

De repente, começa a festança. Começa a sair gol atrás de gol de Barack Obina. Tinha hora que eu gritava atrasado, pois o silêncio no bar era tanto que eu chegava a achar que a bola tinha ido pra fora.

Quando Montillo perdeu o pênalti para o Cruzeiro, o tempo começou a fechar. Enquanto a torcida cruzeirense ia ficando tensa, o Pelé, que é um daqueles bagunceiros que fala baixinho e passa despercebido, tira da mochila uma buzina do tamanho de um trombone acoplada com fita isolante a um piston de ar. A pior gambiarra que eu já vi, mas fazia um barulho do cão. Quando ele chegou bem de mansinho e apitou a corneta no ouvido da turma logo após o pênalti perdido, parecia bombinha em galinheiro: todo mundo pulou. A coisa começou a complicar, até vizinho chegou reclamando do barulho. Dona Graça tomou a corneta e guardou no balcão.

Quando deu 4 a 1, um moleque tentou pular o balcão e catar a corneta de volta. Ao ser barrado pela Dona Graça, o cara falou alguma coisa pra ela que eu não ouvi. Só sei que deve ter sido algo feio, pois o bicho pegou. Ela saiu queimando de trás do balcão e foi pra cima do cara, ameaçando botá-lo pra fora. De torcedor da geral, tive que virar Coronel Natal e ajudar a apartar a briga. Fiquei com medo que ela jogasse a garrafa de Pitu na cabeça do cara. É ruim, hein? Pitu aqui é 30 dólares a garrafa, moço! Uma porcaria daquelas. Além do prejuízo que ela ia levar, um veneno daqueles ia corroer a cabeça do menino. Não nascia cabelo nunca mais.

Foi sair o segundo gol do Cruzeiro e o meu calvário começou. A começar pelos abraços que a torcida do Cruzeiro sempre tem que me dar. Depois de vários minutos soterrado por centenas de sovacos, voltei a atenção pro jogo em completo desespero. O estresse era tanto que um cruzeirense chegou pra mim, mostrou uma carteirinha e avisou: "Só pra te avisar que eu sou paramédico, se alguma coisa acontecer você pode ficar tranquilo que eu vou saber o que estarei fazendo". Acho que foi aí que eu fiquei mais tenso. Além de achar que o Galo ia tomar uma virada horrorosa, comecei a achar que eu ia morrer.

Dona Graça passa por mim e diz: "Respira. Respira." Aquilo foi igual extrema unção. Comecei a medir meu pulso, embora eu não faça nem ideia como é que se mede pulso.

Pois veio o terceiro gol, e aí é que a tragédia quase cantou. No susto do gol, joguei a cabeça pra trás de uma vez e ali fiquei, imerso na minha dor de torcedor, sem perceber que estava empurrando a estufa das coxinhas. Enquanto Dona Graça gritava, "As coxinha, as coxinha!", seiscentos cruzeirenses vinham pra cima de mim parecendo vítimas do Topa Tudo por Dinheiro indo pra cima do Ivo Holanda. O que eles queriam? Rá, cê tem dúvida? Me dar abraço, pra variar. Quando aquele muturu caiu por cima de mim, agarrei a minha Brahma pra ver se ao menos reduzia o prejuízo total em 5 dólares. Sei lá quem segurou a estufa, só sei que todo mundo sobreviveu, apesar do paramédico não ter saído mais do meu lado depois disso.

Dona Graça passa de novo: "Cê vai passar mal aí..."

Tentei me controlar. Se eu passasse mal poderia causar sérios prejuízos ao estabelecimento. Com a quantidade de gente ali que devia estar ilegal no país, imagine se para um carro com sirene ligada na porta do bar? Seja lá que carro for, pode ser até caminhão de gás: não fica um freguês. Todo mundo acha que é imigração e foge do jeito que dá. E o bobão lá, passando mal sozinho no chão. Nessa hora ninguém lembraria de dar abraço, né?

Mas eu segurei o rojão, e no fim eu finalmente comemorei vitória em clássico naquele bar. E foi bem legal, ficou todo mundo em paz, me pagaram cerveja, um clima tranquilo de tudo, sem nem sombra de briga. Bom, é como eu sempre digo: a polícia aqui sonha com briga de brasileiro. É a chance que eles têm de descer a borracha em um monte de brasileiros e ainda botar todos na cadeia. Portanto, a turma toda fica sempre calminha. Mas no dia do clássico, a paz ali parecia natural mesmo, sem pressão externa. Comi meu X-Egg Bacon, paguei minha conta e fui, eu mesmo, abraçar os cruzeirenses antes de ir embora.

Meu povo, então é isso aí. Obrigado a todos pela preferência de sintonia e boa noite, torcida mineira.

Apita Antônio Barcelos Filho: Errrrrrrrrrgue os braços!

 

Cristiano de Oliveira é mineiro de BH, residente em Toronto no Canadá.

Já visitou Alvinópolis inúmeras vezes.

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