O ATLETICANO E A BEBIDA AO VOLANTE

 

Cristiano de Oliveira

 

 

(Esse texto foi escrito semana passada, às vésperas da minha viagem ao Brasil. Atualizá-lo vai ficar complicado, já estou no Brasil, já vi o jogo do Onze Sem Calças contra o Barcelona (que fez grandes partidas contra o Real Madrid Tchó Tchó e o Ibagué Zero Quatro, mas parou no Manchester Manisales) e agora tenho que levar vó ao supermercado. Então vai assim mesmo.)

 

 

Saudações, Alvinópolis do Rio do Peixe

 

Meus amigos, agradeçam todos os dias por vocês estarem empregados, terem 4 dias de Semana Santa e 5 de Carnaval, fora cervejinha gelada na sexta-feira e futebol de graça na televisão no domingo e quarta-feira. Por aqui, a situação está tensa. Lá no Bar da Dona Graça, como o tempo melhorou um pouco (“melhorar” significa que tá chovendo, tá frio, mas pelo menos está acima de zero e a neve derreteu), o povo tem até ido ao bar, mas quantidade não quer dizer qualidade: só estão pedindo cerveja barata, tipo a Cintra do Canadá, agarrando na garrafa e bebendo devagarinho pra ela não acabar, e o mais triste da história: jogando purrinha com moeda de UM CENTAVO. Você reconhece a pitimba de um povo quando vê aposta de moeda de um centavo. Pra você ter uma ideia, o cachaceiro mais famoso da comunidade brasileira outro dia estava lá e sóbrio! Em oito anos, eu nunca tinha visto o cara em pé sem se apoiar em alguma coisa. E a imprensa daqui só dá notícia boa, pois assim mantém a imigrantada de cabeça baixa e trabalhando sem chiar, então ninguém sabe mesmo o que está acontecendo.

 

No Brasil, a imprensa bate com força, né? Mas em algumas figuras, eles bem que passam a mão na cabeça. Veja aí o Aécio, que foi parado na blitz da Lei Seca no Rio com a carteira vencida. A imprensa mineira deu uma notinha e correu rapidinho pra debaixo do tapete outra vez. Morrendo de medo dele, como sempre. Nunca vou me esquecer daquele jogo Brasil e Argentina no Mineirão. A torcida gritou um negócio lá dizendo que ele e o Maradona gostavam de Otrivina, mas a Rádio Itatiaia, amigona dele, disse que estava sendo aplaudido de pé. E noticiar uma coisa como essa da blitz não significa obrigatoriamente esculhambar o cara. Comentar a notícia serve até pra explicar as coisas. Pelo pouco que foi publicado, por exemplo, eu entendi que ele mora no Rio. Isso é meio estranho, deve haver uma explicação, mas pelo que deu pra entender da notícia atabalhoada, parece que a residência dele fica no Rio de Janeiro. Juntando isso às fotos dele nas noites cariocas que circulam por aí, o camarada acaba concluindo que ele passa longe de Minas Gerais.

 

 

Mas isso foi bom pra me lembrar de um assunto que eu ainda não havia comentado. Vamos explicar o que acontece quando alguém é parado pela polícia daqui depois de tomar uns Camparis a mais. Vou me basear na lei do estado de Ontário.

 

Se o cara tiver tomado umas doses de Jurubeba Leão do Norte a mais, ele pode estar sentado no carro parado, que a polícia já tem o direito de enquadrar. O carro nem precisa estar em movimento. Com 0,08% de álcool no sangue, ou se recusando a soprar o bafômetro, a casa cai: para os infratores de primeira viagem, você leva 90 dias de suspensão da carteira, tem que atender dois programas de reeducação, 150 dólares de multa, 7 dias de apreensão do veículo, e em caso de condenação, multa de 1000 dólares e suspensão da carteira por um ano. Mas ainda tem um castigo maior: o famoso Ignition Interlock. Depois que sua carteira é devolvida, os caras instalam um bafômetro na ignição do seu carro. Sempre que você entra no carro, tem que soprar o negócio. Se o aparelho pegar meia dosinha de Conhaque de Alcatrão São João da Barra no bafo do cara, mesmo sendo o conhaque do milagre, nem por milagre o carro liga. Você tem que ficar com isso no carro por um ano. Se o nível de álcool no sangue estiver entre 0,05 e 0,08, a vida é mais mansa: só seis meses de bafômetro na ignição e suspensão do veículo por 3 dias.

 

O duro mesmo é quando o cara é parado pela terceira vez: o bafômetro na ignição passa a valer pro resto da vida. E caso seja condenado, é um mínimo de 120 dias em cana e suspensão da carteira por no mínimo 10 anos.

 

Eu conheci uns brasileiros que tiveram que usar esse Ignition Interlock. O negócio é ligado ao carro e não pode ser removido. Assim, qualquer um que dirija aquele carro também tem que soprar pro carro ligar. De tempos em tempos, com o carro em movimento, o negócio emite um alerta avisando que você tem que soprar outra vez. Soprou e veio Underberg com Soda no hálito? O alarme começa a tocar e piscar farol até você desligar o carro. E se te pegam fazendo trambique no bafômetro ou dirigindo outro carro, uma multinha de mil dólares está esperando, além da extensão do período de uso do aparelho.

 

Fato é que lei é lei, tem que ser cumprida por todo mundo, seja senador ou seja amansador de jumento. A polícia aqui tá cansada de parar brasileiro que acredita que lei boa é aquela que pega os outros mas o libera. O cara realmente acha que o policial vai olhar nos olhos dele e reconhecer a pureza de quem só tomou uns Cortezanos.

 

Deixa pra lá. Eu tô tenso porque estou desorientado aqui com minhas malas. Pela primeira vez em oito anos, vou ao Brasil fora da época do Natal. Como será ver final de Campeonato Mineiro aí depois de tanto tempo? Como estará o clima? E o trânsito, que é 100 vezes pior do que em janeiro? A cabeça tá mais carregada que carrinho de pipoqueiro.

 

 

E pra terminar em total paz de espírito e sempre investindo pesado no projeto MIDÁ O GALO DE PRATA (Momentos Inesquecíveis Do Atleticano Objetivando Galo de Prata), eu acho que não tinha mostrado essa foto aí pra vocês não, né? Pois é, fui convidado para fazer escalada indoor, e a bandeira teve que ir junto. Ao chegar lá em cima, com a ajuda da amiga palmeirense, abrimos a bandeira. Os sem-vergonhas que estavam no controle da corda, uma corintiana e um cruzeirense, de sacanagem, soltaram as nossas cordas de segurança até perto do chão. Quando finalmente seguraram a corda de novo e tiraram a foto, eu não conseguia nem falar, só tremia, mas a bandeira eu não larguei. Foi até lá embaixo levada no dente!

 

No mais é isso. Tô estressado aqui. Tenho que levar pouca coisa, pois na volta tem que caber uma bola de 1kg e duzentos de queijo do reino, duas garrafas de cachaça boa (porque eu não vou pagar 30 dólares em um litro de PITÚ no Canadá) e três baldes de paçoca do Rei do Amendoim. Só itens de primeira necessidade da cesta básica do brasileiro que mora longe. E se tiver Temperos Dona Zita à venda em Belo Horizonte também, vai ter que ir. É bom demais ver gringo vermelhão depois de provar o molho de pimenta.

 

Até já, então.

 

Apita Antônio Barcelos Filho, errrrrrrrrrrrgue os braços.

 

Cristiano de Oliveira é mineiro de BH, residente em Toronto no Canadá. Já visitou Alvinópolis inúmeras vezes.

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