UM ATLETICANO FORA DO PAÍS

DURANTE A COPA

 

Cristiano de Oliveira

 

 

 

Saudações, Alvinópolis da festa da chita.

 

Em primeiro lugar, estou indignado que ninguém notou minha ausência na última Coluna do Alvinopolense. Cês vão tudo se lascar, bando de ingrato. Eu aqui, rapaz trabalhador, escrevendo em nome da alegria do povo alvinopolense e, se possível, de um Galo de Prata também, e é esse retorno que eu recebo: o esquecimento do povo. As lágrimas correm em minha face. A indignação do trabalhador é muita. Mas não vai passar em branco não! No dia em que eu receber o título de cidadão honorário de Alvinópolis, eu vou falar isso no meu discurso de posse. E vou discursar quase uma hora, só de ruim que eu sou.

 

Bom, deixa pra lá. Como todo mundo, eu tô estressado com a eliminação do Brasil na Copa do Mundo. Mas peraí: eu disse "todo mundo?" Não é bem assim não.

Bem-vindos ao meu mundo, jovens.

Pra nós brasileiros, Copa é aquele momento em que os torcedores de todos os times se unem pra torcer pro Brasil. Todo mundo esquece as diferenças e torce junto, é ou não é? Pois quando você sai do Brasil, convive com um fenômeno que eu nunca tinha visto na vida: estar cercado, diariamente, por pessoas que torcem contra.

 

Nesse canto de mundo esquecido de Deus chamado Canadá, o bicho pega. Na Copa passada, eu assisti a quase todos os jogos em um bar perto da firma onde eu trabalhava, já que ninguém aqui é liberado pra assistir jogo. Então eu tinha que sair pra "tomar um café" e voltar só uma hora e meia depois. Mas tudo bem, pois o Canadá funciona segundo o Método Vampeta: você finge que trabalha, os caras fingem que acreditam. O duro é que o cara que tomava conta do bar durante o dia era um moleque canadense que torcia pra QUALQUER TIME que jogasse contra o Brasil. Parecia de propósito. Cê via de longe que o cara não sacava nada de futebol, mas fazia questão de ficar falando bobagem e me fazendo raiva. Mas como era um só, eu achei que era um caso isolado, e assim passou a Copa de 2006.

 

 

Pois agora veio a Copa de 2010, e com ela uma novidade: pela primeira vez a TV aberta do Canadá, através do canal estatal, transmitiu a Copa ao vivo. Em 2006, só quem tinha TV a cabo assistiu. Pra mim, que tô desempregado, Copa ao vivo na TV aberta foi uma beleza. Ao mesmo tempo, o canal botou página no Facebook, transmitiu jogo para telefones celulares... muito legal, alvoroçou o povo, mas ao mesmo tempo fez o monstro da torcida contra crescer.

É impressionante. Se fosse em um país que também estivesse na Copa... Mas no Canadá? Um país que nem gandula consegue mandar pra Copa (peraí, correção: mandou um bandeirinha)? O que explica o fenômeno? Bom, uma coisa seria aquele negócio que todo mundo tem de torcer pro time mais fraco. Mas tem outro detalhe: a mídia do mundo inteiro cobre futebol europeu 100 vezes mais que o nosso. Aos poucos, fica mais fácil ver o que a TV manda do que ver cinco estrelas no nosso peito. A gente aparece uma vez a cada 4 anos, os europeus estão toda semana na televisão mundial. A moral que nós temos vai diminuindo a cada nova geração, e os clubes europeus vão puxando torcida pras seleções dos seus países. Quer exemplo? Duas frases que eu li no Facebook da CBC, canal estatal que transmitiu os jogos aqui no Canadá:

 

"Não entendo. Até o Brasil está nessa Copa, como é que o Canadá não conseguiu entrar?"

"Legal. Mais um time idiota está fora. Falta só o Uruguai" (quando fomos eliminados)

 

 

Bom, isso foi certamente escrito por gente muito nova e desinformada. Mas já mostra como as coisas estão caminhando. Ah, menino, mas eu já ouvi pior por aqui. Os caras te chamam de "samba boy", dizem que o Brasil não tá com nada, que é muita conversa pra pouca bola, e torcem contra com toda a força.

E é por isso que eu digo: não se iluda se o presidente do seu time chegar dizendo que o time é mundialmente famoso. Ele está tentando enrolar você, pois NENHUM time brasileiro é mundialmente famoso. É o amansa-torcida mais fácil que um presidente pode usar, pois ele sabe que ninguém vai conseguir checar a informação direito. Time da América do Sul pode ser campeão mundial 50 vezes, pode entrar pra 800 rankings que ainda assim ninguém conhece. E não falo isso só por escutar canadense não. Eu convivo mais com europeu do que com canadense. E não dá outra: Mundial Interclubes, os caras nem assistem. Time da América do Sul, nem conhecem. Outra dia eu assisti a um jogo da Alemanha ao lado de um cara nascido e criado em Dortmund, torcedor do Borussia, e o cara NÃO SABIA que o time dele tinha sido campeão mundial em cima de um tal de Cruzeiro, de quem ele nunca tinha ouvido falar. Pra eles, o Mundial é amistoso. Então, enquanto a FIFA não divulgar o Mundial na Europa e criar lá a tradição que o torneio tem na América do Sul; enquanto as televisões do mundo não se interessarem em mostrar nossos campeonatos; enquanto não houver ao menos um sul-americano na semifinal de toda Copa do Mundo, essa situação não vai mudar.

Mas o mais difícil da história não é nem quem torce contra o Brasil. O duro são os 500 mil comentários de canadenses do tipo "futebol é chato", "fã de futebol é assassino que mata os jogadores quando seu time perde", "futebol não tem lugar no Canadá", "jogo que termina empatado em 0x0 é um absurdo", "como pode uma pessoa fingir que está machucada pra cavar falta"... e por fim, o mais famoso: "hóquei que é bom". Hóquei, meus amigos. No gelo. Aquele que ninguém consegue ver a bola. Um patinador se jogando em cima do outro igual aqueles Holiday on Ice que tinham no Mineirinho antigamente. Saem no tapa, dão soco um no outro, e depois do jogo vão jantar juntos. Brigam no jogo igual luta livre do Marreta Valentino e do Sheik do Irã, tudo de mentirinha. É duro. E o pior é que eu sou menino educado, quando eles vêm falar de hóquei comigo, ao invés de cortar seco igual eles fazem, eu ainda dou assunto.

 

E pra completar, a tragédia máxima: no dia do jogo da Holanda, eu garanti meu lugar no bar da Dona Graça e comecei a tomar minha Brahma Long Neck, cinco dólares cada, mas pra ver o Brasil ou pra ver o Galo eu até pago. Quando eu estava na terceira, Dona Graça chega pra mim e fala, de sacanagem: a Brahma hoje é 10 dólares. Aí eu chamei o desfibrilador. Achei que eu ia passar mal. Até descobrir que era brincadeira dela, o meu óleo já tinha baixado há muito tempo. Coitada, acabou pagando com juros, pois depois do segundo gol da Holanda a pressão dela disparou. Correu o bar inteiro pra socorrer.

 

Ah, mas peraí que a tragédia não acabou não. Analise comigo: quando a seleção é eliminada da Copa, no Brasil todo mundo chora junto, não é? As ruas ficam vazias. Um clima de fim de Carnaval. Só tristeza pra todos os lados.

 

 

Então, bem-vindos ao inferno! Pois nós aqui tomamos BUZINAÇO DE HOLANDÊS. Os fariseus de laranja desceram todos pra rua dos brasileiros, onde fica o bar da Dona Graça, buzinando e com os bandeirões alaranjados pra fora dos carros. Alguns passaram A PÉ mexendo com a gente! Só não joguei minha Brahma neles porque, por 5 dólares a Long Neck, até pra jogar o casco no lixo é difícil. E um grupo grande de holandeses ocupou o único bar não-brasileiro da rua e depois do jogo ficou na porta esperando os brasileiros passarem. Depois de perder na Copa, meu irmão, cê vem me enrolar em bandeira laranja e fazer hora com a minha cara... Como é que um cara desse não tem medo de morrer? Ah, eu explico: Copa do Mundo é alegria da polícia. Os caras devem fazer até bolão pra ver quem vai prender mais brasileiro. Onde tem brasileiro, tem a polícia marcando em cima, doidinha pra confusão começar e eles terem desculpa pra sapecarem a borracha. Com isso, você olha pra um lado e tem um holandês te enchendo o saco, olha pro outro e vê oito policiais com aquelas pistolas de choque, o taser, na mão. Nessa hora, só resta olhar pra cima e pedir pra um piano cair em cima de você. Ou um cofre, uma bomba, o Yustrich pra ajudar na briga...

 

Mas ó: no fim das contas, a Copa podia ter sido bem melhor pro Brasil, mas pelo menos eu dou os parabéns ao Dunga por ter botado a imprensa no seu devido lugar e por ter feito o que acreditava, e não o que um monte de repórter mandou.

Ah, e não se esqueça de assistir ao meu sensacional vídeo do Carnaval de Alvinópolis desse ano. Como dizia o Sílvio Santos quando anunciava O Homem Que Veio do Céu, "você vai se emocionar". Ah vai muito...

 

Apita Antônio Barcelos Filho, errrrrrrrrrrrrrrrrgue os braços.

 

Cristiano de Oliveira é mineiro de BH, residente em Toronto no Canadá.

Já visitou Alvinópolis inúmeras vezes.

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