O ATLETICANO NO BAR DA DONA GRAÇA

EM TORONTO

 

Cristiano de Oliveira

 

 

 

Saudações, Alvinópolis do Festival da Canção de Idade Polêmica

 

O frio deu uma aliviada aqui pra nós, está fazendo em média 16 graus durante o dia com sol, e com isso a gente finalmente tira o casaco e aproveita pra tirar o gesso também, afinal essa época do ano é a mais mal-assombrada que tem aqui. Às vezes você está na rua e vê uma assombração. Quando ela se aproxima, você vê que na verdade é só uma canadense branquelona de short e camiseta, e aí você conclui que se fosse assombração era melhor, pois com a assombração ao menos daria pra conversar sem ouvir muita brutalidade. Bom, fato é que todo mundo fica doido pra tirar as roupas de inverno, e aí só dá perna branca pela rua. No dia que eu botar bermuda, o reflexo do sol na minha perna vai até arder os olhos.

 

E a melhoria do clima coincide com a fase final do campeonato mineiro e da Copa do Brasil, o que deixa todo mundo doido. O tempo tá bom, o campeonato na fase final... não dá pra ficar dentro de casa, especialmente porque não passa futebol na televisão. Só tem uma provedora de TV a cabo do Canadá que oferece a Globo Internacional, mas assim mesmo você paga 35 dólares no pacote básico e mais 15 só pela Globo. E isso pra ver os jogos de quarta-feira com um atraso de 50 minutos. PFC, só nos EUA tem. No Canadá, onde o governo é o mais burocrático que eu conheço, o PFC ainda não foi aprovado. Levaram cinco anos pra aprovar a Globo e estão há oito anos negociando com aquele canal Al-Jazheera. Bom, então a gente se vira. Antes era só arrumar uma antena tipo aquelas da Sky, apontar pro satélite americano, fazer umas configurações e pronto, pegava o PFC. Só que agora houve uma recodificação geral do sinal dos satélites de tv norte-americanos, e  não adianta que não pega, a menos que o camarada compre um receiver que conecta com a internet, o que sai caro e pode dar encrenca. Há quem assista diretamente pela internet, no monitor do computador. O problema é que o sinal pode cair a qualquer momento, a imagem nem sempre é boa, e o pior: não tem resenha esportiva depois. E eu não aguento fazer resenha esportiva via Internet não. A raiva se o Galo perde é muita, eu acabo digitando os palavrões todos errados e ainda arrisco quebrar o teclado.

 

Toronto - Canadá

 

Bom, e então, como a gente faz pra ver o Galo em Toronto? A solução é o bar da Dona Graça. Ela veio de BH pra cá mais ou menos quando eu vim, há 7 anos. Em BH, foi dona de um trailer de sanduíche na Avenida Mexiana por muito tempo, e agora é a proprietária do Novo Horizonte Sports Bar, o único lugar de Toronto que vende X-Tudo (embora sem abacaxi, o que é um desacato), e onde você encontra a Brahma mais gelada da cidade (pois canadense bebe cerveja quente). Ela é cruzeirense, mas os netos são atleticanos, então todo mundo ali é bem-vindo. E não pode dar briga, pois afinal, tudo que a polícia quer é motivo pra prender logo uns 40 brasileiros de uma vez.

 

O único problema é que a maioria dos mineiros aqui vieram de Ipatinga, onde cruzeirense é o que não falta. Com isso, a gente inevitavelmente passa por momentos complexos. Como, por exemplo, naquele 5 a zero do Cruzeiro no Mineiro de 2008. Eu era um dos três torcedores do Galo ali, contra uns 30 cruzeirenses. Sabe a torcida do Boca, que quando sai gol corre em direção ao alambrado igual doido? Pois é, a torcida do Cruzeiro ali fazia exatamente o mesmo a cada gol, só que o alambrado era eu. E o pior: eles vinham é pra me dar abraço! Nunca ganhei tanto abraço de cachaceiro num dia só, saí de lá cheirando a porta-copo de papelão. Quando saiu o quarto gol, eu tentei ir embora mas uns 5 caras bloquearam a porta da rua. No quinto gol eu corri pro pátio do bar e pulei a cerca.

 

 

 

Mas também tem alegria, como por exemplo o título mineiro desse ano, o qual eu obviamente comemorei com a crista do Dadá Maravilha na cabeça. Imagina um gringo andando pela rua, as pernas muito brancas, que de repente dá de cara com um elemento na porta de um bar com uma crista de galo na cabeça?

 

Aí vem a tristeza de novo, com o fracasso total pra cima do Santos. Foram duas partidas em que o desfibrilador da Dona Graça teve que ficar de prontidão. No primeiro jogo eu quase morri engasgado com um pedaço de X-Tudo que eu cismei de comer bem na hora do jogo e bem na hora em que saiu gol. Quando o segundo jogo acabou, eu acho que xinguei tão pouco que Dona Graça veio me dar conselho. “Você tem que tomar cuidado com esse nervosismo todo. Conheci um vendedor de Chips no Mineirão que enfartou por causa do Atlético”. Eu disse a ela que o problema devia ser o Chips, mas no fim ela tem razão. Com o vendedor de Chips, acho que já cataloguei 250 histórias de pessoas que enfartaram por causa do Galo. E nessa eleição aí, eu sou candidato sério a ocupar a cadeira 251.

 

No mais é isso, Não tô bom pra conversar muito não. Galo foi eliminado, eu tive que operar o olho essa semana e tô enxergando tudo dobrado, a empresa onde eu trabalhava fechou e com isso eu tô trabalhando de casa e consequentemente assistindo Alterosa Esporte pela internet todo dia... ah, cê tá achando que isso é bom? É porque você vê pela TV. Tenta ver pela internet encarando aquele videochat do inferno onde só cruzeirense pode mandar recado pra Dadá! Não, não tô bom pra conversa não.

 

No mais é isso, depois tem mais prosa.

 

Rola o coco mariinha, que o coco é pra rolar.

Apita Antônio Barcelos Filho, errrrrrrrgue os braços!

 

Cristiano de Oliveira é mineiro de BH, residente em Toronto no Canadá.

Já visitou Alvinópolis inúmeras vezes.

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