UM ATLETICANO NA FRANÇA

PARTE IV, AINDA EM PARIS

Cristiano de Oliveira

Calma que tá acabando. Agora é só essa, mais uma depois, e aí morreu Maria Preá.

Saudações, Alvinópolis, terra do muro da escola.

(esse muro já é candidato sério ao troféu POLÊM 2010. Vamos ver se em dezembro a gente consegue avaliar qual foi a maior polêmica de 2010).

Resumo do capítulo anterior: Zeca Diabo bota as irmãs Cajazeiras pra correr atrás de Dirceu Borboleta. Jairo dá carona pra Cinira na Marinete, mas ela passa mal e tem que tomar Dramin. Cristiano ainda está em Paris, carregando a bandeira do Galo pra todo canto, passando aperto e tentando falar "galo de prata" em francês.

Pois é, gente boa, é agora que eu mereço Galo de Prata mesmo. Estou no Brasil, mas ao invés de bater um almoção e deitar no sofá com o cachorro pra ver Dadá Maravilha e Globo Esporte na sequência, esse batalhador vai direto pro computador escrever as histórias da bandeira viajante, na esperança de dar alegrias ao povo amigo do Alvinews. Isso é dedicação! Isso é compromisso! E é por isso que eu digo: Kalil, colabore com a caixinha de Natal do colunista. Deposite qualquer Galo de Prata no posto de coleta do Alvinews mais perto de você.

Então vamos lá. Estamos em Paris, onde o seu dinheiro não é a Roberta Miranda, mas ele também vai com Deus. Eu andava encantado com a quantidade de CD e DVD brasileiro nas prateleiras das lojas (497 vezes mais variedade do que no Canadá) e com a propaganda do McDonald’s que tinha Minha Menina, dos Mutantes, como trilha sonora. Ao mesmo tempo, eu não estava nem um pouco encantado com o cheiro da cidade, com o preço das coisas ou mesmo com a comida. Que coisa perturbadora era ver o povo comendo queijo de sobremesa depois do jantar, enquanto no café da manhã o queijo era uma fatiazinha que vinha embrulhada num plástico. É por isso que eu digo: a Cotochés de Abre Campo é 500 vezes melhor que Paris inteira. Já a de Rio Casca é só 250 vezes melhor. E isso porque eu não estou botando o Beleu’s no meio, senão vira covardia.

Paris é o cemitério do seu dinheiro, onde tudo é tão caro que o brasileiro vê o preço do cafezinho e puxa talão de cheque pra pagar. E cada um se vira como pode: o assédio dos milhares de camelôs que ficam em volta da Torre Eiffel tentando vender réplicas da torre por um euro chega a ser irritante. E não adianta recusar uma vez: um por um, todos eles chegam pra oferecer as mesmas miniaturas. Eu nem incomodei, pois senti que estava evoluindo: até bem pouco tempo, camelô queria me vender giz chinês de matar barata, agulha de aço pra desentupir fogão a gás, suporte pra óculos, mola maluca... Agora, tentavam me vender miniatura da Torre Eiffel. É o magnata do Shopping Oi!

Mas confesso que a irritação com os camelôs virou pena quando vi que todos eram imigrantes africanos, todos tinham que fugir da polícia, e mesmo no domingo à noite, debaixo de chuva, lá estavam eles com suas miniaturas. Lembrei que eu também sou imigrante, e que só quem passa por isso sabe onde o calo aperta.

Daí eu fui à Catedral de Notre Dame, que me assustou. De igreja, infelizmente ali já não tem nada. Centenas de turistas circulam falando na maior altura durante a missa. Uma brasileira, achando que ninguém ali entendia português (todo brasileiro cai nessa), falava com a filha, "ih, tem que pagar pra acender uma vela. Ah, mas não tem ninguém olhando não, tem?" Uma morena de shortinho curto e salto catéter ("salto agulha" é muito pequeno perto daquilo) abraçava uma imagem e gritava pro namorado tirar foto. Virou forró de turista.

 

Mas o momento mais complexo foi quando resolvi fazer um passeio turístico de barco pelo Rio Sena. Lá vai o barco cruzando a cidade através do rio, com a gravação do guia falando dos pontos turísticos, passando embaixo das pontes... Tudo lindo, musiquinha tocando... Pois é, até que chega uma ponte em que o guia fala que há uma tradição de fechar os olhos e fazer um desejo ao passar debaixo dela. A turistada toda obedece, mas o brasileiro, acostumado a passar debaixo de viaduto e passarela, dá aquela olhada providencial pra cima da ponte e vê um bando de menino dando tchauzinho. O desejo que eu fiz pra ponte foi um só: sair fora dali. Menino é menino em qualquer lugar do mundo, e não deu outra: quando o barco chegou perto, foi um tiroteio de cuspe do alto daquela ponte, tão violento que parecia que os meninos tavam treinando com Mulá Omar. Como eu já estava de olho nos moleques há mais tempo, deu tempo de fugir passando por cima de uma dona e acertando a orelha de um americano que estava na minha frente (pena que ninguém entendeu os gritos de "é cuspe!!"). Mas foi por muito pouco, porque a molecada treinou artilharia pesada mesmo! Muita gente no barco levou o seu. Esses meninos de hoje devem ter desenvolvido alguma técnica de cuspir, recarregar e cuspir de novo em dois segundos. É essa tecnologia afetando nossas crianças... Antigamente se cuspia nos outros com mais amor, né não?

Meus nobres leitores, então tá bom. Acho que agora eu mereço o sofá e o Globo Esporte. Vou lá assistir, pois dizem que Luxemburgo vai contratar um pastor alemão como novo auxiliar técnico pra treinar o jogador a não ser mordido se a bola cair perto do guarda da PM.

Nó, quem quer Galo de Prata não pode ficar falando essas coisas não. É mentira, viu? É mentira. Tô brincando, eu tô pondo fé mesmo pra 2010. É piadinha de líder, como dizia o Kalil.

E no mais é isso. Na próxima edição, vamos para o sul da França pegar praia. E no Carnaval, se Deus quiser, estarei visitando Alvinópolis mais uma vez.

Apita Antônio Barcelos Filho: errrrrrrgue os braços!

Cristiano de Oliveira é mineiro de BH, residente em Toronto no Canadá.

Já visitou Alvinópolis inúmeras vezes.

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