O ATLETICANO NA FRANÇA

PARTE FINAL

 

Cristiano de Oliveira

 

 

Saudações, Alvinópolis, terra do Festival da Canção de 30 anos de idade.

 

Vou começar dando um recado: o primeiro que vier me perguntar se eu vou viajar de camisa rosa com a bandeira vai morrer. É, Kalil... por essas e outras, o meu Galo de Prata já se faz mais do que merecido, pois agora o meu trabalho de divulgação internacional do Galo precisa pagar adicional de insalubridade. Pra divulgar o Galo internacionalmente agora, eu preciso escutar 500 vezes mais encheção de saco do que normalmente eu já escutava. Isso é pior que trabalhar em mina de carvão. Portanto, Kalil, jogue aí um Galo de Prata no acordo salarial com o SIACABA – Sindicato dos Atleticanos Carregadores de Bandeira.

 

Antes do Carnaval, eu vinha contando pra vocês sobre a gloriosa viagem da bandeira do Galo pela Europa, e nós estávamos em Paris, né? Bom, sobre Paris eu já contei o que eu fiz. Fiquei lá, passando na porta do Moulin Rouge e pronunciando palavrões diversos ao saber do preço do ingresso, visitando a mercearia que ficou imortalizada no filme O Fabuloso Destino de Amélie Pouland, fuçando as lojas de conveniência pra ver o que eu achava de comida e refrigerante diferente... ah é, esqueci de mencionar isso: todo lugar que eu vou, experimento algum refrigerante local. Exemplo: no Maranhão, tomei Guaraná Jesus, mas o trem é tão ruim que deviam mudar o nome pra Guaraná Judas. Na Itália eu vi uma Fanta preta. Não resisti e comprei pra experimentar. Parecia que eu tava mordendo a casca de uma árvore e tomando chá de losna ao mesmo tempo.

 

 

Mas ó, sinceramente: não gostei de Paris, não. Assim como não gostei de Londres, e também não vejo graça nenhuma em Toronto. Em todos os países, pra mim, a verdade é uma só: a vida fica muito mais gostosa quando a gente vai pro interior. E lá fui eu pro sul da França, visitar as pequenas cidades da costa azul.

 

Lorgues é uma cidade medieval, bem pequena e bem simpática. Cada construção ali é do tempo do boitatá. No meio daquilo tudo, uma feira aos sábados. Ô feira boa. Era cada tempero, azeite, carne, linguiça, queijo, torrone (lá chama nougat), sabonete... E tudo isso gozando do sagrado direito que aqui no Canadá nós não temos: o de sentar em uma mesa na rua e tomar uma cerveja. No Canadá é proibido beber cerveja em área aberta. Tem que ter pelo menos um cercado. Aí ficam 500 se acotovelando dentro do curralzinho e ninguém do lado de fora.

 

E lá fui eu pra praia. Peguei o trem de Les Arc pra Nice, e uma das paradas do trem era em Cannes. Era exatamente o dia de abertura do festival de cinema, então o trem estava cheio de gente indo pra lá. Todo mundo tão emperequetado que parecia concurso de sósia da Maria Alcina. O que faz um camarada se vestir todo cheio das coisas pra depois ficar amassado à beira de uma corda, só pra ver Angelina Jolie passar? Se ainda fosse a Gretchen...

 

Antes que você pergunte: não, não fui ver o Festival de Cannes. Segundo a turma da região, só doido vai a Cannes em época de festival. Não dá nem pra andar, e não tem nada de especial pra ver. Programa de turista desavisado. A não ser que você tenha um convite pessoal pra jogar purrinha com Carla Bruni. Aí é outra história, mas DESDE QUE você saiba falar “lona” em francês. Do contrário, vai passar vergonha e é melhor não ir.

 

 

 

A praia de Saint Tropeito

 

Bom, aí eu fui a Nice pegar praia. Chegando lá, uma notícia boa: a praia era de pedrinha, então nada de areia agarrando. E uma notícia ruim: não tinha bar na praia. Aí é complicado, pois praia pra mim significa cerveja na sombra. Não posso pegar sol não que eu queimo fácil. Bom, mas não tinha bar, então o negócio era pegar firme com o filtro solar fator 940 e dar uma nadadinha naquela água muito azul. Não tinha bar, mas tinha vestiário, então eu fui lá, paguei uns centavos e botei meu shortão do Galo em paz. Voltando à praia, comecei a notar um negócio: o topless era geral, sem preconceito de idade. E ninguém nem se incomoda. Tive um problema muito sério na hora, me deu crise de estrabismo. O olho ganhou vida própria, ficava só seguindo o alheio.

 

Pois é, né? Tava tudo bem, e como já dizia o Manhoso, “taí a moda, roupa pouca muito pouca, juventude muito louca, minha vó tinha razão.”

Mas alegria de pobre dura pouco, e como sempre, tinha que sobrar pra mim. Quando eu cansei de nadar naquela água GELADA (esqueci de avisar: pra quem falar que a água do Mediterrâneo é quentinha, pode trucar porque é mentira!), voltei ao velho vestiário pra trocar de roupa. Ah tá. Tava fechado. E agora? “Pode trocar na praia mesmo, ninguém repara essas coisas não”. Sério, a dica que recebi foi essa. Era só jogar uma toalha na frente e pronto. Se acidentalmente aparecesse um bundão branco ali, tava tudo em casa. Ah, meu jovem, aí travou-se o duelo dentro da cabeça do indivíduo: de um lado, o homem sistemático da roça. Do outro, o cidadão do mundo, viajante, descolado, culto, cabeça aberta, sem barreiras ou preconceitos...

 

 

Resumindo: ganhou o da roça. Fui da praia até a estação de trem, cruzando todo o centro de Nice (inclusive a Galerie Laffayete), de short do centenário do Galo pingando pela rua e a camisa molhada da metade pra baixo. Entrei no trem, sentei e respirei aliviado. Cê acha que acabou? Alguns minutos de alívio e a peste do trem para em Cannes outra vez. Parecia entrada de baile de formatura. Quinhentos mil engomadinhos entram no trem, e a minha cadeira empoçando. Só pensei uma coisa: “esse trem pode cair dentro do Rio Arrudas que daqui eu não saio”. Chegando à minha estação, o Aquaman atleticano sumiu dali. Eu não sou Créu, mas saí dali na velocidade 5.

 

E assim foi. Acho que a história acabou, mas a minha cabeça é ruim, posso ter esquecido de alguma coisa. Se eu lembrar, na próxima eu conto.

 

No mais, complete a frase: “Rola o coco mariinha...”

Apita Antônio Barcelos Filho, errrrrrrrrrrrrrrrrgue os braços.

 

Cristiano de Oliveira é mineiro de BH, residente em Toronto no Canadá.

Já visitou Alvinópolis inúmeras vezes.

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