MIDÁ

MOMENTOS INESQUECÍVEIS DO ATLETICANO

 

Cristiano de Oliveira

 

 

Saudações, Alvinópolis de Adairinho

 

Nem havia me recuperado ainda da perda de Tetêga, da qual só fui saber no fim do ano passado, quando chega a notícia de que Adairinho também nos deixou. É mais um golpe duro no esporte de Alvinópolis. Que dureza, parece que foi ontem que eu estava filmando Adairinho pulando Carnaval na Baixada na maior alegria, com sua camisa do Cruzeiro e rodeado de gente que queria tirar foto com ele. Que isso seja a prova de que ele não será esquecido. A toda a família, o meu respeito e meus sentimentos.

 

Amigos, cês vão me desculpar, adoro vocês, adoro a cidade, terra muito boa, todo mundo é gente boa, etc etc... mas ô purgantada que tá esse mural do Alvinews com essa eleição. Se o mural tá assim, imagino no meio da rua. Tudo bem, é discussão saudável e democrática, mas sei lá, a maioria dos comentários ali tem mais cara de matéria paga do que de análise sensata. É 90% balanga-beiço e 10% fato. Graças a Deus eu não estou aí, do contrário acho que eu já tinha batido muita boca.

 

Mas no fim, pior do que alvinopolense batendo boca por causa de política é emigrante brasileiro que não pisa no Brasil desde que o Titanic afundou falando de política. Chega a ser engraçado de tão triste, porque ninguém aqui sabe absolutamente nada. Se você mandar um e-mail falando que o Serra usa saia godê ou que a Dilma fez Interlace, os caras vão chegar na praça jurando que é verdade. É um festival de asneira que mata qualquer um. Se eu, que vou ao Brasil todo ano e não passo um dia sem ler jornais e blogs brasileiros, ainda perco o fio da meada às vezes, imagina o povo que não sai daqui e só lê e-mail e jornal comunitário? Chegam até a acreditar que o Cruzeiro vai ser campeão.

 

Bom, eu vou ficar de fora do bate-boca, mas tem só uma coisinha que eu preciso mencionar: a choradeira generalizada sobre a eleição do Tiririca.

 

 

Muito fácil sair por aí dizendo que o povo é burro, né? Mas cuidado, pois esse tal “povo burro” às vezes tá mais perto do que você pensa, viu? Às vezes tá do outro lado do espelho. Esqueça os nomes e analise por esse lado: em São Paulo ganhou um comediante da televisão. No Rio, tivemos ex-jogadores da seleção e ator de novela. Em Minas Gerais, tivemos jogador do Atlético, repórter, filho de presidente de time de futebol... Pra mim, a diferença é só que o Tiririca não tem dente, enquanto o resto deve usar rôte (antes que Rossini me corrija, a escrita correta seria roach, mas escrever aportuguesado é bem mais divertido). Essa turma toda foi eleita simplesmente por ter a cara conhecida. “Ah, mas o Tiririca é analfabeto”. Dos distintos que eu citei aí em cima, você já leu alguma coisa que eles escreveram? Sinceramente, eu conto nos dedos de uma mão as pessoas que sabem realmente escrever hoje em dia. Não estou nem um pouco satisfeito com a eleição do Tiririca não, só acho que tem muito telhado de vidro falando demais e batendo no peito por aí.

 

E chega de política também. Eu tenho muita coisa pra fazer. A temperatura aqui tá caindo, e com isso começou a temporada das pragas urbanas. É só começar o frio e todo bicho dessa terra resolve vir pra sua casa. Ontem eu levantei no meio da noite pra tomar água, passou um rato correndo em cima da pia. Só não morri do coração porque sou atleticano. Torcer pro Galo é musculação cardíaca, o coração sofre tanto que a gente cria um preparo físico excelente pra esse tipo de situação. Só sei que o rato tava lá na cozinha. Aqui não dá outra, todo mundo fica com a casa cheia de rato quando começa a esfriar. Éééé, tá achando que é bonitinho morar na América do Norte? Vem pra cá matar rato com a gente pra você ver que jóia que é! A minha sorte é que todo ano vou a BH, passo na Casa do Fazendeiro e encho o balaio de Rodilon, que não é Ratex 10 mas é o novo Racumin. Tiro e queda. É botar à noite, de manhã não sobrou nada. Acho que o prato brasileiro mais querido do Canadá é o Rodilon. Tempos atrás, eu tinha um estoque aqui que os ratos descobriram onde estava, furaram oito sacos no dente e comeram tudo. Deve ter morrido até a vó do rato. Ou será que não? Eu já tô encucado, porque quanto mais eu boto veneno, mais rato aparece. Ou o cheiro tá atraindo a família inteira com agregados e tudo, ou então... Não sei não, aquele saquinho cheio de comprimidinhos azuis... Será que ao invés de veneno eu tô dando Viagra pros ratos?

 

Pior é o tal do guaxinim. Aquele da mancha preta em volta do olho, sabe? Apesar de ser muito bonito, aquele bicho é o capeta. Se morder você, pode dar tapa na veia porque vai ser a noite inteira tomando vacina no hospital. O bicho é boca suja mesmo, come lixo, pombo, qualquer coisa que der pra mastigar. Hoje de manhã a varanda da minha casa parecia sacolão: tinha alface, banana, talo de maçã... e pegada de guaxinim pra todo lado. Deve ter assaltado uma lixeira e jantado na porta de casa. E se ele se sentir ameaçado, ataca mesmo. Sempre achei que era um bicho assustado, mas uma vez eu estava num churrasco e assim que escureceu, o bichão simplesmente pulou de cima de uma cerca e caiu bem ao lado da mesa. A cena me lembrou aquelas câmeras escondidas do Ivo Holanda. Não ficou um na mesa. Largaram tudo lá pro guaxinim.

 

 

E como a falta de assunto por aqui tá grande, eu vou fazer uma coisa que há muito tempo eu queria: iniciar o projeto Momentos Inesquecíveis de um Atleticano (MIDÁ), que consistirá em uma série de relatos dos meus feitos em nome do Galo, e que após completado será a base da minha aplicação para o Galo de Prata. Não faço ideia de como seja uma aplicação pra Galo de Prata, mas a essa altura já tá valendo tudo.

 

O primeiro relato eu fiz na minha primeira participação no Alvinews: a van de cruzeirenses que me atacou. Hoje contarei a triste história do menino Cristiano que queria ouvir Atlético e Mamoré, mas tinha prova de Engenharia de Software na faculdade.

 

Lembra aquela época em que o Campeonato Mineiro tinha jogos à tarde, em dia de semana? Foi lá pelos idos de 1995. Cristiano era um jovem bravo e audacioso, com cabelos esvoaçantes ao vento e a cabeça totalmente fraca. Pois o clássico Atlético e Mamoré caiu bem no horário da prova com o Professor Pasteur, um torcedor do América altamente sistemático. O que é uma prova de Engenharia de Software comparada a um jogão desses? Cristiano corajosamente botou um fone de ouvido e deixou o outro ouvido livre pra captar a colaiada típica que circula entre jovens honestos e estudiosos durante as provas.

 

 

Pois no momento em que o narrador Willy Gonzer gritou emocionado no rádio que o lateral direito Dinho havia finalmente acertado um cruzamento, Cristiano, que se encontrava em meio a uma operação de captação de informações sobre a prova com o coleguinha de trás, perdeu o controle do volume da própria voz e falou, um pouco alto demais, alguma bobagem com o colega. O barulho chamou a atenção do professor, mas o que realmente o deixou encafifado foi aquele fião branco saindo da orelha do ruidoso aluno e entrando debaixo da carteira. Ao chegar lá, ver o fio ligado a um radinho de pilha amarelo-táxi (cinco reais no camelô da Rua Guarani) e conhecendo bem o distinto aluno à sua frente, entendeu logo a empreitada e gritou: “Ah, não! Jogo do Galo no meio da minha prova?” Pior que eu acho que a resposta foi algo do tipo, “Pô, é contra o Mamoré, fessô...”

 

Mais uma história, mais um passo em direção ao Galo de Prata. E se na hora do julgamento Kalil não acreditar na história, Juninho será convocado para dar depoimento, pois ele foi testemunha desse caso aí.

 

E no mais é isso mesmo. Mês que vem tem mais. E dezembro tá chegando e minha passagem tá comprada. Preciso ir ao Brasil saudar a chegada do Caio e dar uma força ao Vô Magela dele pra gente tentar a difícil tarefa de convencer uma criança a ser atleticana. Tem que começar cedo.

 

Xô ir embora então.

Apita Antônio Barcelos Filho, errrrrrrrgue os braços.

 

Cristiano de Oliveira é mineiro de BH, residente em Toronto no Canadá.

Já visitou Alvinópolis inúmeras vezes.

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