O ATLETICANO TOCANDO NA NOITE CANADENSE

 

Cristiano de Oliveira

 

 

 

Saudações, Alvinópolis.

 

Chega até a azedar a garganta só de pensar em Zezé Perrela senador. E se fosse Kalil? Mesmo azedume! Futebol e política é coisa que não devia poder misturar. Dá uma ressaca danada. Enquanto isso, nós vamos passando raiva. Todo mundo. Uma turma tem que encarar Brandão, enquanto nós aqui colocamos Guilherme no nosso time do Cartola SporTV e não podemos tirar, porque o valor dele é tão baixo que se tirar não dá pra comprar outro. E isso sem falar no meu pai passando raiva com o Coelhão: depender dos gols do Menino de São Pedro da Cabeluda (Fábio Júnior) e Alessandro Galoucura acaba com o cristão.

 

Aliás, deixe-me explicar essa história: o povo de lá diz que o nome da cidade é São Pedro do Avaí, mas se você perguntar a qualquer pessoa da região, especialmente de Caratinga ou Manhuaçu, vai descobrir que o nome histórico mesmo é São Pedro da Cabeluda. Como sou filho de caratinguense, não posso deixar morrer a tradição. A Cabeluda é do povo e o Avaí não vai tomar.

 

E hoje eu não estou bom, não! Acabei de ver um negócio revoltante aqui. Fim de semana passado, fui fazer um show com a bateria da escola de samba numa espécie de exposição no interior, e eles tinham aquelas barraquinhas de jogos. Aí tinha aquele jogo de martelar um alvo e fazer um pino subir e tocar uma sineta lá no alto do mastro, cê já viu aquilo? Acho que é coisa de filme, né? Não me lembro de ter visto isso em exposição no Brasil. Bom, pois aqui tinha um daqueles e eu fui lá marretar o negócio. Concentrei-me, peguei um impulso do inferno, rodei o braço e sapequei a marreta com tanta força que senti que minha camisa subira e a calça baixara um pouco. Pois não é que um salafrário de um canadense tirou uma foto na hora certinha em que deixei aparecer o pavio da vela atrás e botou no Facebook? Esse povo não vale a ficha de telefone que você gasta pra ligar pra eles. Eu levei uma cachacinha de Salinas na viagem, trazida do Brasil, o cara tomou umas 400 doses por minha conta... Foi só eu virar as costas e o pilantra está lá tirando foto pra me sacanear.

 

Aliás, isso me faz pensar em uma coisa: com o pouco que cantei e toquei em Belo Horizonte, eu já achava que a vida de músico não era nada fácil. Depois que vim pra cá, tive certeza absoluta, confirmada em cartório e impressa em formulário de três vias. Pelo amor de Deus, se eu juntar tudo que já tive que encarar tocando nas noites canadenses, dava um filme tão triste que Marcelino Pão e Vinho perto dele ia parecer chanchada.

 

Em abril mesmo teve uma errada. Chamaram a bateria pra fazer um show em Montreal. Um pegou carona com o outro, e foi todo mundo pra lá. Disseram pra levar saco de dormir, pois o pessoal ia arrumar um lugar pra gente ficar, mas não ia ter cama. Pois bem: apesar desse tempo todo morando aqui, eu nunca havia percebido que eles não vendem aqueles colchonetes de enrolar que a gente compra no Brasil pra ir pescar, sabe? Nunca me dei conta, e sempre achei saco de dormir ruim porque esquenta muito. Assim, inocentemente, saí pra comprar um colchonete e catei o primeiro que eu vi. Ao menos era a coisa que mais parecia um colchonete na loja.

 

Ao chegarmos à cidade, fomos direto para o local do show. Foi um show muito bom, embora a cerveja que nos prometeram tenha saído na base do cupom: cada um tinha dois cupons de chopp, e quando fui pegar o meu, a moça do bar ainda me deu dura pedindo gorjeta. Aqui é assim, gorjeta é 15% e é obrigação: se você não der, o cara te esculhamba todo. Nem o músico escapa. Ah, e o chopp não tem nada a ver com o do Brasil não, viu? É só uma cerveja que sai na torneira. A torneira, coitada, é igual o ladrão do Rio Arrudas: quando abre, não passa nada que presta.

 

Ao fim do show, todo mundo estava pregado, pois em Toronto as festas acabam no máximo às 2 da manhã, quando a venda de bebida alcoólica fica proibida. Pois em Montreal o povo não para não, eram 3 da manhã e o forró comia solto. Eu só queria ir dormir. Comemos um negócio num boteco 24 horas e pegamos um táxi para o alojamento.

 

 

Alojamento?? Rá... O lugar era uma academia de capoeira. O pessoal do grupo de maracatu que abriu o show já estava lá, todo mundo dormindo. Portanto, tivemos que entrar na academia sem acender a luz. Naquela escuridão, eu só percebia duas coisas: os roncos e aquele cheiro de meia suja que academia geralmente tem. Sentia que o chão era forrado por uma espécie de tatame, mas não dava pra ver nada, eu só sabia que estava cheio de gente dormindo ali. Abri o tal “colchonete”, joguei no primeiro lugar que eu vi e me deitei. Foi o mesmo que deitar em uma folha de jornal. Eu já pesquei muito com meu pai, e tinha certeza de que colchonete não era daquele jeito.

 

De manhã, quando a luz entrou na academia, eu concluí o que foi que eu tinha arrumado: o colchonete na verdade era um daqueles tapetes de borracha de ioga, e eu joguei a praga do negócio exatamente no MEIO do tatame. Dormi mal e acordei rodeado por 450 pés das outras pessoas que dormiam ali. Um tiroteio de chulé alheio na minha cara, e eu ainda estava cansado, queria tentar dormir de novo. Virei para o outro lado e ali havia uma menina dormindo de calça jeans e sem cobertor. Bom, não é todo dia que um cidadão em situação péssima dá de cara com tão bela guarnição de retaguarda perdida em meio a tanto pé fedendo. Pensei, agradecido: “Quando tudo está lascado, lembre-se que ao menos a gente ainda pode contemplar as montanhas”. Foi só pensar e a mulher se levantou para ir embora parecendo que tinha pulga no colchonete. Tentei fingir que estava dormindo pra ela não me pegar ali de olho na butique e enfiei a cara no tatame, que fedia mais que lixo de barraca de praia. Fiquei ali quietinho, esperando que ela juntasse os bagulhos e fosse embora. A cada respirada que eu dava, era como se 70 capoeiristas suados e carregando um gambá no bolso entrassem dando estrela dentro do meu nariz.

 

Ah, e pra completar: lembra do tal “negócio no boteco 24 horas” que eu comi na noite anterior? Disseram que era especialidade da cidade, eu quis conferir: era um sanduíche recheado com 300 quilos daqueles embutidos que vende em lata, sabe? Acho que os caras fritaram aquilo, vinha brilhando de tanta gordura. No dia seguinte, cinco horas de viagem até em casa dentro do carro dos outros... A barriga gritava injuriada. A cada ronco que ela dava, eu puxava um assunto novo pra despistar o barulho. Quando eu vi que já estava dando recomendação de veneno pra rato e traduzindo marchinha de Carnaval pro inglês, desisti e deixei a cuíca roncar.

 

Acabei de lembrar que até hoje não contei o caso do cara que ficou cego no meu show de voz e violão. Essa vai ficar pra outra ocasião, agora é hora de começar a preparar as matulas, pois na próxima edição, a bandeira do Galo vai voltar pra estrada. É o Galo de Prata chegando mais perto! Mês que vem no Alvinews.

 

Apita Antônio Barcelos Filho, errrrrrrrrrrrgue os braços!!

 

Cristiano de Oliveira é mineiro de BH, residente em Toronto no Canadá. Já visitou Alvinópolis inúmeras vezes.

Contato :

 

Colunas anteriores