UM ATLETICANO SENTADO NA CERCA

VENDO A POLÍTICA DE LONGE

 

Cristiano de Oliveira

 

 

Saudações, Alvinópolis do Fonseca revoltado.

 

Tudo tranquilo aí? Por aqui vai tudo do mesmo jeito. O verão acabou de vez, já tá dando 14 graus à noite. Sexta passada já não deu pra ficar no pátio do Novo Horizonte, o bar da Dona Graça. Aliás, deixa eu explicar esse negócio de pátio que volta e meia eu menciono. As leis daqui não permitem que você beba em área pública. Assim, se o bar quer liberar as pessoas pra beberem do lado de fora, tem que oferecer uma área cercada. É o que chamam de patio, em inglês, e aí a gente aproveita e chama de pátio também. E ai de quem sair do pátio pra rua com cerveja na mão.

 

Pois é, o problema dessa época é que tá frio pra ficar do lado de fora, mas lá dentro todas as portas e janelas ficam fechadas, e a Dona Graça agarrada na chapa fritando bacon até cair pra trás. Se a gente fica lá dentro, fica igual aquele cara que vende batatinha na exposição: chega em casa, basta torcer a camisa em cima da frigideira que dá óleo suficiente pra fritar um ovo. Sinceramente, eu preferi encarar o frio sexta-feira.

 

E no momento delicado que o Galo vive, eu parei de assistir aos jogos lá. Não dá não. Tem um cruzeirense que cada vez que eu encontro com ele, ele tá mais bêbado e com um dente a menos. Não sei como o cara consegue perder tanto dente. Só sei que ele passa duas horas falando: primeiro fala que antes de cruzeirense é mineiro, que não gosta de ver o Galo assim, etc etc... e de repente dana a rir da minha cara. Aí recomeça, dizendo que é um absurdo, o Galo merece respeito... e começa a risaiada de novo. Eu não dou conta não, fico tentando sair fora, mas o cara vai atrás. Portanto, em dia de jogo, eu vou ficar em casa brigando com as péssimas transmissões via Internet.

 

Cristiano comemorando 150 matérias escritas para o Jornal brasileiro de Toronto

 

 

Meus amigos, é época de eleição. Bate-boca pra todo lado. Eu fico no meu canto só escutando. Todo mundo tá com a razão. Todo mundo tem absoluta certeza da besteira monstro que está falando, e bate o pé que é verdade. Todo mundo quer falar alto. É de lascar o cano. O que me vem à cabeça é o seguinte: adoro o Brasil. Se eu já gostava do Brasil, depois que saí daí é que aprendi que não existe lugar melhor no mundo. Se alguém falar mal de brasileiro perto de mim, tá lascado! Nó, eu endoido. Mas entre a gente, a gente pode falar. E eu tenho que falar mesmo: brasileiro é sensacional, mas é um povo muito trabalhoso. Atualmente, aquela frase que circula por aí se aplica a muito brasileiro: “Todo mundo fala em deixar um mundo melhor pros nossos filhos. Mas alguém tem tratado de deixar filhos melhores pro nosso mundo?” Tem nada. Vou dar um exemplo com o que vejo aqui:

 

- Se entra alguém dentro do metrô falando bem alto, há uma grande chance de ser  brasileiro.

 

- E como confirmar se é ou não é? Basta esperar um pouco que ele entrega a rapadura. Se o cara, além de falar alto, começar a falar mal de todo mundo que está no metrô em português, achando que ninguém vai entender... É caixa.

 

- O indivíduo para o carro bem ao lado do bar com o som no máximo, estourando um pagode. Mas se a polícia pegar, dá encrenca. O que o cara faz? Passa dois minutos parado ali, pagodão rasgando as caixas de som, ele do lado de fora do carro fazendo pose... e depois monta no carro de novo e some. Nem que seja por dois minutos, o elemento precisa desrespeitar a lei pra poder dar uma aparecida. E pela música tocando no carro, a gente desconfia de onde ele vem...

 

- Quem é que não fala nada de inglês, mas jura que fala? Ou então que vem pra cá porque acha que é bom demais pra viver num país como o Brasil, e que só o primeiro mundo vai saber dar valor ao talento fenomenal dele? Que dureza... o primeiro mundo está doido é pra conhecer o talento dele comandando uma vassoura.

 

- Sabe aquele cara que chega no bar e se apresenta assim pra você, “Oi, meu nome é Deusdéti, eu sou advogado”? Aqui tem algo parecido. É o cara que chega e fala em inglês pros gringos: “Oi, meu nome é Deusdéti, eu sou brasileiro”. Parabéns pra você, Deusdéti, mas só que ninguém perguntou, e embora ser brasileiro seja um negócio muito legal, não faz com que você seja melhor ou pior que ninguém. Bom, geralmente ninguém dá a mínima pra esse tipo de exibição, mas se algum canadense quiser quebrar o galho do cara, como também não sabe nada só vai conseguir falar alguma coisa do tipo, “Oh, Brasil? Futebol, carnaval?” Aí Deusdéti arranca a roupa. “Iéééé, ié, ié, futebol, Pelé. You know Pelé? More good Maradona cem times”.

 

- E ainda tem a trambicagem. Cara pega celular de graça na operadora e volta pro Brasil sem cumprir o contrato nem pagar multa. Estoura o cartão de crédito e volta pro Brasil com o dinheiro. Faz contrato de aluguel e vai embora sem cumprir o contrato. Aí o bobão aqui vai tentar alugar um apartamento e escuta assim: “Me desculpe, mas não alugo pra brasileiro. O último aqui me deu cano”. Não adianta nem passar perfume. Falou que é brasileiro, o cara usa a casa até pra criar galinha mas não aluga.

 

- É triste ver os meninos que vêm estudar inglês aqui em Toronto. Sinto informar, senhores pais, mas o inglês do seu filho continua a mesma porqueira que sempre foi. A última coisa que eles fazem aqui é ir à escola. Matam aula todo dia, e toda noite vão pras boates se entupirem de Ecstasy. Um dia eu passei em uma escola muito popular entre brasileiros aqui, e ao chegar à recepção vi um quadro de avisos que me chamou a atenção: era um calendário de festas. O roteiro da noitada da semana inteira ficava todo ali. De segunda a domingo sem parar, que nem cantiga de grilo. Parecia a Selegalo. Nem Renato Gaúcho e Neto juntos conseguiriam farrear tanto. Já vi muito menino novo de família boa que veio estudar e a cabeça FRITOU, pois menino com dinheiro no bolso, sem pai ou mãe num raio de 900 mil quilômetros e a vasta oferta de comprimidinhos que há aqui... rá, o último que eu vi baixou a calça no meio de uma boate.

 

No fim, meus prezados, eu acho que o brasileiro precisa ter mais humildade, além de pensar mais no próximo. Porém, também tem que levantar esse queixo e deixar de ser chorão. Ser uma pessoa humilde, mas um brasileiro orgulhoso. Parar de achar que do Brasil só se salvam futebol e samba. Parar com o Complexo de Vira-Lata. O brasileiro sempre jura que é o mais sofrido. Acha que mora na fossa do mundo. Que tá tudo ruim, e que o resto do mundo inteiro tá melhor. Vira pra mim e fala, “Você é que é esperto e saiu daqui.” Isso me deixa doido.  O cara tá empregado, tomando cervejinha gelada a dois reais, com temperatura agradável, amigos de confiança à volta, família reunida no domingo, vendo jogo na televisão ou no campo, em um país no qual ninguém dava nada 20 anos atrás e que hoje cresce a olhos vistos e ganha o respeito do mundo... e ainda continua reclamando. Outro dia tinha uma menina na Internet se rasgando de reclamar de Belo Horizonte. Eu falei com ela o básico: “Sai daí, ué. Eu um dia estava assim também, e saí. Eu me arrependi depois, mas saí”. E a resposta da revoltada? “Arruma um emprego pra mim que eu saio.” Ah, então tá. E depois, posso trazer um cafezinho e a conta? Reclamar é muito fácil, mas como dizia o sábio Valtinho, o melhor ator de procissão de sexta-feira da Paixão que o mundo já viu: se jogar uma enxada pra cima, ninguém pega.

 

 

Eu não gosto de ficar dando lição de vida, nem acho que tenho caixa pra ensinar nada pra ninguém. Mas quando o mel ferve eu saio falando. O dia em que eu olhei à minha volta e me vi num país estranho, sem amigos, sem família, sem emprego, morando em um quarto com um colchonete, uma cadeira de escritório e um espelho, tudo tava ruim, sabe o que eu fiz? Fui trabalhar de graça por alguma coisa em que eu acreditava. Sem ter nenhuma expectativa de retorno. Trabalho voluntário em dois lugares, pela mesma causa. Um belo dia, um cara que passava por um desses lugares comentou comigo sobre um emprego do qual ouvira falar. Fui atrás e fiquei com o emprego. Isso aí ainda aconteceu mais duas vezes, e me deu um rumo melhorzinho. Fora a paz de espírito por estar fazendo alguma coisa pelas pessoas, ao invés de bater o bundão na cadeira e ficar resmungando “a culpa é do governo” pelos cantos.

 

Só uma curiosidade: sabe qual era a causa em que eu acreditava, e acredito ainda, pois ainda sou voluntário nos dois lugares desde 2003? Na minha comunidade. Nos brasileiros. Um lugar é o jornal da comunidade, o outro é um centro comunitário de apoio e integração para brasileiros que moram aqui. Nosso povo tem defeitos como todo mundo, mas tem qualidades até cair pra trás também, e não dá pra desistir dele. Esculhambei bem a turma aí pra cima, mas tô agarrado com ela pra fazê-la melhorar. Porque no fim, Ilderaldo que me permita, o brasileiro é complicado mas “é um rapaz inteligente que indubitavelmente sobrepujará as maledicências vis, mundanas e ignóbeis que porventura sobrepusera o seu caminhar.”

 

Já falei demais. Mas fique tranquilo que eu só costumo falar assim uma vez por ano. Agora eu sossego e volto a contar meus casos em paz.

 

Apita Antônio Barcelos Filho, errrrrrrrrrrrrrgue os braços!

 

PS. Dentre esse povo de quem eu falei que a gente não pode desistir, por favor excluam Diego Souza e Diego Macedo. E avisem a Jataí que ele é o próximo.

 

Cristiano de Oliveira é mineiro de BH, residente em Toronto no Canadá.

Já visitou Alvinópolis inúmeras vezes.

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