O ATLETICANO NA REPÚBLICA TCHECA

 

Cristiano de Oliveira

 

 

Saudações, Alvinópolis do Festival da Canção.

 

É sempre uma alegria ver que mais um festival da canção de Alvinópolis saiu. Mas ó, festival é o tipo do negócio que, se deixar, morre fácil. Não pense que é igual Carnaval e todo ano ele vai estar lá, não. Se o pessoal não der força, morre facim, facim. Um festival como esse não só serve de palco para os talentos locais, como também traz influências, contatos, inspiração e até mesmo a pressão positiva da concorrência para eles, através dos músicos que vêm de fora. E músico, meus jovens, é produto tipo exportação de Alvinópolis. É orgulho da terra mesmo, e o Festival é mais uma perna dessa aranhona que é a tradição musical de Alvinópolis. E aranha sem perna não se segura na teia. Portanto, os meus parabéns pela realização e toda força ao Festival da Canção de Alvinópolis.

 

E agora é hora da sensacional resenha esportiva. E no meu sermão de hoje, falarei aos irmãos cruzeirenses. Não, não vou falar que depois de 6 anos enchendo meu saco por causa do ingresso a 5 reais, vocês estão fazendo exatamente a mesma coisa agora. Vou mexer com isso não. Cada um com seus problemas, e eu já cheio deles. Eu só quero dizer uma coisinha: caindo ou não caindo, por favor, não cometam o mesmo erro que nós, atleticanos, cometemos. Lembrem-se sempre de quem foi que colocou vocês nessa situação. Ricardo Guimarães montou um time lamentável e rebaixou o Galo, mas hoje, se você perguntar, ninguém nem se lembra disso. Com dinheiro em cima de um monte de jogadores que estão por aí (inclusive Dedé do Vasco, sensação do campeonato), não vê UM dirigente do Galo que não se deite no chão pra Ricardo Guimarães passar por cima. A maioria não lembra, e outros não querem lembrar o que ele fez. Portanto, aconteça o que acontecer, lembrem-se sempre de Zezé Perrela. Ele estava aí outro dia, pedindo que o julgassem pelo conjunto da obra. Mas quando perguntado sobre quantos títulos deu ao Cruzeiro, veio dizer que deu o Brasileiro de 68. , o cara estoura o time todo e ainda faz hora com a cara da torcida? Por isso é que eu digo: mantenham a memória viva, especialmente em época de eleição.

 

Pois muito bem. Na última edição, depois de tomar chuva na cabeça todos os dias, eu estava pronto pra deixar Berlim num cheiro de mofo danado. As roupas todas molhadas, as fotos estragadas, pois a lente da câmera ficava cheia de gotas e o modelo aqui vivia todo molhado... e pra variar, o jumento viajou com o sapato mais confortável que tem, esquecendo que o sapato é confortável exatamente porque já tem quase dez anos e um furo do tamanho do Mineirão na sola. Pisei só em 800 poças de água, e minhas meias já pareciam pano de chão.

 

 

Mas imbuído do espírito guerreiro, lá fui eu pra Praga, na República Tcheca. Ainda no aeroporto de Berlim, indo para o embarque, já deu neurose: o avião era daqueles de hélice. Já entrei estressado. E se um urubu bate na hélice? Porque se tiver um urubu por perto e ele por acaso ficar sabendo que eu, o homem mais fechado do Brasil, estou dentro do avião, ele vai bater. Afinal, se houver uma camisa branca e preta pendurada em um avião tcheco durante uma tempestade, o urubu torce contra a hélice. Bom, como eu estou vivo e escrevendo, podemos concluir que não existe urubu na Europa.

 

Quando eu cheguei ao aeroporto de Praga, a coisa que mais me assustou não foi nem o fato de o aeroporto estar praticamente deserto, nem o fato de eu não entender absolutamente nada do que estava escrito por ali. O que me deixou encucado foi uma invenção revolucionária que eu vi lá: a máquina de flores. É sério, ela fica lá, cheia de buquês dentro da vitrine. Você bota uma moeda e a máquina lhe dá um buquê. Mas rapaz, que negócio bem bolado, hein? Imagina levar uma dessa pro Brasil? Pinta do lado dela com uma letra bem legal, "OFERENDA-MATIC 2000", e leva pra praia no reveillon, ó que doido! A turma quer mandar oferenda pra Iemanjá mas esqueceu de trazer flor? É só comprar ficha pra máquina com Tio Oliveira e a sua mironga tá curada, como dizia Bezerra da Silva.

 

 

E saí do aeroporto pra caçar meu hotel. O negócio em Praga é o seguinte: tem o centro histórico da cidade, que é mais antigo do que a furadeira que Noé usou pra fazer a arca. Ele fica bem no meio da cidade, e recebe o nome de Praha 1. Aí a cidade foi crescendo em volta dele, e cada bairro foi ganhando um número. Aí vai: Praha 2, Praha 3... O número vai aumentando, e você nota que a cidade muda completamente à medida em que a gente se afasta do centro. Mas ó, vou ser sincero: por mais que eu tenha alergia a amontoado de turista, dessa vez eu fiquei bem quietinho no meio da turistada, agarrado em Praha 1. Não saí do centro histórico pra nada. Eu queria ver o estádio do Sparta, que fica em Praha 7, mas desisti. Sair do centro é osso: primeiro, o que é interessante mesmo na cidade é o centro histórico. Segundo, imagina a distância de Praha 1 a Praha 7? Terceiro, a única palavra que eu sei de tcheco é "pivo", que significa "cerveja". Apesar de ser a palavra mais importante para o sucesso de uma viagem, ela não ia me ajudar muito se eu ficasse perdido. Quarto, troquei de celular no Canadá e peguei um com GPS em um plano muito mais barato, só que o plano é exatamente mais barato porque não funciona fora do país. E é lógico que eu só fui descobrir isso quando já estava lá, pois afinal, se houver uma camisa preta e branca pendurada em um celular durante uma tempestade, o GPS torce pela fedazunha da operadora canadense.

 

Ah, mas peraí que eu tenho que voltar nesse assunto da língua. É aquele negócio, né? Quando você vai à França, Espanha, Itália... sempre dá para entender alguma coisa do que o povo fala. Mas tcheco, meu amigo, não sai nem com boa vontade. Pode ler e reler, pode pedir pro camarada falar devagar... Se o cara falar "Pelé" e "Ronaldinho", ainda assim é capaz de você não entender. E o inglês? Também não faz milagre, tem muita gente que não fala inglês por lá. No café da manhã do hotel, passei meia hora lutando para explicar pra atendente que eu queria adoçante. Fiquei lá, “Su-í-te-ner. Po-zi-nhô. Tssss tssss no có-fe”. E fazia o "tsss tsss" com a mão assim em cima da xícara, como se tivesse esfarelando, sabe? A mulher vinha e me dava mais 15 saquinhos de açúcar de beterraba. Ô fracasso. Só não fiquei doido porque era uma loura de lascar o cano e faltar corrente na bobina. Aliás, que inferno de lugar pra ter mulher bonita. Dá até vergonha, porque andando na rua, é completamente impossível não olhar. Ainda bem que eu tenho uns óculos escuros próprios pra esse tipo de situação: são mais escuros do que os de Ray Charles pintados com óleo de motor. Mas são importados, viu? Da marca Asê de Urubuzê (esse nome é francês pesado, cê não entende não).

 

 

No mais, eu vou parar por aqui porque o fim de ano tá chegando e eu preciso trabalhar pra garantir o financeiro e poder descer pro Brasil no Natal. Afinal, Natal é com vó. Nunca passei Natal fora de casa, e não vai ser agora que eu vou inventar moda. A próxima coluna já vai ser entregar e erguer os braços pra ir embora. Esse ano vai dar tragédia, pois não consegui passagem no vôo direto pra São Paulo, vou ter que fazer escala em Miami. Pô, Miami não... Mil vezes não... É uma sacolada danada naquele vôo. Entra matuto carregando boneco do Mickey de três metros de altura e declarando como bagagem de mão. Família voltando da Disneylândia com seis meninos de uma vez, todos gritando na sua orelha. Uma vez entrou um senhor carregando um som do tamanho de um bonde, tentando entrar como bagagem de mão passando bicaria no piloto. "Da próxima vez eu despacho para o bagageiro, deixa eu levar esse hoje?" Atrasou o vôo e ainda ocupou um bagageiro inteiro com aquela pilantragem. Portanto, é osso, e eu vou chegar a BH já altamente mais ou menos. Mas pra passar Natal em casa, tá valendo até se a escala for no Iraque.

 

Apita Antônio Barcelos Filho, errrrrrrrrrrrgue os braços!!

 

Cristiano de Oliveira é mineiro de BH, residente em Toronto no Canadá. Já visitou Alvinópolis inúmeras vezes.

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