O ATLETICANO NA REPÚBLICA TCHECA

 

Parte 2

 

Cristiano de Oliveira

 

 

Saudações, Alvinópolis da tragédia.

 

Claro, pois só pode ter resultado em tragédia o desastre da última rodada. Mas eu nem consegui pensar no sofrimento de vocês. Vocês vão me desculpar, mas de sofrimento eu já tava cheio na hora daquele desacato que foi aquele jogo. Caí na bobagem de assisti-lo no bar da Dona Graça. Ô roubada. O jogo não passou nem na Globo Internacional e nem no PFC, então Dona Graça teve que botar a imagem da internet na televisão pra nós. Muito ruim. Fora que o bar lotou, e eu bem no meio com a minha crista. Como não tinha mesa, ficaram uns oito cruzeirenses à porta, ou seja, não tinha como sair. Lá fora, a temperatura estava em 2 graus, então ninguém abria a porta também. O bar abafado, cruzeirense gritando, a tragédia baixando... E o pior é que os cruzeirenses conhecidos, das antigas, ficaram com medo do rebaixamento e foram ver na casa de um cara. Só ficou cruzeirense recém-chegado, e aí é osso.

 

Recém-chegado acha que aqui é Brasil e sai mexendo com todo mundo, doidim pra ver o pau quebrar. A gente, que já conhece o riscado, tem que ficar botando pano quente pra eles não irem pra cadeia, porque deve ter gente ali sob risco de deportação. Ficamos eu e um outro cruzeirense antigo posando de "bancada democrática", naquele papo de ruim de "não pode brigar, 'queisso' gente, é tudo na paz, etc etc etc" pra amansar o povo. Briga em bar brasileiro, como eu já disse, pra polícia é o mesmo que ganhar na loto. Prendem logo uns 30 e desses ainda deportam uns 15. Bom, só sei que, quando saiu o sexto gol, eu aproveitei que a torcida da porta começou o festival de abraços e corri pra lá. Se deu briga depois, não sei, mas eu saí dali até espumando, e graças a Deus, sem ter que abraçar ninguém. Como eu disse outro dia no mural, vou começar a cobrar juros no meu Galo de Prata. Se continuar passando vergonha desse jeito, eu vou exigir o Galo de Prata e um Poleiro de Prata adicional.

 

Pois é, por falar em Galo de Prata, continuamos com a viagem da bandeira do Galo a Berlim e a Praga, em mais esse episódio do projeto MIDÁ O GALO DE PRATA (Momentos Inesquecíveis Do Atleticano Objetivando Galo de Prata).  Eu não vou esticar muito o esquema hoje não, porque essa é a famosa semana do desespero. É a última semana do ano no Canadá, pois no fim de semana eu já desço a serra pra passar o Natal com vó. Finalmente, tá na hora de ir pra casa, e só faltam umas 800 coisas pra arrumar por aqui antes de descer, portanto sejamos breves.

 

 

Muito bem. Lá estava eu, em Praga, na República Tcheca, a cidade que botou Mutum no bolso, pois Ô TERRA pra matar gente. Eu me lembro que meu pai dizia que em Mutum, "quem não morreu, mandou matar". Pois Praga é uma versão Sexta-Feira 13 de Mutum, porque o assunto ali é só morte. Ali, a Idade Média chegou e parou. Inclusive eu não recomendo a visita para pessoas sensíveis ao sobrenatural. Em uma cidade onde cortar cabeça em praça pública era serviço feito no atacado - cortavam logo uma dúzia de uma vez, a ponto de um dia faltar lâmina de machado na cidade -, onde se espetava cabeça cortada na entrada da cidade pra enfeitar o portão, e que é cheia de caminhos subterrâneos onde quem entrava geralmente não voltava, é de se esperar que alma penada não falte. Já não bastasse o clima sinistro da arquitetura da cidade, ainda tem essa: todo ponto turístico tem uma tragédia no meio. O lugar mais famoso da ponte é de onde atiraram São João Nepomuceno no rio. Tem uma igreja famosa por ter a mão cortada e mumificada de um ladrão bem na entrada. Mais adiante fica a torre onde um cara foi condenado a ser jogado da janela... Sério, se ali tivesse praia, o ponto turístico seria o tubarão. Se tivesse zoológico, seria a jaula da ariranha (lembra aquele caso da ariranha que matou o soldado em Brasília?).

 

Tudo lá é mais complicado. Resolvi entrar no supermercado pra comprar água, pois cada garrafinha no frigobar do hotel era o preço de 4 cervejas no Maurão. Mas como eu já disse na coluna passada, em tcheco não dá pra entender nem se o cara disser "Romário", quanto mais água. E como é que eu vou saber qual água é com gás e sem gás? Uma é "cistou vodou", a outra é "perlivá voda". Aí lascou. Passei duas horas sacudindo as garrafas pra ver qual que dava bolha, e ainda consegui levar a errada.

 

 

Praga é uma cidade muito bonita, e lugar pra posar com a bandeira do Galo não faltou. Mas não adianta não, eu sou um péssimo turista. Sistemático não pode fazer turismo. Não fico babando atrás de Mona Lisa no Louvre, não tiro foto fingindo que tô segurando a Torre Eiffel, não jogo moeda em fonte da Itália, não fico tentando fazer o guarda da rainha da Inglaterra rir... eu não nasci pra ser turista, essas bobajadas de turista me irritam e eu fico logo é com vontade de largar tudo e ir tomar cerveja e comer. E foi numa dessas que eu descobri que "pivovar" significa cervejaria artesanal, em tcheco. Aí a maré virou pro meu lado. Chope tcheco tirado direitinho, com espuminha e tudo... na América do Norte, se você encontrar um daquele, provavelmente vai ter um canadense enjoado reclamando, "ai, nuóssa, tem espuma, que horror..."

 

De onde esse povo cismou que sabe alguma coisa de cerveja? Pois eu fui lá no tcheco pra tirar a prova, e o tcheco botou um chope com espuma igual à nossa, então o do Brasil está certo e o do Canadá está errado e pronto. E ainda custou 2 euros por meio litro de chope (em Toronto, um desses não sai por menos de 7 dólares, e a cerveja é tão ruim que deve ter sido fermentada no tanque da lavadeira da Copa Itatiaia).

 

 

O mais engraçado dos restaurantes tchecos, no entanto, é um pretzel (aquele biscoitão em forma de laço) que sempre fica pendurado em um suporte de ferro em todas as mesas, logo que você entra. Eles ficam lá, expostos mesmo, o dia todo, até alguém comer. O povo conversando com a boca bem pertinho, o mosquito ali rodando, cerveja espirrando... e o pretzel lá, paradão. Se você comer, são 15 dinheiros. É uma situação complicada: você sabe que o pretzel tá ali desde o batizado do Hitler, já passou muito tcheco fungando nele, muito varejeira tcheca já pousou em cima, muito sovaco de garçom já esfregou ali enquanto os pratos eram servidos... as imagens passam na sua cabeça, mas esperar almoço vendo aquela lapa de biscoito bem à sua frente é uma tarefa complicada. Cê já tá jurando que eu comi, né? Sinto decepcionar, mas por incrível que pareça, eu resisti bravamente. Concentrei no chope e botei na cabeça que aquele lindo biscoito à minha frente já tinha mais impressão digital do que o bandeirão do Galo.

 

Mas não adianta querer escapar, é preciso fazer os programas do turista também. A cada hora cheia que se aproxima, a turistada se acotovela na praça central pra ver o relógio astronômico (tradução de Cristiano: uma peste dum cuco, só que grande). Ele tem a cara da cidade: além dos bonequinhos de mil novecentos e Rei Dadá que desfilam pela janelinha quando o relógio bate as horas, um esqueleto fica tocando um sino. Ah, mas tinha que ter esqueleto, morte, alguma coisa assim, né? Senão não era Praga, era Fortaleza. Mas tudo bem, mesmo com o esqueleto, passei todos os dias achando o relógio um barato, muito bem bolado, coisa bonita e tudo mais, até um guia turístico me contar que a lenda do relógio diz que a prefeitura da cidade, na época em que o relógio foi feito, ficou feliz com a quantidade de turistas que ele atraía e, com medo de aparecer concorrência na região, mandou cegar o relojoeiro pra que ele nunca mais fizesse outro igual pra outra cidade.

 

 

 

Ah, mas estava mesmo faltando o carinho e a simpatia do povo de Praga pra ilustrar a história do relógio, né? É um povo que resolve as coisas com muita delicadeza. Eu não sei não, mas se o Dalai Lama for a Praga, é capaz de ter diarréia todo dia. Médium ali deve trabalhar igual correio elegante de festa junina, com 800 mil almas mandando recado. Se Praga tivesse Ninho da Águia, ia se chamar Sarcófago do Urubu, o frango frito ia ser pomba, ao invés de jogo do Galo ia ter radiola de ficha tocando disco do Kiss ao contrário, e quem tentasse comprar fiado era trancado no banheiro masculino pro resto da vida.

 

Ave Maria, chega de falar bobagem. Tem mala pra fazer aqui, sô! Em janeiro eu termino a saga, se Deus quiser, e aí já operando em território nacional. Finalmente é Natal, é hora de largar esse frio daqui e ir pra casa mexer com os cachorros, ver vó, e quem sabe até dar uma volta na baixada. Minha querida Alvinópolis, fica aqui o meu abraço e meus votos de um excelente Natal e um Ano Novo GG: joinha, joinha pra todos nós. Obrigado pela preferência de sintonia em mais esse ano, e muita risaiada pra nós em 2012.

 

Apita Antônio Barcelos Filho, errrrrrrrrrrrgue os braços!!!

 

Cristiano de Oliveira é mineiro de BH, residente em Toronto no Canadá. Já visitou Alvinópolis inúmeras vezes.

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