O ATLETICANO E AS TRAGÉDIAS DO VERÃO CANADENSE

 

Cristiano de Oliveira

 

 

Aniversário da Dona Graça 2011.

 

 

Saudações, Alvinópolis da polêmica.

 

Tem tanta polêmica que, se eu citar uma só, é discriminação com as outras. Tem a verba do BDMG, tem o local do Festival da Canção, a proibição ou não de festas na baixada, reforma da praça, contratação de bandas que tocam funk... Já que é pra polemizar, bote uma aí em meu nome: eu quero Leleco vereador. Um vereador de coragem! Cê duvida? Pois eu provo: você teria coragem de dançar Rebolation de biquíni no chuveiro do Ninho da Águia? Pois ele teve.

 

E a casa está caindo. Descobriram que Zezé Esparrela botou uma fazenda em nome do presidente do Once Caldas! Divulgaram até o nome dela: Fazenda Festa Pra Torcida do Galo.

 

E finalmente, chegou o verão no Canadá. A inauguração oficial foi exatamente com o aniversário da Dona Graça. Teve a estréia do Galo no Brasileirão, e logo depois um churrascão na área externa do bar. A carne foi por conta dela, e os convidados compravam a cerveja do bar. Várias figuras históricas da comunidade estavam lá. Aliás, eu ia até contar aqui como foi a participação do Cardoso, que é o “apreciador de coquetéis” mais famoso da região e foi convocado pra cuidar da churrasqueira pra compensar o trabalho que ele geralmente dá, mas vou deixar pra próxima edição. Aí é bom que eu apresento os personagens do bar da Dona Graça e conto as histórias.

 

Hoje o assunto é verão. Todo mundo fica imaginando que a chegada do verão no Canadá é igual chegada do Carnaval no Brasil, né? Pois é, não vou falar que é ruim não. É muito bom poder sair na rua sem ter que vestir um carneiro inteiro como casaco, sem aquele vento que não deixa a gente nem respirar, sem queimar a bochecha de frio, sem dedo roxo, sem congelar o cabelo quando sai de casa de cabelo molhado, sem aquela sensação de que a bola do olho congelou por trás... É até bem bom, esse tal de verão.

 

Mas o negócio é que eu sou chato. Mais do que chato: eu sou chato e razoavelmente desprovido de sorte. Mais do que chato e desprovido de sorte: eu ainda tenho coluna pra escrever, então eu ainda tenho que ser reparador. Quando a errada aparece, eu ainda tenho que lembrar dela e ficar remoendo pra poder escrever, senão não tem assunto. Aí é tragédia na certa. E é por isso que eu digo: verão aqui é bom, mas também não é lá essas coisas não. Tem um lado que é penitência pura. Que dá medo de sair na rua. Portanto, pegue aí um lenço e segure as lágrimas, porque o negócio é triste. A barra aqui é pesada. Jararaca aqui é mandruvá. Apresento-lhes as roubadas do verão canadense.

 

 

1)      O gesso

 

Esse é tradição. Revela-se logo no primeiro dia de sol: todo mundo bota shortinho curto e sai pela rua mostrando o gesso nas pernas. A rua é uma aula de biologia, porque dá pra ver tudo quanto é veia nas pernas do povo. A cidade vira o Planeta Giz. Deve ser o tal exército de Brancaleone. O camarada aí no Brasil, muito acostumado com as morenas brasileiras, já fica achando que não seria de todo mal ver essas mandioconas andando pela rua... Pois fique olhando então. No meio desse footing, vem homem também, viu? Imagine-se lá, tentando achar o desfile interessante, quando de repente entra uma perna de homem no meio. Imagine perna branca e cabeluda!! Não olha não que dá descolamento de retina. É um tipo de cruzamento de Tony Ramos com Elke Maravilha. Ave Maria, chega de falar nisso, vai me dar pesadelo à noite.

 

2)      O Calor

 

Sempre tem aquele que acredita que Toronto tem 11 meses de frio e um mês de frio médio. Bem-vindo ao inferno. Aqui são -40 no inverno e +40 no verão. E fora a umidade, que é violenta também por causa do lago. Em julho cê não respira com o abafamento. Daí, em todo lugar aonde você vai, tem ar condicionado no máximo. Quarenta graus do lado de fora, e você precisando de blusa de frio pra ficar em lugar fechado. Nos dias piores, a prefeitura abre as portas pra quem não tem ar condicionado em casa e se sente  mal com o calor. Tem gente que vai pro hall da prefeitura só pra ficar no ar condicionado. Acho que eles servem até um suquinho.

 

 

3)      A Fauna

 

Tá certo que no Brasil tem tudo quanto é bicho, mas aqui é estranho: no inverno, não aparece nada. Só rato dentro da casa da gente, pois afinal rato também fica incomodado com o frio. Os ratos estão lá fora congelando, aí notam aquela casa cheia de imigrante dentro e falam: “Essas pestes vêm pra cá e roubam o emprego da gente! É um absurdo. A culpa é do governo. Eu sou mais canadense que eles, portanto me dá licença que eu vou me esconder do frio aí dentro, e de quebra ver se tem um negocinho pra ir roendo”. Bom, mas aí vem o sol, e basta ele aparecer para o resto da fauna endoidar também. Quinhentos milhões de abelhas, trezentas mil mosconas daquelas azuis, e ainda aparecem as centopeias caseiras. Uma lagarta feia de doer, que come aranhas e percevejos. À noite, andando pelas ruas mais calmas, você de vez em quando dá de cara com um gambá. Daqueles de desenho animado, sabe? Bem pretão com uma lista branca nas costas. Bonito mesmo, mas se a gente chega perto ele benze igual o do desenho também. E ainda tem o guaxinim, que no verão cata sua lata de lixo e sai batendo tarrafa com ela. Joga lixo pra todo lado. Não é possível, aquele bicho deve comer rodando, porque eu nunca vi tão bagunceiro. E se te morder, cê vira tábua de pirulito. Não por causa da mordida, mas por causa das 570 mil agulhadas de vacinas que você vai ter que tomar. É como se o Rio Arrudas tivesse dente e te mordesse.

 

 

 

4)      A maresia

 

É uma falta de vergonha: o cara passa o inverno com medo de tomar banho por causa do frio, e acaba acostumando com aquilo. Aí chega o verão, o hábito já está criado. E como já dizia o ditado, “o hábito do cachimbo deixa a boca numa catinga do inferno”, ou algo assim. Aí o camarada olha pro chuveiro, pensa, faz caracolzinho com o dedo no cabelo, coça o ouvido, bate aquela preguiça... Ah, esse banho não sai tão cedo. O resultado é catástrofe nas ruas. Cê entra no ônibus e parece que morreu alguém ali dentro. Aliás, alguém não: parece que morreu um sovaco ali dentro. Aquela maré de macaco na chuva se espalha, queimando as narinas do povo de boa vontade. E cê acha que é só homem? É não! Você chega na academia e não sabe se a mulher malhando ao seu lado é mulher ou um queijo. Eu tô lá, fazendo um esforço tremendo nos exercícios, quando sinto aquele cheiro de cobertor de mendigo. Olho pra moça de camiseta sem manga ao meu lado e penso: “Nããão, né não, sô. Esse cheiro vem de outro lugar”. Nesse momento, ela levanta os pesos bem lá no alto e pulam dois lobisomens do sovaco dela. Hôôôme, quem é Baby Consuelo? Baby Consuelo é um rabo de rato perto daquilo. Pense numa cabeleira. Era Sorín na lateral esquerda e Apodi na direita. Foi aí que eu descobri que no inverno, além de não tomar banho, a turma também não vê necessidade em fazer depilação. Quem me contou foram Deusdéti e Aritana, os dois lobisomens. E isso porque estamos tratando do sovaco pra cima, hein? Imagine se chega alguém do seu lado usando aqueles shorts Adidas de antigamente, de pano, que por dentro não tinha... Para, para, para, não quero pensar nisso.

 

5)      Os Modelitos

 

Por falar em short Adidas da Copa de 82, verão é quando o povo fica meio doido também com relação ao guarda-roupa. Todos querem se soltar, mas têm inverno demais correndo nas veias e não dão conta. Aí vira bagunça. É camisa xadrez de flanela com bermuda, sandália com meia, bermuda cáqui com camisa rosa e aquelas sandálias do tipo “sou gringo sim e daí?”... E mais uma vez, o guarda-roupa despombalizado não é exclusividade só de homem. Aliás, como é que esse povo tem coragem de dizer que a mulher brasileira é que anda sem roupa? As saias e os shorts aqui estão tão curtos que já estão no elástico! Só dá saia ou short Al Qaeda: quando passa, dá pra ver as torres gêmeas caindo. E isso porque o exército americano já encontrou o... Nããããão, tira isso da minha cabeça, tira, tira. Não vou pensar nisso. Eu mesmo invento as bobagens, e eu mesmo fico sistemático depois. E não ria não, viu? A cena é triste. É cenário de guerra.

 

Chega, já tem pesadelo pra um mês inteiro aí pra cima. Ah, antes que eu me esqueça, tem recado: Ô Luizinho, o molho de pimenta e o sal grosso temperado Dona Zita vieram no fundo da mala e chegaram bem. Muito obrigado mesmo. Agora eu posso escapar de todas essas rolhas do verão, vou agarrar na churrasqueira e de lá eu não saio. Duro vai ser a quantidade de gringo fazendo fila aqui pra comer picanha com esse sal grosso temperado. Ano passado ficou todo mundo tão desorientado que, no fim, quem deu menos trabalho foi o guaxinim.

 

Apita Antônio Barcelos Filho, errrrrrrrrgue os braços.

 

Cristiano de Oliveira é mineiro de BH, residente em Toronto no Canadá. Já visitou Alvinópolis inúmeras vezes.

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