O ATLETICANO VOLTA À GELADEIRA

 

Cristiano de Oliveira

 

 

Saudações, Alvinópolis, 120 anos de cidade-carinho!

 

Parabéns a Alvinópolis e seu povo pelo aniversário. Como já é tradição do brasileiro, aposto que muita gente tirou a data pra desfrutar do passatempo preferido da nação: reclamar da vida. Não estou falando que é proibido não: grandes coisas por esse mundo afora foram conquistadas a partir do protesto da população. Eu só queria é que todo mundo tirasse um minutinho desse dia pra pensar que também tem muita coisa boa, muita coisa dando certo, e que há muito o que comemorar também. É preciso saber pesar as coisas e pegar mais leve, pois como diria a Hebe, “de Camargo já basta a vida”. Parabéns Alvinópolis!

 

Eu estou de volta a essa geladeira chamada Toronto, Canadá. Um frio da peste, daqueles de queimar as bochechas da gente. No dia em que eu cheguei, a temperatura era -16 sem vento. Dois dias depois ela chegou a -32. Pro camarada que acaba de chegar do Brasil, é uma beleza: cê puxa o ar pra respirar e ele não vem.

 

Com isso, eu só saio de casa com mandado judicial. Cismei de sair pra limpar a calçada depois de uma nevasca, o proprietário da casa me viu e veio me agradecer. Me pegou de conversa por meia hora. Ele, muito encapotado. Eu vesti só o suficiente pra ir limpar a neve e voltar. Meia hora de conversa. No fim, nós paramos porque minha boca congelou e eu não conseguia mais falar. Sério, isso acontece! A mandíbula trava.

 

Pra completar a tragédia do inverno, eu fui assistir ao primeiro clássico do ano na Dona Graça e recebi uma notícia terrível: parece que a Brahma está abandonando o mercado canadense. Já não é possível encontrá-la em nenhuma das lojas do governo (ah, não sei se já falei, mas aqui, só o governo pode vender bebida alcoólica. Tanto os donos de bar quanto a população têm que comprar nas lojas do governo. Não tem distribuidora. Por isso é que a cerveja sai tão cara no bar). Consequentemente, na Dona Graça também já não há mais Brahma. Passei o clássico tomando Coors Light, uma cerveja feia que tem aqui, e apesar da vitória, foram dois dias de dor de cabeça depois. Há quem diga que a Brahma poderá voltar no verão, quando a procura por cerveja mais leve aumenta. Mas há quem diga que a Brahma realmente recuou, e a Schincariol está se preparando pra entrar. Aí não... O cara enfrenta rolha atrás de rolha nesse país enjoado, e depois de sete anos nessa lida, o que ele ganha de presente? Nova Schin. Por muito menos que isso, derrubaram o presidente do Egito.

 

 

Mas o clássico na Dona Graça foi bom. Quase passei mal do coração de novo, mas foi animado. Quando entrei no bar com a crista, o povo foi à loucura. Tô ficando famoso. O duro dessa fama é que, a cada gol do Cruzeiro, aumenta a tradição de abraçar o “cara da crista”. Nem Maguila mandava tanto abraço assim. No fim, pra aumentar a esculhambação, Dona Graça correu um bolão pro sorteio da “mega-sena” daqui e todos os torcedores, dos dois times, tiveram que desembolsar 5 dólares pra colaborar com o bolão. Eu tenho que passar lá pra saber se nós ganhamos. Aí, olha que ideia boa: ao invés de brigar depois do jogo, todo mundo bota 5 merréis na mesa pra fazer um bolão pra mega-sena. Muito melhor.

 

E teve promoção na Dona Graça também: quem pedisse um X-Tudo ganhava um suco de manga. Nem pense em perguntar se é natural. Onde é que o camarada vai arrumar manga nessa casa de foca chamada Canadá pra fazer suco? Eu vi goiaba no supermercado outro dia, cada uma custava 2,20 dólares e vinha embaladinha individualmente em filme plástico, com etiqueta de importação e tudo. Portanto, o suco de manga da Dona Graça é de caixinha e, ainda assim, deve ter viajado mais do que o Cassino de Sevilha pra chegar até aqui.

 

Bom, e pra fechar essa primeira coluna, eu vou finalmente contar o caso que já estou uns quatro meses empurrando. Desde que o André Eugênio veio me visitar, eu estou falando que vou contar esse caso que nós vivenciamos. Mais uma lembrança para o projeto MIDÁ (Momentos Inesquecíveis Do Atleticano), que coleta lembranças de minha vida atleticana e que um dia eu hei de apresentar ao Kalil junto com a minha aplicação para ser agraciado com o Galo de Prata. O Projeto MIDÁ será acompanhado das matérias e fotos publicadas no Alvinews, além das 472 mil notas fiscais de produtos da Loja do Galo que eu já adquiri.

 

Pois aí vai, então, a história do berrante encantado.

 

Era um jogo contra o Atlético Paranaense em 1996, se não me engano. Quartas-de-final, oitavas ou coisa assim. O Mineirão estava cheio, e um cara sentou-se ao nosso lado carregando um cano de PVC que ele provavelmente arrancou da própria rede de esgoto de casa. Um cano grosso daquele certamente devia ser usado pra transportar armas químicas de alta periculosidade e volume altamente exagerado pelo esgoto afora. E o cano era cheio das decorações, todo trabalhado. Mas o que um cidadão faz em pleno jogo do Galo com um cano de passar monstro do pântano no colo? Aí eu notei que o cano tinha um negócio de lado, e o cara tava levando a boca naquele negócio. Quando o time entrou em campo, veio a conclusão brilhante de que o negócio era um bocal, e sei lá o que foi que o cara botou dentro daquele cano, mas a cada sopro que ele dava no bocal, fazia um barulho parecendo um boi de PVC bufando. Eu olhava aquilo admirado. Você pergunta: admirado pela superação do ser humano que usa de toda sua criatividade pra criar um instrumento musical novo? Nada. O que me admirava era ver um camarada destruir a privada de casa pra fazer uma porcaria daquela. O cara se matava de soprar e o cano só ficava naquele gronf, gronf, gronf... E estávamos perto da charanga, então ninguém ouvia a doce melodia do cano, só os infelizes que tiveram o azar de sentar ao lado dele. No caso, nós.

 

 

Como o Estado de Minas costuma dizer pra 90% dos desastres que acontecem, era “tragédia anunciada”. O Galo ia mal e o Atlético da Várzea (porque Atlético de verdade só existe um) abriu o marcador. Um a zero. Mas enquanto a gente previa o pior, Buda desceu à Terra e encarnou naquele cara do cano para nos fazer uma revelação: “Não há o que temer, pois toda vez que eu venho ao Mineirão e toco o meu berrante, o Galo faz três gols e ganha o jogo”.  Eu e André ouvimos com atenção, mas deixamos pra lá. É aquele tipo de situação em que um sabe o que o outro tá pensando (“esse cara tá com a mola solta”, ou algo assim), mas ninguém comenta nada, vamos ver o jogo.

 

Pois eis que um zagueiro empata no segundo tempo, acho que foi Fica Ronaldo. O vizinho de arquibancada quase morreu dentro daquele berrante. Gronf, gronf, gronf, gronf, e cinco minutos depois o espetacular Leandro Driblador de Trave vira o jogo. Só isso aí já valia um abraço no companheiro soprador de cano de passar coliformes fecais, mas ele não queria saber não. Continuava roxo de tanto soprar o negócio, e tome gronf, gronf... Pois o tempo passou, e lá pelos 30 minutos, o inacreditável: sozinho frente a um goleiro que saía desesperado, o Baiano que Veio do Paraná aparecia pra fazer algo que acho que nunca mais ele fez. Renaldo Seleção, recém-convocado, deu um toque de cobertura, e enquanto a bola entrava devagar, Willy Gonzer rasgava o pouco que já restava da garganta: “Um gol de placa, um gol de classe, um gol de seleção: o Baiano que Veio do Paraná!” Nessa hora me deu branco. Eu endoidei, e só me lembro de parar de ouvir o cano e começar a ouvir a voz do cara gritando: “Eu não disse? Eu não disse?” Estava criado o mito do profeta do Mineirão. O cara virou o heroi da noite, e hoje, quase 15 anos depois, a gente não esquece aquilo de jeito nenhum. Acho que se eu ouvir o berrante de cano outra vez no Mineirão, sou capaz de reconhecer o som e ir lá pedir um autógrafo pro cara. E torço pra chegar o dia em que a Tigre patrocine o Galo e distribua tubos e conexões pra massa fazer berrante. Se a gente consegue uns 100 daqueles tocando no Mineirão, ninguém segura esse Galo mais.

 

E assim foi. Mês que vem eu volto, e provavelmente com novidade pra contar. Há um movimento aí querendo me levar, em comemoração ao meu aniversário, pra esquiar pela primeira vez. Tragédia anunciada. Se eu for mesmo, vou registrar o fracasso aqui nesse espaço. Aguardem.

 

 (Ah, e meu aniversário foi dia 14 agora, pode me dar parabéns atrasado lá no Mural que eu tô aceitando também. Além de deixar o mural mais animado, é bom que eu aproveito pra fazer o censo e descobrir quantas pessoas leem a coluna até o fim.)

 

Apita Antônio Barcelos Filho. Errrrrrrrrrrrrgue os braços!!

 

 

Cristiano de Oliveira é mineiro de BH, residente em Toronto no Canadá. Já visitou Alvinópolis inúmeras vezes.

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