Alegria italiana diverte a viagem na

Maria Fumaça gaúcha

 

Romildo Guerrante

 

 

A locomotiva nem é tão antiga, é a Mikado 156, fabricada pela Alco americana em 1941, mas faz fumaça e barulho suficientes para criar a bordo dos seus vagões – “carros”, insistem os ferroviários - o clima animado e saudosista nos mais de 200 passageiros que, duas vezes por semana, lotam cada viagem da Maria Fumaça que sai da estação de Bento Gonçalves, na serra gaúcha, para cobrir em uma hora e meia os 23km que separam a Capital do Vinho da pequena e agradável Carlos Barbosa.

 

Já na chegada à estação de Bento o clima é de festa. A música italiana dos velhos acordeons enche o ar com canções que evocam o sacrifício da migração e a alegria da nova vida. “América, América”, canta a dupla descendente de italianos na letra que recorda a aventura de deixar a terra natal para tentar o futuro na nova pátria desconhecida.

 

América, América, América,
Que será essa América?
América, América, América,
É um belo punhado de flores...”

 

Os gentis descendentes de italianos que povoam a pequena cidade de 104 mil habitantes - mas renda per capita altíssima e IDH também lá em cima, por conta dos móveis, dos vinhos e dos produtos metal-mecânicos que elaboram com zelo - recebem a todos com alegria da mais genuína. O passeio é promovido por profissionais, a Giordani Turismo não brinca em serviço, mas a gentileza que brota nos menores contatos é legítima, e emoldura os sorrisos de todos os que estão ali para agradar a quem chega. 

 

 

Na plataforma, degusta-se o bom vinho brasileiro, branco e tinto, cada vez melhores, desde que, há quase 50 anos, instalou-se na cidade um curso de enologia, responsável por mudanças profundas no cultivo da uva e na produção do vinho. Já não é o imigrante instintivo que prepara a parreira, amarrando-a com barbante, mas seus descendentes, capacitados tecnicamente, que cuidam das espaldeiras que hoje dão suporte às mais variadas castas, cada vez mais refinadas.

 

De taça na mão, lá vão os turistas de todas as partes do país e do mundo tomando seus assentos. Um cadeirante engasga na porta. Solícitos, dois funcionários dão um jeito de embarcá-lo, dobram a cadeira e o acomodam. Ele ainda sorri da alegria da música que vem da plataforma, onde casais de cabeça branca dançam ao som do teclado e do acordeon.

 

 

Minutos antes, dezenas de câmeras digitais já tinham registrado mil poses de quase todos em frente à velha locomotiva. Abastecida de água e lenha, a máquina apita, avisando que está pronta pra sair. Pelos alto-falantes, os passageiros são avisados para não botarem os braços para fora das janelas. E nem confiarem nas janelas de guilhotina, que já devem ter produzido dores em desavisados ao despencarem das precárias borboletas que as sustentam quando abertas.

 

E o trem parte, como faz desde 1993, quando a linha foi reativada para comboios de turismo. E nem bem parte, some o som da plataforma e um novo som vem aos poucos chegando perto. É uma trinca de gaúchos pilchados, com aquelas calças de bombacha, contando alegres histórias dos pampas, alegres mesmo quando narram ciúmes, desavenças e traições.

 

Mas a música é animada, e eles se revezam tirando passageiras para dançar. No estreito corredor, dão alguns passos, enquanto estouram os flashes das dezenas de maquininhas, muitas delas até capazes de filmar, de mandar e-mail, de perscrutar o mundo via Internet. O carro é uma alegria só. Que dura pouco, porque logo o grupo se vai.

 

 

Acabou? Nada disso. Entra um casal jovem, sotaque italiano, brigando pelos ciúmes da mulher. O marido, muito oferecido, toma liberdades com as passageiras mais bonitas, especialmente as acompanhadas. Mas brincadeira pura, enquanto a italiana berra lá no fundo, lamentando a hora em que se casou com o volúvel parceiro e prometendo matá-lo na primeira oportunidade. Teatro de boa qualidade.

 

Fica todo mundo atento ao drama, que é rápido, não há muito o que olhar para fora das janelas, embora os 1.800 cavalos da máquina americana não permitam velocidades acima de 15km/hora. E a paisagem se arrasta pelas janelas: vales verdes, casinhas, fazendas, nada surpreendentes. Não são feios os vales da serra gaúcha, é que as atrações a bordo são mais interessantes. Como no trem do forró de Caruaru, em Pernambuco.

 

E chegamos a Garibaldi, 30 mil habitantes, onde a legislação municipal proíbe que se construa prédios com mais de três andares. Vê-se a cidade ao longe, arrumadinha, limpa, européia. Desce todo mundo para mais uma degustação de sucos e vinhos, lojinha de lembranças, mais fotos, mais danças na plataforma.

 

Dez, quinze minutos, e todo mundo a bordo novamente. E lá vem a italianada, agora na voz do Coral Terra Nostra, um grupo de oito oriundi  que invade o vagão de primeira classe da antiga Estrada de Ferro Rio Grande – ôpa, nada de vagão, o carro! – cantarolando Reginella Campagnola, uma louvação da beleza e da alegria das camponesas do Abruzzo:

 

“Oh camponesa bela,
Tu és a rainha,
Nos teus olhos tem o sol,
Tens a cor das violetas,
Dos vales todos em flor...”.

 

E lá vamos nós no rumo de Carlos Barbosa para a última etapa do passeio. Da mesma forma que em Garibaldi, a música fica na plataforma até que se complete o embarque. E tome de música italiana, agora um canto triste de Nápoles, um canto de despedida para os alegres turistas que tiveram a felicidade de, para alguns, retomar o gosto do caminho de ferro tocado a vapor, para outros, a descoberta dos primórdios das máquinas que impulsionaram a Revolução Industrial e que, no Brasil, foram sepultadas na guerra da modernidade contra o transporte de carga.

 

Desembarque em Carlos Barbosa, 23 mil habitantes, ainda menor que Garibaldi. Duas horas se passaram desde a saída de Bento Gonçalves. Mas na estação ninguém está cansado. Na saída do trem, os italianos cantam Funiculli Funiculla, canção napolitana que lembra o funicular, o trenzinho que leva os turistas às montanhas da bela cidade do sul da Itália.

 

Acabou a viagem? Ainda não. Somos guiados a um tour por um cenário fantástico de reconstrução de uma aldeia italiana, de onde partiram os fundadores de Bento Gonçalves. Um casal de atores representa os personagens que vão conduzindo os turistas pela história sofrida dos primeiros italianos que chegaram ao Rio Grande do Sul. As roupas, os utensílios, as ferramentas, a prensa de espremer as uvas. Tudo dos italianos que chegaram não para esquecer a cultura da terra de origem, mas para preservá-la e, ao longo dos anos, legar para nós os belos herdeiros que mesclam o que há de melhor nos dois povos.

 

 

 

As máquinas que resistem ao tempo

 

As locomotivas que fazem o trecho turístico de Bento Gonçalves a Carlos Barbosa trabalharam na Estrada de Ferro Teresa Cristina, em Tubarão (SC), onde transportavam carvão para a Companhia Siderúrgica Nacional. Em 1995, a locomotiva alemã Jung nº 4 serviu de cenário para um dos mais belos filmes brasileiros, O Quatrilho, que retrata a cultura e os costumes dos imigrantes italianos. A composição é formada pela locomotiva e até cinco vagões de primeira classe.

Segundo informações da ABPF - Associação Brasileira de Preservação Ferroviária, existem no Brasil cerca de 400 locomotivas a vapor, sendo a grande maioria exposta em praças públicas e bosques como monumentos. Existem muitas com particulares e algumas em antigos engenhos de cana.

Em funcionamento, são três ou quatro em São João Del Rei (MG), cinco no Sesc de Grussai, Rio de Janeiro (que tem uma linha fechada de 10km), duas em Atibaia (SP) e aproximadamente 20 nas regionais da ABPF. Em Bento Gonçalves estão três com a Giordani Turismo (duas em funcionamento e uma exposta na entrada da cidade, próximo à Estação Ferroviária.

 

Texto e Fotos : Romildo Guerrante

 

 

Romildo Guerrante é jornalista e reside atualmente no Rio de Janeiro.

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