Bandidos geralmente atiram na cabeça, no peito e na barriga
de suas vítimas, preferencialmente, com a clara intenção de
matar. Ultimamente, pelo que leio nos jornais, eles passaram a
"efetuar disparos" no "crânio", no "tórax" e no "abdômen" de
suas vítimas. Que nem morrem mais: ou "falecem" ou "entram em
óbito", segundo dizem os PMs que dão essa trágica informação aos
repórteres. E tratam de passar a novidade rapidamente aos seus
ávidos ouvintes, leitores e telespectadores.
Sumiram do noticiário, em questão de poucos anos, os parentes
das vítimas, substituídos por alguns "familiares", que devem ser
pessoas de rostos conhecidos, mas não propriamente parentes,
pois estes foram definitivamente sepultados no linguajar do
jornalismo "muderno". Ninguém mais faz nada, "realiza"
simplesmente. Tadinho do verbo "fazer", vinha cumprindo tão bem
o seu papel, mas, infelizmente, todos se cansaram dele.
Ninguém discute este ou aquele assunto, mas "sobre" este ou
aquele assunto. Ou "a respeito de", como se diz nas dublagens
dos filmes do TV, hoje assimiladas pelas novelas e
irremediavelmente condenadas ao sucesso. Aliás (já substituído
por "inclusive"), ninguém pede socorro nas situações de aflição,
pede-se que alguém as ajude. Já disse aqui em casa mais de uma
vez: não pretendo socorrer quem diz "alguém me ajude, por
favor", como se diz nos filmes dublados. Só ajudo se gritar
"socorro". E bem alto. Não sei como viver numa sociedade que não
dá nome correto às coisas, numa sociedade em que o eufemismo
prevalece sobre a informação.
Um inglês que envergonha a Inglaterra
A quantos me queixo das mudanças ouço que não devo resistir a
essa tal modernidade e que a língua tem um dinamismo natural.
Hoje se diz de uma forma, amanhã, de outra. Claro, eu estudei
lingüística, mas não me convenci. À noite, geralmente, depois do
bombardeio midiático de esquisitices, fico pensando por que a
mídia eletrônica, por exemplo, que alcança 40 milhões de pessoas
simultaneamente com apenas um jornal noturno, não contrata um
profissional que saiba escrever em português. Em vez disso, põe
lá na maquininha de fazer títulos um estagiário que, embora
começando a carreira, fala inglês corretamente (o que lhe foi
exigido na prova de ingresso), mas que nada lê em português.
Já veio assim da faculdade, não gosta de ler, escreve
erradamente e ri quando lhe dizem que a palavra está grafada
erroneamente. São esses os grandes agentes das mudanças
lingüísticas no meu país, infelizmente. Numa penada, mudam a
deriva da língua e a atiram na vala comum das bobagens
universais, dos europantos claudicantes e do inglês
"profissional" que dá vergonha à Inglaterra.
Saraivada de idiotices
Pois são essas pessoas que, por exemplo, situam o protocolo
das ações judiciais "junto a" algum órgão, e não no próprio
órgão onde deveriam entrar, ou seja, ao lado do local onde
deveriam entrar. Fico atônito quando dizem que a ação vai ser
impetrada (êta, juridiquês danado!) "junto ao" Supremo Tribunal
Federal porque não sei o que fica ao lado do STF. Seria o
Itamaraty?
Dizem que o Brasil "possui 180 milhões" de habitantes (como
se deles tivesse a escritura de posse), que o tarado "violentou
sexualmente" sua vítima, que o veículo "colidiu contra" o muro e
que a pessoa muito ferida que está no hospital "não corre risco
de morte".
Enquanto isso, na página de correções, que o ouvidor impôs ao
jornal com grandes dificuldades, registra-se a digitação errada
de um termo verbal. Nem uma linha sobre a saraivada de idiotices
que se espalha pelas páginas como se fosse um tiro de espingarda
calibre 12, que, mesmo sem pontaria, é capaz de fazer um cego
acertar numa mosca.
Artigo publicado no
www.observatoriodaimprensa.com.br
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