Balas perdidas, telhados furados
Romildo Guerrante
No Rio, Beltrame
acua o varejo da droga e enfrenta a sabotagem dos corruptos
Dediquei-me, de alguns anos para cá, a colecionar projéteis
de todos os calibres que escolheram minha casa como alvo.
Escolheram não é o termo correto. Não tenho inimigos para
ser alvo de tal fuzilaria. Bala perdida não tem inimigos,
tem vítimas. Dia desses peguei a caixinha de plástico onde
guardo esses subprodutos da grande insanidade urbana do Rio
de Janeiro. Contei 11 balas. A maior parte fez do meu
telhado uma peneira, mas duas entraram pelas janelas, uma
pelo basculante do banheiro, às duas e pouco da manhã, a
outra, esta mais preocupante, entrou à 1h da madrugada na
sala de estar de onde saíra um dos meus filhos, poucos
minutos antes.
Comecei a contar essa história porque venho combinando e
descombinando com um operário aqui do bairro de Santa Teresa
uma vistoria geral nas telhas, pra substituir as
danificadas. Algumas foram perfuradas com projéteis tão
velozes que as atravessaram sem espatifá-las. Em dias de
sol, basta subir ao sótão e apreciar a miríade de fachos de
luz que iluminam a última laje, vazando por buracos
perfeitos e imperfeitos. É só caminhar no rumo de um facho
desses que se há de encontrar um projétil.
Para consertar as telhas, seria necessário que ocorressem
duas condições. Primeiro, que cessassem os tiroteios entre
as facões rivais que dominam os morros do bairro; segundo,
que parasse de chover. As duas condições não aconteciam
juntas. Quando havia uma espécie de cessar fogo na guerra
dos fuzis sobre as colinas, a chuva umedecia as telhas e
impedia qualquer manejo.
Na semana passada, observamos que há muito tempo não ouvimos
os demorados e intensos tiroteios, quase sempre de
madrugada. Vamos aproveitar para consertar o telhado. Aí
começou a chover. Quer dizer: não posso parar a chuva, vou
ter de esperar meados do ano, quando seca tudo. Mas os tiros
pararam. E os tiros pararam, inicialmente, porque grupos
dominantes na maior parte das favelas expulsaram os rivais
das comunidades próximas. Eliminado o antagonismo, cessaram
os disparos. E a minha casa, que ficava na trajetória
cadente das balas traçantes que enfeitam as comemorações até
mesmo do Natal, está tendo algum sossego.
A essa pacificação na marra, feita por interesses
mercadológicos dos traficantes, seguiu-se a pacificação
proposta pelo Governo do Estado. O grande subproduto dessa pacificação
é o exílio forçado dos bandidos em cidades vizinhas, ou
mesmo no interior do país. Porque o objetivo principal -
restabelecer a presença do governo nas áreas dominadas por
bandidos - garante mesmo é o usufruto dos serviços públicos
oficiais e concedidos, que lá não chegavam. Quem não pagava
luz na favela, com a pacificação vai ter de pagar. E vários
outros produtos, como a televisão por assinatura, que era
pirateada e rateada a R$ 30 com cada morador.
Avançando pouco a pouco, mas obstinadamente, o secretário de
Segurança, Mariano Beltrame, mostra que é possível garantir
a presença do governo nas comunidades dominadas, embora o
custo seja alto. E mostra também ser imprescindível o apoio
das Forças Armadas. Contra quem luta Beltrame em sua
obsessão pela segurança dos cariocas e fluminenses? Contra
a própria polícia, contra os segmentos corrompidos da
máquina policial que resistem à ideia de perder o salário
complementar.
Até se poderia pensar que o problema é salarial. Um
complemento oficial resolveria o problema. Mas não. A
corrupção virou endemia e o sentimento corporativo das
polícias acaba trabalhando contra as medidas moralizadoras.
Sempre foi assim. Mas nunca com tanta intensidade. Quanto
mais agressivo o ataque do Beltrame ao varejo do tráfico de
drogas, maior a resistência dos que ganham com a
disseminação das drogas.
Planeja-se uma operação secreta e, logo depois, se descobre
que “vazou”; monta-se um cerco ao núcleo de poder da favela
e mais de 200 bandidos escapam misteriosamente; prepara-se
uma busca casa por casa e, depois, aparecem moradores
saqueados por supostos policiais. O morador teme o
traficante, mas teme ainda mais a polícia. Quando se acena
com a esperança de uma mudança pra melhor, escorregões
mesquinhos de meia dúzia começam a ameaçar o projeto
inteiro.
É difícil prever o desfecho desse embate. Não vejo Beltrame
demitido. Sergio Cabral não pode abrir mão dele. O
retrocesso inviabilizaria definitivamente qualquer
possibilidade de vida civilizada aqui no Rio. Mas temo pela
saúde do secretário. Acostumado a caminhar a pé pela Zona
Sul da cidade, arrisca-se ao se expor ao desespero dos
descontentes.
Este
artigo foi publicado no site
Balaio de Notícias
Texto e Fotos : Romildo Guerrante
Romildo Guerrante é jornalista e reside atualmente no Rio de Janeiro.
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