A infidelidade linguística
Por Romildo Guerrante
Ando por conta com essas pessoas de vocabulário curto, jornalistas
principalmente, que pegam no ar uma expressão qualquer que acham bonitinha e
não largam mais. Pelo menos até que surja a próxima novidade. Com isso,
abandonam formas consagradas da língua portuguesa, de fácil compreensão, apenas
porque gostam de novidades. Adoram o conúbio com palavras mais novas, um
adultério rigorosamente improdutivo.
Tudo agora é “por conta de”, que significa apenas a responsabilidade
pelas despesas num bar. Mas ficou assim: o trânsito tá ruim? É por conta de um acidente.
O hospital fechou? Foi por conta da falta de verbas. Nada é devido a, nada é
por causa de, nada decorre de nada, nada é função de algo. E a frase começa
sempre com a expressão “na verdade”, como se a conversa até ali tivesse sido
uma grande mentira.
Dia desses, eu ia caminhando ali pelo Caju, que não é exatamente um
lugar que tenha algum atrativo para caminhantes, quando dei de cara com o verbo
Morrer. Vinha cabisbaixo, carregando o peso do mundo nas costas. Não resisti.
“Que é que tá havendo? Por que tão triste?” Levantou a cabeça, me olhou nos
olhos por alguns segundos e explicou que estava triste porque ninguém mais fala
nele. Mas como não falam em você? Você está presente na vida, perdão, na morte
das pessoas todos os dias, ponderei. Mas o Morrer ponderou: “A morte continua
existindo; o verbo morrer é que tá esquecido. Agora as pessoas falecem ou
entram em óbito. Ninguém morre mais nesta terra.” Não tive tempo de me espantar
com a explicação. Morrer virou-me as costas e se foi.
A aeronave já está em solo
Aquilo me tocou fundo. Fiquei penalizado. Prossegui na minha caminhada
pensando na ingratidão das pessoas, que vivem com as palavras todo dia na ponta
da língua, mas que de repente as desprezam, querem trair os seus hábitos de
falar porque ouviram uma cotovia falar diferente em algum lugar. Percebi que há
outros casos de infidelidade de linguagem que devem estar atormentando os
esquecidos.
Lendo os jornais diariamente, tomo um susto a cada minuto. Dia desses li
que um cara tinha se jogado no espelho d`água de Marapendi, na Barra da Tijuca.
Mas como ele se jogou apenas no espelho d`água? E a lâmina d`água, que fica
logo abaixo do espelho, e que ali perto da Praia dos Amores tem pelo menos uns
três metros de profundidade? Ah, não sei. Deve ter ficado boiando.
Considero puro preconceito parar de chamar avião de avião e usar a
palavra aeronave para nomear esses tubos pressurizados que nos levam pra
Brasília e adjacências. Avião é auxiliar de traficante, ponderam, não pode
ficar falando em avião por aí. Que nada. Caetano fala nos aviões sobre as
cabeças. Aeronave? Fica parecendo programa espacial de Houston. Mas é isso que
ouço sempre nos aeroportos quando nos querem enrolar porque o voo está
atrasado: a aeronave que vai fazer o seu voo já está em solo. Em solo? Quando
está voando é “em ar”?
“O trânsito segue parado”
Me ocorreu agora outro caso de infidelidade linguística inominável. A
preposição “entre” foi substituída indelicada e indevidamente por outra
preposição que tem outro significado, “dentre”. Mas quem está preocupado com
isso? Os linguistas já explicaram que isso é a evolução natural da língua. Por
que iria me preocupar com isso? Mas me preocupo. E me preocupo porque perdi
todos os meus parentes. Assim, do nada. Viraram familiares. Mas cadê a parentada
sua? Sumiu. Num golpe de mágica? Isso! Um golpe mortal – perdão, fatal. As
vítimas agora são fatais, elas se envolviam em acidentes fatais, agora elas
próprias são fatais. Encurtaram o caminho. A linguagem é mais direta.
Oba-la-lá!
Mas que direta coisa nenhuma, alerta meu
alter ego, um velho professor que de vez em quando me liga pra saber o
significado de alguma expressão nova que ele ouviu por aí. Na semana passada –
hoje dizem “última semana”, como se diz em inglês, e como se não houvesse
possibilidade do advento de novas semanas à frente – ele queria saber o
significado de uma expressão que ouvira no rádio: “O trânsito segue parado.”
Pedi desculpas, disse que iria investigar e que retornaria a ligação assim que
pudesse. Ainda não descobri. Quem sabe semana que vem, quando houver novas
dúvidas sobre a língua que se fala no meu país?
Fonte :
www.observatoriodaimprensa.com.br
Reproduzido do
www.balaiodenotícias.com.br
Romildo Guerrante é jornalista e reside atualmente no Rio de Janeiro.
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romildo.guerrante@gmail.com
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