O Alisador

Romildo Guerrante

 

Não sei se a história é assim mesmo, memória deixa a gente na mão a toda hora, não faz muito tempo dois amigos me desmentiram na mesa do botequim porque eu falei que o Birim-Biroca morava debaixo do coreto, mas ali morava era outro maluco, que jogava pedra na gente. Birim-Biroca morava era na Gamboa, perto do ginásio, e lá se vão dez anos de distância entre um personagem e outro. Como é que eu fui juntar as duas pessoas, uma que eu conheci quando estava no jardim de infância, que hoje chamam de maternal, o outro eu já era um rapazinho de ginásio. Bom, tenho medo de contar essa outra história, do Alisador, porque ela é sinistra, e pode aparecer amigo meu aí pra dizer que não foi bem assim, que o Alisador não era assim, era assado. Mas eu acho que devo contar porque foi uma das coisas mais assustadoras da minha infância, a coisa apavorou a cidade inteira durante muito tempo. Quanto tempo? Não sei, eu só tenho certeza de que a carreira do Alisador acabou no dia que ele entrou na casa do prefeito.

Ele vinha entrando nas casas lá e no dia seguinte você ouvia um monte de sussurro, mas o que tinha acontecido lá dentro ninguém sabia direito. Dizem que ele se deitava na cama das mulheres e alisava elas, nem sei bem que tipo de alisação era, mas, pelo que ele deixava escrito nas paredes com batom, era coisa de sexo. Tanto era, me garantem os amigos que concordam comigo em alguns pontos da história, que tinha uma mulher solteirona lá na cidade que botou um cartaz no corredor que ia dar na casa dela, uma casinha assim de fundos: "Alisador, minha casa é aqui". Acho que é maldade com essa solteirona, ela era feia que nem a necessidade, e o Alisador não precisava alisar mulher feia. A mulher do prefeito, por exemplo, era linda. Mas foi a perdição dele. Alisar mulher de bancário, de funcionário da prefeitura, isso não dava em nada. Agora, alisar a mulher do prefeito? Quem é que botou isso na idéia dele? Bom, mas pode ser que ele não sabia que ela era a mulher do prefeito. Mas foi ali que a carreira dele acabou.

A cidade encheu de polícia, o povo foi pra rua pra saber das coisas, um belo dia disseram que tinham prendido o Alisador do outro lado da ponte, que iam trazer ele pra cadeia.

A porta da cadeia encheu de gente, de curioso, gente até da roça que vinha cortar cabelo no sábado, foi todo mundo pra frente da cadeia pra ver a cara do tarado. E enquanto ele não chegava, as histórias cresciam, já tinha gente dizendo que ele tirava a roupa e se enfiava debaixo do lençol, tinha gente apostando que havia muito mais história na cidade, e que as mulheres não contavam, porque ficaram com vergonha, mas que vergonha que nada, o vendedor de picolé disse que tinha mulher ali que ficou quieta porque estava gostando da brincadeira.

A mulher que vende mel contava as histórias mais cabeludas, mas lá na cidade a mulher que vende mel é um personagem de ficção inventado por todo mundo que não quer dizer quem foi que contou a história, aí diz que foi a mulher que vende mel, que maldade com ela. Mas ela nem existe, tem um monte de gente vendendo mel lá na cidade, mas acho que não tem mulher nenhuma, é tudo homem velho e feio, e vende muita coisa, não é só mel não, tem aipim, tem farinha, tem ovo, muita coisa. Ora, a mulher que vende mel! Que imaginação.

Dizem que a empregada do prefeito foi quem contou a história na padaria e pediu segredo, mas quem é que pede segredo na padaria? Pior que padaria pra guardar segredo é ponto de táxi, naquele tempo não tinha isso lá ainda não, a gente mandava um moleque ir na casa do motorista e ele ia buscar a gente.

 

Mas de repente viram um movimento muito forte lá na ponte, um monte de carro vindo pro lado de cá e vindo na direção da cadeia. Na frente daquele monte de carro vinha o jipe velho da delegacia, que quase nunca conseguia terminar uma diligência, enguiçava a toda hora. E o jipe parou na porta da delegacia e começou a descer soldado empurrando as pessoas, era o Alisador que tava lá no banco de trás. Era ele. Um negão enorme, feio, sem dente, com cara de idiota, assustado, com medo de levar porrada. Porque o pessoal tava a fim de dar muita porrada nele, imagina! entrar na casa do prefeito, que era uma pessoa querida na cidade, deitar com a mulher do prefeito, que vivia rezando novena, era abuso demais. Pois antes que o Alisador descesse do jipe, o povo avançou em cima e toca de sacudir o jipe pra virar, o motorista do jipe viu que a coisa ia ficar feia, ligou o motor e eu ouvi o delegado gritar pra ele "toca pra Campos, toca pra Campos".

O jipe saiu empurrando as pessoas, só com o motorista e o Alisador no banco de trás, e logo atrás foi outro carro velho da delegacia, eles conseguiram varar a multidão e tomar o rumo da estrada pra salvar a vida do Alisador.

Ninguém sabia quem era ele, ninguém soube como a polícia chegou nele, tem gente que acha que ele nem era o tal Alisador, que pegaram ele pra cristo, pra dar uma satisfação, já naquela época a polícia fazia isso, muito diferente da época do Getúlio, que o tenente Coaracy Nunes mandava era matar esses caras que vinham do Nordeste pra trabalhar na lavoura de cana, mas ficavam loucos, a miséria enlouquecia eles muito antes de juntar qualquer coisinha pra voltar pra Pernambuco. Deixaram ali naquela região muita comida gostosa que se come até hoje por ali, e foram esses caras que trouxeram carne seca com abóbora, essas comidas pesadas, feijão com farinha, coisa que dá sustança, mas não alimenta muito bem não, se não essas pessoas não ficavam assim maluquinhas, é muita necessidade.

Eu vi o jipe sumir na curva lá no fim da rua e juro pra vocês que nunca mais ouvi falar desse tal de Alisador, nem mesmo a mulher que vende mel comentou isso comigo, mas a gente voltou a dormir de janela aberta lá na cidade, aquele calorão danado, todo mundo trancado, não tinha ar naquela época, era só ventilador barulhento. Que sossego!

Mas, e se não fosse ele o Alisador? E se começasse de novo essa história de deitar na cama das mulheres dos outros pra alisar e depois escrever bobagens nas paredes?

Nunca mais aconteceu. Se aquele não era o Alisador, o verdadeiro Alisador deve ter se borrado de medo com a multidão enlouquecida. Pode ser até que ele estivesse ali no meio da gente gritando mata mata mata...

Rio, dezembro de 2009.

Romildo Guerrante jornalista e reside atualmente no Rio de Janeiro.

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