Saldanha, o grande conversador

 

Romildo Guerrante

 

 

Fui um dos pouco mais de 50 jornalistas que atenderam ao convite para a inauguração do Auditório João Saldanha, na sede do Sindicato dos Jornalistas do Rio de Janeiro, em manhã quente de julho, a convite de fieis amigos botafoguenses, para homenagear talvez um dos maiores de todos eles. Saldanha, ex-jogador do alvinegro, polêmico técnico da seleção brasileira que pouco durou no comando porque era íntegro e não levava desaforo pra casa. O ditador de plantão na época, Garrastazu Médici, gaúcho como ele, quis escalar a seleção. Saldanha não aceitou porque, segundo ele, não lhe cabia escalar o ministério. Se, pelo menos, houvesse reciprocidade...  

 

Cheguei cedo e, lá no Sindicato, encontrei muitos amigos que conviveram comigo e com Saldanha em diferentes redações de rádios, jornais e televisões brasileiros. Pude conhecer duas filhas dele, Sonia e Ruth, convidadas para a cerimônia singela de descerrar uma placa ainda mais singela, oficializando o nome do auditório para homenagear o cronista incomparável.

 

Sônia falou da integridade do pai, indiscutível. Ruth pegou outro aspecto, e não foi menos verdadeira: Saldanha adorava uma esquina pra conversar. Transformava qualquer lugar em esquina pra jogar conversa fora. Disse que o pai fez do sindicato uma de suas esquinas. Me lembrei que ele fazia da Editoria Política do JB, onde eu ainda trabalhava no final da década de 80, também uma esquina pra conversar, muito pouco de futebol, quase sempre de política.

 

 

Animal político do Partidão, Saldanha vinha de Barra de Maricá nos fins de semana, meio a contragosto, pra trabalhar, e ficava ali contando histórias sem fim. A conversa começava quase sempre com o redator Marcos de Castro, mas em pouco tempo se formava uma roda em torno dele.

 

Às vezes percebíamos que aquela roda alegre incomodava meia dúzia de burocratas que haviam tomado o JB de assalto na época, MBAs que calculam produtividade de redação, fazem contas com despesas de táxi, criam comboios para baixar o custo dos carros de reportagem. Gente assim, aparentemente mau-humorada, porque a conversa do Saldanha, que entremeava algumas mentirinhas inofensivas, era muito divertida.

 

O fôlego então já lhe faltava. O enfisema que o mataria no início de 1990 estava bem avançado. Não se perturbava. Nada parecia perturbá-lo, exceto a burrice. Tossia e, quando a tosse passava, continuava a história. O jornal que esperasse o artigo dele.

 

Antes do descerramento da placa, foi projetado um slide show com frases e fotos do Saldanha, o João Sem Medo. Uma dessas frases me trouxe de volta a memória da redação do JB:

 

"Mais de 30 linhas é enrolar o leitor".

 

Verdade profunda. E eu estava quase chegando lá.

 

 

*Transcrito do blog Quem é vivo sempre aparece.

 

Romildo Guerrante é jornalista e reside atualmente no Rio de Janeiro.

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